DCC – Capítulo 57 – 3Lobos

DCC – Capítulo 57

O que é você?

 

Toda vez que meus olhos se encontravam com os de Amelie, eu sentia uma inquietação, um desconforto que eu não sabia explicar a razão. Amelie por outro lado, me olhava como se eu fosse algo exótico e magnífico, com um interesse que eu só poderia descrever como genuíno.

Isso era extremamente desconcertante.

— Como conheceu o mestre Henry?

— …

— Onde você mora?

— …

— De que planeta você veio?

— …

— Você conhece muitos lugares?

— …

Ela começou a me bombardear de perguntas, que para qualquer outro seriam perfeitamente comuns, mas eu não saberia como responder sem divulgar as informações que insistiam que eu deveria manter em segredo, ao mesmo tempo em que fazia parecer que eu não estava guardando um segredo. Porém, de qualquer forma ela sequer esperava muito tempo por uma resposta, e começava a falar sobre ela mesma como se eu quem tivesse feito aquelas perguntas.

— Henry virou meio que um tabu por aqui. Todos admiravam ele em segredo, inclusive eu. Mas também ainda tem muitos que menosprezaram a escolha que ele fez… foi um grande desperdício de talento mágico. Todos os jovens que cresceram aqui junto com ele costumavam se espelhar nas capacidades que ele tinha para…

— Eu moro aqui já tem quase cem anos. Madame me adotou como aprendiz, desde então eu vivo para ela…

— Eu adoro Nefrandir, mas na verdade nasci no 5º Quadrante, em um planetinha chamado Nabao, lá era muito bom também

— Eu nunca conheci muitos lugares. Desde que cheguei aqui, minha vida é pela Casa dos Siever, mas às vezes, eu dou uma volta sobre a costa de Dummont quando pratico voo. — Então, pela primeira vez ela começou a falar de uma forma distraída, quase sonhadora, quase como se estivesse falando para si mesma.

— Você gosta de voar? — perguntei.

— Mas é claro! Voar é a ambição de todo artista praticante de onipresença, já que não é exatamente uma coisa que possamos dominar porque está no campo da onipotência! Poder controlar o próprio corpo e ver a imensidão dos horizontes no alto do céu… não há sensação melhor! — ela respondeu empolgada. — Pelo menos eu imagino que não tenha…

— Mas você não voa? — perguntei intrigada.

— Todos da minha idade já sabem uma coisa ou outra sobre como flutuar. Não se deve arriscar a ir além de 2 ou 3 metros de altura, antes de ter maestria no controle da arte. Perder a concentração é muito fácil, e cair de uma grande altura pode ser fatal! — Amelie comentou resignada, como se estivesse proferindo uma regra óbvia do capítulo 1 do guia de voo.

Acho então que este não seria o momento de falar que eu não tinha problemas em perder a concentração enquanto eu flutuava.

— Amelie… — já que ela estava aberta a conversar comigo, resolvi fazer uma pergunta mais pessoal, — por que você quis aprender Artes Mágicas?

Ela me olhou como se eu tivesse feito uma pergunta retórica, com uma risadinha dançando nos lábios, mas quando percebeu que eu perguntei seriamente, ela parou de rir, e respirou fundo, contemplando um macaron em seu prato.

— Magia é a mais nobre das artes humanas. Para dominá-la, você deve conhecer o âmago da sua alma, e estar em harmonia com isso. Você deve saber e aceitar o que você é, e travar esforços todos os dias pra cumprir e ser leal àquilo que acredita. Ser um artista mágico é poder ser você mesmo acima de qualquer coisa, e encontrar o seu lugar no universo. Não seria essa a razão de vida de todos os humanos?

— Entendo… — Na verdade eu não entendi. Isso parecia um papo muito Jomon pra que eu entendesse. — Do meu ponto de vista, só parece que é algo interessante de se aprender.

— É uma forma um pouco individualista de se pensar, não é? — Amelie me questionou.

No momento em que eu estava para responder, uma pequena comoção começou a acontecer na entrada do salão do banquete. Eis que Emil resolveu dar o ar da graça, com a cara de quem havia acabado de cometer um homicídio e gostado da sensação.

Umas poucas pessoas que haviam se mantido distantes desde o início foram comprimentá-lo, e ele as recebeu com indiferença. Emil estava sendo tratado como a estrela da Casa dos Siever desde que Henry havia partido, e como ninguém sabia que Henry era bem versado em artes mágicas, todos desprezaram o nome dele pelos cinquenta anos que se passaram.

Mas após Dominik reconhecer a superioridade de Henry publicamente, é claro que todos o tratariam como um filho pródigo. Coisa que, pelo visto, nem Henry nem Emil queriam.

Henry lançou um olhar desconfiado para Emil, mas logo mostrou uma expressão neutra, quase cansada. Emil, que eu achei que iria armar alguma confusão, se dirigiu à varanda do salão e lá ficou encostado, olhando para a festa. Aparentemente ele havia vindo até aqui obrigado.

— Você soube que o mestre Emil sequer chegou a ser páreo pro mestre Henry?

— Eu ouvi dizer que Emil tentou atacar Henry, mas sequer foi capaz de encostar um dedo nele…

— Será que não são rumores exagerados?

— Não, eu vi a destruição da sala de recepção de visitas onde eles estavam… Tudo destruído!

— Mas o mestre Emil é simplesmente um dos mais poderosos da Casa dos Siever! Como Henry poderia ter sido um adversário à altura?

— Eu já medi forças com mestre Emil no treinamento uma vez, o domínio dele é absurdo, e ainda assim ele não chega aos pés do mestre Henry? Será que nesses anos todos que ele saiu ele na verdade foi para fazer algum treinamento secreto que descobriu por acaso?

Conversas desse tipo começaram a eclodir por todos os lados. Pessoas comentavam empolgadas sobre o estado de destruição que a sala  de recepção tinha ficado, e como Henry provavelmente era tremendamente poderoso. Alguns discutiam inclusive se Henry na verdade era o herdeiro de Marco, como um reserva para se tornar o próximo Imperador.

— Esses ratos traiçoeiros… ficam falando essas coisas do mestre Emil… — Amelie comentou irritada, depois de ouvir alguns dos comentários. — É claro que mestre Henry tem todos os méritos de voltar para casa com tanto poder, mas isso não dá a ninguém o direito de se expressar de tais formas sobre nosso futuro líder.

— Futuro líder? — um rapaz ouviu o comentário de Amelie e se intrometeu na conversa. — Pelo andar da carruagem, eu não duvidaria se até o fim do banquete Vossa Excelência Dominik fizesse um pronunciamento pra trocar a herança da Casa dos Siever de mãos.

— Se ele o fizer, então DEPOIS comente sobre a troca de herdeiros! — Amelie o repreendeu zangada. — Se mestre Henry decidir assumir nossa casa, então eu o seguirei, mas enquanto a casa é de mestre Emil, Emil é nosso líder e devemos respeito a ele. Não sabe que essa fissura que está fazendo com as palavras acaba por destruir nossos vínculos?

Eu fiquei impressionada com a pressão que Amelie exerceu sobre o carinha que tentou confrontá-la. Ela era realmente devotada aos Siever.

— Deixe ele pra lá, Amelie… — comecei a falar.

— Você é muito hipócrita de querer me dar lição de moral estando associada com gentinha desse tipo. Provavelmente só está fazendo isso para puxar o saco do mestre Henry — o rapaz comentou em desgosto depois de me ouvir falar.

— Com quem eu me associo não lhe diz respeito. — Amelie retrucou. — Se ela fosse alguém que iria prejudicar nossa casa, então eu seria a primeira a me opor sobre a presença dela aqui, mas se o que querem é que ela seja nossa amiga, então eu serei amiga dela, e não há nada que você diga que possa diminuir isso, e a não ser que Vossa Excelência Dominik em pessoa peça para que ela se retire, ninguém aqui tem autoridade de pedir ou de destratá-la.

— Humpf… — o rapaz resmungou e se retirou.

— Obrigada, Amelie, mas não precisa se colocar em nenhuma situação difícil por mim — eu comentei por alto. — Também não precisa se esforçar a fazer amizade comigo apenas pra chamar atenção de Henry, não vamos ficar aqui muito tempo de qualquer forma.

— Oh! — Amelie exclamou surpresa. — Seria uma pena se não ficassem, mas você não precisa se preocupar comigo. Eu me colocaria em qualquer situação pelos Siever, mas eu não estou querendo ser sua amiga para chamar atenção de Henry. A vida de mestre Henry é algo maravilhoso, mas há coisas maiores que isso no momento, e devemos levar nossos pensamentos em harmonia para…

Ela falava como uma fanática religiosa profetizando sobre a vinda de um messias. Mas eu ri.

— Ok então…

Então você vai me dizer que está em uma posição diferente da de Amelie?

Eu levei um susto. Uma voz ressoou dentro de minha mente, me fazendo a pergunta. Eu já tinha tido essa sensação antes, durante o festival de ano novo em Keret. Parece que havia outro onisciente extremamente capaz tentando conversar comigo sem mais ninguém perceber.

— Quem…? — Eu girei minha cabeça em direção a varanda, instintivamente sabendo de onde a voz vinha.

Meus olhos se encontraram com os de Emil. Ele me olhava, não com desgosto, mas com uma expressão de tédio que me lembrou muito a de Marco, nas vezes que falou comigo.

Só me responda… por que você? — Emil perguntou

Como assim? — respondi mentalmente. Fiquei imaginando se ele podia ouvir o que eu estava pensando. A ideia não era lá muito confortável. Como Brard, eu vivi a vida com a ideia de que a nossa mente era o último reduto de segurança e privacidade que tínhamos. Contatos com o Imperador a parte — porque eu duvido muito que qualquer Brard vá ter a oportunidade de encarar o imperador — eu não imaginei que a mente pudesse ser invadida tão facilmente.

Emil permaneceu calado por um tempo, sustentando o meu olhar, até trincar as sobrancelhas. Então ele se levantou e se aproximou de mim e de Amelie, que eu vim reparar que ainda falava.

— …que tenham responsabilidade de arcar com a tarefa de estar aqui na casa dos… Ah! Mestre Emil! — Ela se sobressaltou quando percebeu que Emil estava ao nosso lado.

— Devo dizer que isso é intrigante, por isso, acho que seria bom trocar a minha pergunta. O que é você? — Emil perguntou me encarando com força.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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