DCC – Capítulo 56 – 3Lobos

DCC – Capítulo 56

O Banquete

 

O aviso de Louie pareceu um pouco exagerado, mas eu não me atrevi a duvidar, apesar de que, por Louie dramatizar tanto não dava para leva-lo realmente a sério, o que era ao mesmo tempo constrangedor e engraçado.

Henry preparou um vestido para mim, longo, de mangas longas e sem decote. Apesar de parecer extremamente “comportado”, ele era uma daquelas roupas que transmitiam dignidade de longe. O tecido, sedoso e macio, era quente e brilhava de uma forma quase mística. Ele colocou uma roupa leve e assentada que fazia com que ele lembrasse um sultão descontraído.

Louie não iria nos acompanhar. Ele precisava manter o status dele dentro da Casa dos Siever, e declarar abertamente o apoio dele ao mais recente rival do novo herdeiro não era a decisão mais sensata no momento.

O salão de festa da Casa dos Siever era extravagante e excessivamente decorado, lembrando consideravelmente a decoração de certos ambientes no Palácio Imperial. Quando chegamos, já havia uma quantidade considerável de pessoas aguardando para comprimentar Henry.

Achei interessante notar que boa parte deles faziam questão de me ignorar completamente, como se eu não estivesse lá, e os demais que me “notavam”, o faziam expressando um certo desgosto.

Ai, ai…

Henry comprimentou solenemente todos os que se apresentaram. Alguns ele pareceu mais animado em ver do que outros. Dominik e Petra trataram de também trazer novas pessoas que queriam apresentar ao filho. Já Emil, pelo menos até o momento, parecia que não viria.

O clima estava razoavelmente bom, e em um determinado momento começaram a servir o buffet. A mesa posta era impressionante, com uma variedade de comidas das quais eu nunca tinha visto. Várias opções de bebidas quentes e frias, além de aperitivos diversos, em louça fina e prataria decorada.

Dei uma olhada rápida para Henry, ainda ocupado conversando com todas aquelas pessoas, então resolvi dar um pulinho lá. Uma das vantagens de ter entrado nessa vida com ele era poder provar todo tipo de comida diferente de todos os lugares que a gente poderia ir — apesar de não termos ido pra tantos lugares assim até agora.

Doces me animavam bastante. Me davam mais energia, coisa que eu sempre precisava, fora que eu sentia que precisava recuperar uma parcela considerável do peso que tinha perdido nos últimos anos.

Eu nem sabia por onde começar. Tudo parecia uma delícia. Foi quando estava servindo um prato, que uma moça esbarrou em mim. O prato espatifou-se no chão, espalhando os doces que eu já tinha servido.

— Oh, minha culpa! — disse ela, me olhando de cima pra baixo. Pela cara de deboche dela, isso foi evidentemente intencional. Era realmente um saco ser baixinha comparada a esses Jomons. — Deixa que eu pego outro pra você!

Ela apontou a mão para um prato do outro lado da mesa, que veio flutuando graciosamente em nossa direção, e o estendeu para mim, mas antes que eu pudesse recebê-lo, ela o soltou no chão, espatifando-o em vários cacos.

— Nossa… que clichê… — eu resmunguei, dando a ela um olhar de desprezo, e lhe dei as costas. Era só o que me faltava!

— Ei pobrezinha… não vai mais se servir? Você parece tão desesperada, que pensei que iria querer devorar a mesa inteira! — ela disse caçoando.

Eu suspirei profundamente. Eu não estava mais acostumada a aturar esse tipo de bullying barato. Mas eu estava na tal Casa dos Siever… aparentemente um local onde a elite da magia se concentrava. E eu tinha vindo para pedir um favor. Então o mínimo que eu deveria fazer era me comportar.

Mas então a moça resolveu continuar. Ah… isso não foi uma boa escolha.

— Ei, brard. Se veio em nossa casa pra esmolar, então deveria fazer direito! Aproveite a comida! — ela disse, fazendo mais um gesto com a mão, e a comida que eu tinha servido para mim no primeiro prato veio voando em minha direção. Quando a massa de comida estava prestes a me atingir, mentalizei o encanto Marionete, que me permitia manipular livremente os objetos ao meu redor. O feitiço fez com que toda aquela comida estragada voando em minha direção parasse no ar a centímetros de me atingir.

A expressão de choque no rosto da moça e de todos os que tinham parado para ver o que deveria ter sido uma humilhação fácil foi bem evidente. Por minha vez, o meu desprezo também estava bem evidente.

— Eu não sei quando aconteceu… mas eu acho que devo ter te dado a impressão de que pode mexer comigo… — eu comentei lentamente, ainda segurando a comida suspensa no ar pelo meu feitiço.

A moça se recuperou rápido do choque e os cantos de seus lábios se levantaram, em um sorriso presunçoso.

— Olha só! E não é que a ratinha sabe mesmo alguns truques? — ela caçoou. Os outros ao nosso redor que tinham parado para assistir começaram a rir junto.

Haja paciência… e paciência era uma coisa que eu não tinha mais, principalmente depois que alguns poucos limites eram quebrados.

— Ai, ai… — Fazia um tempo que eu estava querendo testar meu controle sobre uma certa habilidade, então mentalizei Gravidade. Foi instantâneo e, devo dizer, hilário.

Com um gritinho assustado, a moça caiu de joelhos, junto com uma parcela considerável dos que estavam próximos de nós. A partir daquele momento, os que foram pegos desprevenidos no meu curto raio de ataque não seriam mais capazes de sustentar o peso dos próprios corpos. A moça, evidentemente, havia me julgado muito abaixo do seu nível para tomar precauções contra mim.

— Deixa eu ver se posso ser mais clara, gatinha… — eu comentei, me aproximando da moça confusa e ajoelhada no chão, observando o rosto dela ficar vermelho de tanta força que fazia — Você deve ter se enganado em algum momento, por achar que pode mexer comigo. Isso é tão cafona… Poderia muito bem ter passado sem essa. Ah… — eu apontei para o vestido impecável dela, e a bola de comida que liberei do feitiço caiu até se espatifar no peito dela, deixando-a imunda — Acho que está um pouco sujo aqui. Então eu dei as costas e saí. Já estava ao lado de Henry de novo quando liberei o Gravidade.

A moça levantou-se tremendo de raiva e saiu batendo os pés e com uma cara de quem estava para cuspir fogo. Várias pessoas que também tinham sido pegas pela gravidade levantaram-se sem jeito e juntaram-se em um canto para cochichar.

A velha sensação esquisita que eu tinha nas profundezas da minha alma desde que peguei a Sabedoria revirou. Era como se fosse uma crise ansiosa me dizendo que eu tinha algo urgente pra fazer, mas eu não tinha ideia do que era.

— Você não deve se meter com essas pessoas. Eles vão tentar qualquer coisa para pisar em você! — Henry disse quando me viu de volta.

— Eu bem que queria, mas eles que ficam se metendo comigo… — respondi emburrada. Essas brincadeirinhas idiotas só me faziam me sentir mais e mais infantil. Parecia até que sair de perto de Henry me dava azar.

Petra Siever:


Então a ratinha atrevida sabe mesmo alguns truques… — Pensei comigo mesma, observando de longe a comoção próxima à mesa posta, — e ainda por cima tem o atrevimento de exibir eles contra Jomons…

Se Henry tivesse voltado para casa apenas como um bioengenheiro médico inútil, eu não faria questão de vê-lo de novo. Mas a situação era completamente diferente. De alguma forma bem perceptível, ele havia se tornado extremamente poderoso. Mais poderoso do que Emil, que passou todos esses anos apenas sendo preparado para assumir a liderança da Casa dos Siever. Mas Henry sempre foi talentoso para magia, apesar de sempre ter sido relapso também. Um talento absurdo, desperdiçado em uma mente tão… simplória. Mas agora que ele tinha voltado em tais termos… e depois de apenas cinquenta anos, se tornado tão poderoso, eu não poderia permitir que ele partisse.

A Casa dos Siever poderia passar sem o talento de Emil, mas depois de todo o poder e influência que Henry conseguiu, mesmo não estando no centro das atenções da galáxia por quase uma década, depois de ter desaparecido da mídia… não poderíamos dispensar o talento e a posição de Henry. Ser o pai biológico do príncipe imperial também era uma coisa bastante vantajosa para nós. Faziam gerações que nenhum Siever virava imperador.

A única desvantagem… era esse envolvimento insistente dele com os Brards. Era sabido que a mãe do Príncipe Isaac era uma Brard. Todos pensavam que tinha sido apenas um relacionamento estratégico para acabar com a guerra contra aquela gentinha, mas se Henry era pai biológico de um mestiço, e ainda vinha até aqui com uma… ele precisava ser elucidado sobre a pobreza de espírito desse povo.

A arrogância dela em agir contra uma Jomon em terras Jomons era absurda! Eu não podia permitir que ela achasse que podia ganhar em um jogo de gatos e ratos. Eu iria remover aquela pústula da minha linhagem.

— Amelie! — chamei.

— Sim, madame. — Amelie se apressou em me atender. Essa menina era boa, por que acima de tudo, ela acreditava que o certo era me obedecer.

— Vá, e faça amizade com Alésia. — Urg… até o nome dela parecia vulgar.

— Sim, madame.

Ela concordou sem questionar e se retirou para perto de Henry e da garota.

Por enquanto, Amelie não precisava saber de mais detalhes. Eu precisava apenas afastar a ratinha de Henry o suficiente para falar a sós sem chamar atenção.  Por enquanto, eu apenas monitoraria de longe. Essa brard era anormal de alguma forma.

Alésia Latrell:


— Olá! Ouvi dizer que você é uma Brard! Isso é verdade?

Eu virei na direção de quem falava comigo, e uma moça bonita de cabelos curtos, e olhos grandes sorria pra mim. Normalmente eu acharia que alguém se aproximando de mim fazendo tal observação aqui neste lugar seria…  rude. Mas ela não estava demonstrando ter nenhuma outra intenção além de perguntar.

— Pode-se dizer que sim… — eu respondi lentamente com um pé atrás.

— Que interessante! Então você deve ser bem novinha! — Ela comentou, parecendo cada vez mais curiosa. — Você tem quantos anos?

— Ah… nove e meio…

— Nossa… isso é realmente muito pouco! E você já é uma mulher feita! — Ela continuou a falar. — Muito prazer, meu nome é Amelie. Gostaria de ser minha amiga?

Ui. Que direta! Isso era realmente um pouco desconcertante, levando-se em consideração que todas as outras pessoas estavam me ignorando completamente ou sendo intencionalmente agressivas.

— Por que quer ser minha amiga, Amelie? — perguntei desconfiada. Que conversa estranha…

— Por que é o que devemos fazer! — Ela respondeu só sorrisos, como se fosse óbvio. Então ela agarrou na minha mão e me arrastou para a mesa posta. — Vamos, eu vi mais cedo que você queria comer, você tem que provar a comida nefrandina.

— Ah, claro! — comentei surpresa. Olhei para trás e Henry estava nos observando parecendo preocupado, mas continuava cercado por várias pessoas que ele ainda tinha que cumprimentar. Ele encarou profundamente Amelie por uns segundos e depois deu de ombros pra mim. Parecia que não havia nada de errado com as intenções da moça. Mas nem por isso eu me senti mais tranquila. Ela parecia muito afoita.

— Só tente não provocar demais os outros, e nem saia de perto, sabe… podem tentar te pegar desprevenida e te pregar uma peça. Boa parte das pessoas aqui não tem a menor consideração por Brards, — ela explicou descontraidamente, enquanto servia um prato para si mesma.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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