DCC – Capítulo 55 – 3Lobos

DCC – Capítulo 55

Louie

 

Pouco tempo depois, um rapaz apareceu:

— Boa tarde Mestre Henry, vim acompanhar vocês para suas acomodações. — Ele disse depois de Henry desfazer a barreira de som.

— Muito bem. — Henry respondeu, e nós o seguimos.

O rapaz nos levou até a ala leste da casa principal da propriedade e paramos em frente a uma porta.

— Aqui está a suíte do Mestre Henry. A moça, se puder me acompanhar até…

— Ela fica comigo! — Henry interrompeu o rapaz bruscamente, e agarrou a minha mão, me puxando pra mais perto.

O rapaz pareceu ficar escandalizado e sem palavras. Ele parecia estar em um sério debate interno sobre se deveria ou não falar alguma coisa.

— Mas… o senhor não pode… com alguém desse tipo…

— Darci! — Uma voz chamou em repreensão do outro lado do corredor.

O rapaz estremeceu e virou-se em direção à voz:

— Senhor Louie! — respondeu apressado com tom bajulador. — Fiz alguma coisa errada?

O tal Louie aproximou-se olhando com desprezo para Darci enquanto colocava as mãos nos quadris.

— Não me lembro de terem passado alguma permissão para você expressar sua opinião para as visitas! — Louie repreendeu.

Eu não gostei do comentário de Darci. Era evidente que o pessoal aqui tinha uma implicância muito grande contra Brards, e por algum motivo eles conseguiam perceber minha etnia logo de cara. Porém, Louie não me deu nenhuma sensação de estar me defendendo. Muito pelo contrário, a presença dele só pareceu aumentar o clima de animosidade.

Darci se apressou em apresentar um pedido de desculpas sem jeito e saiu correndo aos tropeços, depois de olhar umas duas vezes para Louie, como se esperasse que este não lhe desse permissão para sair. Henry continuou parado apenas assistindo a situação ao meu lado, com o rosto impassível.

— Então, veja só quem voltou! — Louie cumprimentou Henry, com o tom de voz levemente irônico.

Henry apenas fez um leve aceno com a cabeça e abriu a porta pronto para entrar.

— Infelizmente, mestre, servos realmente não são permitidos de residir nesta casa, como bem lembra! — Louie apressou-se em se colocar na frente da porta, bloqueando nosso caminho, aumentando o tom irônico. — Se quer se divertir com ela durante a noite, devo pedir para reservar um quarto mais apropriado?

O que diabos esse maldito estava falando? Eu abri a minha boca para começar a reclamar, mas antes disso, senti o aperto da mão de Henry na minha.

— Fosse este o caso, eu agradeceria sua intervenção, — Henry disse sério. — Mas já que eu estou sendo hospedado como visitante e não como herdeiro, creio que ela não é necessária. Pelo que me lembre, as regras da casa não se aplicam a visitas.

Louie trincou as sobrancelhas abrindo levemente a passagem da porta, com uma expressão brava.

Henry me empurrou para dentro do quarto e passou logo em seguida. Louie continuou parado na porta, olhando para nós com a expressão taciturna.

— Então você vai insistir nesse… absurdo? — Louie perguntou dando alguns passos ameaçadoramente na direção de Henry. — Infelizmente você sabe que eu, como chefe da ordem nesta residência, tenho que dizer o quanto isto é imoral?

Henry trincou as sobrancelhas também, e ficou cara a cara com Louie como se o desafiasse a chegar mais perto.

— Muito bem, então! Como chefe da ordem nesta residência, eu devo lhe ensinar uma lição! — Louie bateu os punhos ameaçadoramente na direção de Henry, e Henry empertigou-se mais ainda com os braços cruzados.

Essa não. Recuei mais para dentro do quarto e fiquei observando aquela tensão estranha. Quando para todas as minhas expectativas, Louie saltou e deu uma chave de pescoço e Henry, que caiu rendido.

QUE???

Como assim ele capturou Henry e foi capaz de acertar nele de forma tão previsível? No meio do movimento, Louie bateu a porta do quarto e começou a dar brogues, esfregando o punho fechado com força na cabeça de Henry, ainda o prendendo pelo pescoço.

— Seu patife miserável, filho de um cachalote espacial endiabrado! — Louie começou a falar enquanto segurava Henry.

— Ta bom! Ta bom! Me rendo! — Henry começou a gritar tentando proteger a cabeça com as mãos. Os cabelos dele tinham se soltado do rabo de cavalo e começaram a assumir o formato enevoado que tinha quando o conheci.

— É bom mesmo que saiba o seu lugar! — Louie soltou Henry e se empertigou com a expressão séria e julgadora.

Henry, se aprumou um pouco e voltou-se para Louie. Ele parecia ameaçador agora. Que espécie de situação era essa? E como Henry, um mestre em magia além de qualquer outro, teria sido subjugado por esse sujeito. Será que Louie era ainda mais formidável?

Foi então que os dois começaram a gargalhar.

QUE?

Eu estava perdida ali no meio daquela situação. Quase me arrependendo de ter vindo pra este lugar hostil, e eles dois rindo?

E eles riram e riram até ficarem sem fôlego.

— Como você se atreve a me abandonar por todos esses anos e ainda voltar aqui com uma mulher e nem me apresentar? — Louie falou entre lufadas de ar.

— Ha! Como se eu não tivesse te convidado pra partir comigo! — Henry comentou feliz. — Você foi quem me abandonou seu pivete malcriado.

— Olha quem fala, sua mula jurássica.

— Vai querer me encarar a sério, chorãozinho? — Henry ameaçou entre sorrisos mostrando o punho na frente de Louie.

— Claro, vamos acertar nossas contas! — Louie levantou o próprio punho e o colocou contra o de Henry.

Então eu que não aguentei mais. Comecei a gargalhar quase aos berros. Toda a tensão que eu achei que havia nada mais era que encenação deles dois.

— Que ridículo! O que foi essa encenação ridícula? Cadê a tão falada dignidade Jomon de vocês? — eu consegui falar entre gargalhadas.

Henry e Louie voltaram a rir.

— Louie era um bom amigo durante o tempo que eu ainda morava aqui — Henry começou a me explicar. — Ele foi o único que não achou grande coisa eu querer deixar a academia de artes mágicas e ir para a de bioengenharia médica. E depois que eu fui exilado da família, ele também foi o único que tentou manter contato, mas acabamos nos distanciando por conta da pressão.

— E a coisinha, quem é? — Louie perguntou apontando pra mim.

— A “coisinha” é a minha mulher, — Henry disse tacitamente. — Alésia tem um bom talento para magia, então seria bom pra ela entrar na academia.

— Hummm… — Louie exclamou se aproximando de mim. — Se você acha que ela tem o que é necessário para entrar na academia, então ela deve ser mesmo muito boa… mas, por que eu não consigo ver sua mente? — Louie perguntou me avaliando.

— Como assim? — eu disse.

Nós dois olhamos para Henry.

— Ela já tem um bom nível de desenvolvimento mental. Se não for um especialista em onisciência, como um inquisidor, provavelmente não vão conseguir pescar nada do que ela esteja guardando.

— Inquisidor? — Louie arregalou os olhos para Henry e depois ficou me encarando assombrado. — Ela… Mas ela é tão nova! E esse nível de autoproteção mental em uma Brard é sem precedentes! Você que a treinou?

— Na verdade, ela aprendeu sozinha… — Henry comentou orgulhoso, se colocando ao meu lado.

— Ual! Então ela é mesmo um achado! — Louie comentou animado. — Então ela realmente tem alguma chance… Você tem algum plano pra amanhã?

Dessa vez ele voltou a falar com a expressão séria.

— O que quer dizer? — perguntei.

— Muita gente já está sabendo sobre Dominik querer testá-la pessoalmente amanhã. Todos estão achando que é alguma desculpa para te humilhar. Isso se já não houver nenhum problema no banquete…

— Me humilhar? Por que os Jomons vivem querendo fazer isso? — perguntei zangada.

— Não são “os Jomons”, coisinha… o problema nunca foi a raça, mas a diferença. Tem gente que acha que só pode ser melhor se pisar nos que considera inferiores, ou mesmo que os inferiores não deveriam existir. Não é uma questão de Jomons e Brards. É uma questão humana. O ser humano sempre foi bitolado com isso. Você mesma já deve ter suas ressalvas… De qualquer forma, não generalize. Nem todos os Jomons são maus com os Brards, e nem todos os Brards são simpáticos altruístas.

— Bom, os Jomons que eu conheço, com certeza gostam de dar lições de moral em mim… — resmunguei.

— Há há! Isso deve ser verdade, mas provavelmente é por causa da idade… gente velha tem disso! Não sei nem como você aguenta esse coroa caquético! — Louie apontou para Henry.

— Como se você fosse tão mais novo, seu filhote de jaguatirica abissal… — Dessa vez foi Henry que deu um brogue na cabeça de Louie.

Eu ri novamente. A amizade desses dois era realmente bem peculiar.

— Mas Louie… você acha que papai faria alguma coisa contra Alésia? — Henry perguntou preocupado. — Talvez fosse melhor irmos embora antes que ocorra algum problema.

— Bom, Mestre Dominik ficou extremamente rigoroso nos testes, mas ele ainda é justo e imparcial acima de tudo. Acho que ele não desonraria a palavra de testá-la adequadamente, sendo que ele já disse que o faria. O que me preocupa… é Emil. Ele ficou realmente bem chocado com o seu retorno. Se ela não se provar digna, creio que ele vá tentar trazer mais problemas…

Louie suspirou pesadamente parecendo bem cansado ao lembrar de alguma coisa.

— E pensar que eu que tenho que organizar a reconstrução da sala que ele destruiu… — Louie fez uma expressão exagerada e dramática de que estava para chorar.

— Você acha que ele aceitaria conversar? — Henry perguntou ignorando a reação.

— Dificilmente… — Louie virou-se pra Henry já com um ar de curiosidade — Você… realmente derrotou ele?

— Eu não cheguei nem a lutar… — Henry respondeu.

— Aquele cara só chegou atacando do nada… ele tem que aprender a controlar a raiva. — eu disse, me lembrando do comportamento desequilibrado de Emil.

— Não é como se você pudesse falar sobre isso, não é? — Henry levantou a sobrancelha pra mim. Esse dia estava mesmo bem movimentado.

— Mas isso é bem sério — Louie comentou depressa, dessa vez parecendo solene, — Emil guarda muito ressentimento contra você, então ele não vai sentir remorsos em tentar te atingir… E agora que aparentemente ele não é capaz de fazer isso em um confronto direto… eu sinceramente recomendaria tomar cuidado.

— De qualquer forma, não pretendo dar a ele a oportunidade de tentar me afetar. Eu imagino que ele deva realmente ter passado a me odiar do fundo do coração depois desses anos, mas não há nada que eu possa fazer. Eu não posso mais voltar para cá… e muito menos ocupar o espaço que eu ocupava antes.

— Muito bem, então. O banquete começa em uma hora. Arrumem-se a rigor e vão emocionalmente preparados.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: