DCC – Capítulo 58 – 3Lobos

DCC – Capítulo 58

Obliterante

 

Quanto mais de perto, mais eu achava Emil parecido com Henry. Imagino se seria assim que Henry pareceria se tivesse continuado a envelhecer.

— O que é você? — Emil repetiu a pergunta.

— Acho que você deveria começar com um pedido de desculpas! — Eu comentei levemente distraída. Aqueles olhos… aquela força… ele estava tentando usar onisciência em mim? Ele trincou as sobrancelhas intrigado.

— Me-mestre! — Amelie gaguejou recuando um pouco, aturdida. — Por favor…

— Vê? — Emil apontou para Amelie. — Essa deveria ser a reação correta.

Eu virei para olhar Amelie, que estava encolhida e havia perdido toda a compostura, recuando assustada de Emil.

— Como você consegue? — Emil perguntou de novo.

— Consigo o que? — eu retruquei quase impaciente.

— Você simplesmente encara meus olhos e não sente nada? — Ele insistiu. Então ele realmente estava tentando alguma arte da onisciência comigo.

— Desculpe, mas eu não acho que é educado atacar as pessoas dessa forma! — Eu retruquei. — E nem de outras formas mais diretas… — falei, lembrando ele de mais cedo.

— O que você quer para deixar o lado de Henry, e ficar do meu?

Nossa, que direto! Eu ri.

— Não acho que você tenha o necessário para me comprar! — eu caçoei.

— Então você tem um preço? — Esse cara era esperto.

— Não foi isso que eu disse! — respondi por alto.

— E mesmo que ela tivesse, e você soubesse qual era, ainda não seria capaz de tirar ela de mim. — Henry apareceu entre nós e segurou a minha mão, me puxando mais para perto dele.

— É… você sempre teve os melhores brinquedos. — Emil comentou.

Que? Eles iriam a fôrra agora por conta de picuinhas infantis?

— E você sempre tomava todos. — Henry respondeu.

Comecei a esperar que os dois fossem ter alguma reação absurda como Henry teve com Louie. Mas a tensão foi apenas aumentando.

— Que espécie de criatura bizarra é essa que você trouxe pra minha casa? — Emil perguntou, mudando a expressão e mostrando cada vez mais irritação.

— Isso não é da sua conta. — Henry respondeu grosseiramente.

— É a minha casa. E eu não considero você bem-vindo — Emil retrucou.

Henry suspirou fundo, parecendo cansado.

— Eu não pretendo ficar, se é isso que teme.

Emil trincou as sobrancelhas, olhando fixamente para Henry, como se quisesse pegá-lo na mentira:

— Então vá embora agora!

— Você não é capaz de me obrigar a sair. E eu ainda não consegui o que vim buscar.

Emil parecia estar perdendo a compostura. Ele realmente devia odiar Henry.

— Eu não sei qual é o seu plano vindo aqui, mas você é um traidor. Traiu a nossa casa e a nossa família. E uma vez traidor, sempre traidor.

— Eu apenas saí de casa e escolhi o que fazer da minha vida. Não abandonei nossa família. Nossa família que me abandonou. De qualquer forma, isso sequer tem importância, — Henry disse.

— Você fala como um Brard. Brards levam vidas curtas, insignificantes e sem graça, então fazem uso dessa tal liberdade de escolha para se sentirem parte de algo maior, em vez de admitirem que são incapazes de contribuir significativamente para coisas que estão além do controle deles. — Emil me lançava olhares significativos enquanto falava, como se minha presença ali provasse seu ponto.

— Basta! — Dessa vez foi Dominik quem interviu.

Dominik se aproximou com o que eu acho que devia ser uma pressão esmagadora para os outros convidados que estavam por perto ouvindo a discussão. Quase simultaneamente com a chegada dele, todos os outros envergaram ao ponto de parecerem estar prestando reverência, como os guardas do palácio envergavam quando Marco falava com eles.

Emil abaixou a cabeça, mas manteve a postura. Já Henry, e eu permanecemos parados como se nada tivesse acontecido. Depois de ter encarado Marco algumas vezes, esse tipo de enfrentamento não era lá grande coisa.

Dominik olhou para mim surpreso e me avaliou de cima a baixo.

— O que é você? — ele perguntou.

— Por que vocês ficam me fazendo essa pergunta? — reclamei indignada.

Henry apertou minha mão, me puxou mais pra perto dele, e passou a mão por cima dos meus ombros. Então ele disse:

— Eu já disse antes: ela é apenas alguém de talento que quer ir pra academia, e é minha mulher.

— Entendo… — Dominik disse calmamente liberando a pressão que estava exercendo nos demais, mas sem tirar os olhos de mim.

— Agora, se vocês me derem licença, acho que já deu esse banquete, — Henry disse, me arrastando pela mão até a saída do salão.

Mas dessa vez foi Petra quem se colocou à nossa frente.

— Por favor, meu filho, não seja assim. Emil só está magoado. Tenho certeza de que se vocês conversarem, irão se entender… Não deixe a festa agora. Está apenas começando…

— Por favor, mãe… Menos. Nem eu, nem Alésia somos bem-vindos aqui, e não adianta fingir que quer minha presença. Não sou uma criança pra cair nesse drama. Diga o que quer pela carta de recomendação e então podemos nos livrar desse desconforto.

Petra me olhou furiosa, como se eu que estivesse controlando o filho dela, então respirou fundo e falou:

— Muito bem, então. Eu mandarei alguém buscá-lo para tratar quando eu decidir com seu pai.

Henry acenou e deu a volta. Continuamos andando até estarmos longe o suficiente para não ouvir mais nenhum murmurinho do banquete.

— O que foi toda essa comoção afinal? — perguntei quando ele finalmente começou a diminuir o passo.

— Eles estão desconfiando de você. No máximo vão pensar que você é mestiça, mas não é bom dar a eles oportunidade de investigarem demais, — ele disse cansado.

— O que isso quer dizer?

Henry continuou andando sem dizer nada até chegarmos ao quarto.

— Quando você se tornou uma obliterante? — Henry parou de uma vez e se virou pra mim. Por pouco não me choco contra ele.

— O que é obliterante? — perguntei confusa.

Mas é claro que eu não precisava que ele me respondesse. Estando com a Sabedoria, apenas por pensar na pergunta, eu já teria a resposta, mas mesmo assim, ele respondeu:

— Bem, como você já sabe, existem os três poderes principais: onisciência, onipotência e onipresença. Mas eles são apenas um lado da moeda. Do outro lado da onisciência, está o poder da obliquação. Um artista obliterante é mestre em Obliquação… eu devia ter me atentado mais pra isso. Era óbvio o tempo todo…

— Isso o que? — perguntei confusa.

— Você! A forma como você anula os poderes de Marco, e como resistiu ao meu pai. Isso está além de qualquer poder que as relíquias tenham dado a você. Isso não é apenas um poder mental forte. — Henry colocou a mão na testa como se tivesse tido alguma espécie de epifania e começou a andar de um lado para o outro. — Meu pai é um artista experiente, então mesmo essas pessoas não seriam capazes de lidar com ele de cabeça erguida como você fez. Isso sem falar de Marco. Um bom talento em onisciência consegue fechar a mente contra outros oniscientes, mas apenas um obliterante consegue resistir tão obstinadamente contra um ataque mental direto.

— E… qual é o problema nisso? — perguntei, estranhando a reação exagerada dele.

— O problema é que nunca existiu alguém naturalmente obliterante. Além disso, ser obliterante é ilegal. Claro, isso seria bem útil pra nós, se você já fosse uma mestre onisciente. Mas quando um mestre onisciente encontra um obliterante fraco em onisciência… eles começam a procurar por segredos. Talvez devamos considerar deixar a Casa dos Siever. Se eu te treinar em onisciência o suficiente para que camufle seu poder, então talvez você até possa entrar na academia ano que vem, disfarçada de mestiça…

— E o que eu vou ficar fazendo durante todo esse tempo?

— É só um ano — Henry contra-argumentou.

Só um ano?— repeti levemente exaltada — Eu sou uma Brard, Henry! Um ano é muito tempo! Um ano imperial é mais tempo ainda!!! Mesmo que eu não envelheça, ver esse tempo passar é uma tortura!

— Então o que podemos fazer? A não ser que você queira voltar rastejando pedindo arrego para Marco, nós não temos outra opção. Manter você em segurança é o mais importante…

— Não diga isso… — eu sussurrei ofendida. Desde quando isso tinha se tornado uma discussão? E ainda por cima por que o nome de Marco toda vez tinha que ser tocado quando falávamos sobre nossos planos?

— Quando você me falou que tinha trancado as suas memórias, quando ficou… naquele lugar… eu considerei que tinha sido um lapso psicológico, então deixei pra lá. Mas você fez isso intencionalmente?

Eu entendi o que ele quis dizer. Quando eu estava na Lua Laplantine, ter esperança era tão doloroso, que eu simplesmente me privei desses sentimentos. Esperança, saudades, alegrias, desejos… Então eu deixei apenas a minha vontade de viver de fora, e tranquei todo o resto no fundo da minha alma, para que eu não tivesse que lidar com isso. Há certos momentos em que sentimentos desse tipo atrapalham.

— Sim, — respondi. — Eu, intencionalmente, literalmente bloqueei todas as minhas memórias e sentimentos.

— Então devemos partir. Não poderia ser mais óbvio que você é uma obliterante. Correr o risco de deixar alguém descobrir que você é uma é arriscado demais. Mesmo que comprovem que você não praticou isso intencionalmente para esconder segredos criminosos, se investigarem você, irão mexer com coisas que não devem, e isso é bem pior.

Henry continuou andando de um lado para o outro resmungando com a mão no queixo enquanto pensava no que fazer. eu removi a minha luva e observei o bracelete que representava a relíquia da Sabedoria. Diferente das outras duas, Criação e Transformação, a Sabedoria não se aderia ao corpo do guardião, mas também não sairia assim livremente. Essa relíquia era como um preso que ansiava pela liberdade. Como uma sede insaciável. Que pode ser contornada, mas nunca evitada.

— Então desde que eu consiga provar que eu sou uma onisciente poderosa o suficiente para não ser subjugada pelo seu pai, isso quer dizer que eu ser uma obliterante não será um problema? — Eu “disse” enquanto observava o bracelete maciço.

— Quando isso acontecer, então… — Mas Henry parou de chofre e me olhou boquiaberto. — Espere, você acabou de… me enviar um pensamento?

Eu levantei meu olhar para ele, sentindo uma expressão obstinada se formar no meu rosto. O plano já tinha crescido na minha mente:

— Meu amor, acho que precisamos conversar.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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