DCC – Capítulo 54 – 3Lobos

DCC – Capítulo 54

Revolta

 

A onda de impacto foi forte suficiente para empurrar Henry até o canto da sala. A parede ao redor que não estava coberta pelo escudo de Henry colapsou enquanto os destroços foram mandados voando por vários metros, deixando o lugar completamente destruído.

Henry permaneceu parado com o braço erguido em sua frente, olhando com a expressão vazia na direção do recém-chegado. O homem que eu imaginei ser Emil saltou na direção de Henry com os punhos unidos e começou a martelar a barreira invisível de Henry. A força do impacto era tão grande que fazia meus tímpanos tremerem com o barulho.

Henry lançou um olhar rápido ao redor da sala com as sobrancelhas apertadas avaliando a situação e me fitou por meio segundo antes de saltar pra fora da sala. Emil correu atrás dele logo depois seguido de Petra e Dominik.

— Emil! Pare!!! — Petra gritou.

Eu flutuei para fora preocupada tentando acompanhar o que acontecia. Henry pousou no meio de um pátio e rapidamente foi cercado pelos ataques de Emil. Ao ver aquela “luta” senti um calafrio tremendo me perturbar. Emil era muito rápido: ele se movia com tamanha velocidade que eu mal podia acompanha-lo com os olhos. Cada onda de impacto que ele lançava contra Henry era tão forte que apenas o som resultante dos impactos era suficiente para fazer meu corpo inteiro sacudir e meus ouvidos doerem.

Emil investia tão selvagemente que parecia estar procurando por sangue. Mas Henry por outro lado, deixou claro, que se Emil era assombroso, ele não estava nem um pouco abaixo. O que me deixou mais impressionada foi que, enquanto Emil era tremendamente rápido, Henry mal parecia se mover. Ele tinha uma expressão vazia e uma postura ereta e elegante e a mão direita erguida na altura do peito. Emil sequer conseguia se aproximar. Todos os ataques paravam estrondosamente na barreira de Henry.

Depois de várias trocas de Emil, foi então que os pais deles resolveram tomar alguma atitude. Petra se apressou para agarrar Emil pela cintura — o que me deixou tremendamente assombrada, para uma mulher elegante como ela ter uma postura tão feroz e decisiva —, enquanto Dominik desapareceu de onde estava para reaparecer na frente do filho irritado. Em um movimento rápido Dominik pôs três dedos da mão esquerda sobre a testa de Emil, e os da mão direita sobre a lateral do pescoço onde ficava a jugular.

No instante em que isso foi feito, Emil parou de se mexer instantaneamente. Parecia ter controle apenas sobre sua fala.

— PAI!!! ME LIBERTE!!! — Emil começou a gritar. — Me deixe ensinar a ele uma lição… por favor, não o proteja…

— Deixarei você sair quando se acalmar… — Dominik disse pacientemente.

— Por que está o protegendo??? Ele abandonou nossa família! Ele não é mais seu filho… Ele não é mais meu irmão!!! Me deixe…

— EMIL! — Dominik esbravejou. A voz dele saiu com uma pressão esmagadora, como se fosse um trovão descendo do próprio céu. Eu pude sentir uma influência mágica semelhante à que eu podia sentir ao redor de Marco, apesar de ser significativamente menor, mas o poder foi suficiente para calar Emil e deixa-lo tremendo. — Não é Henry que eu estou protegendo. Você não é adversário para ele.

Eu imaginei se a voz grave de Dominik somada à sua postura impositiva eram os motivos pelos quais ele parecia tão assustador agora. Suas palavras foram extremamente eficientes em Emil, cuja tensão parou quase imediatamente.

— Agora se retire. Depois conversaremos.

Como Emil tinha parado de resistir, Dominik retirou os dedos da testa e da jugular do filho, o que o liberou do encanto. Emil lançou um último olhar furioso para Henry e se retirou pela sala destruída com passos pesados. Apenas depois que ele bateu a porta, foi que Henry liberou a barreira.

— Venha… — Ele disse erguendo os braços na minha direção. Foi só nesse momento que eu me dei conta que já estava flutuando quase a dez metros do chão, empurrada pelas ondas de pressão.

Agora por acaso que pareceu que Dominik e Petra também tinham se dado conta disso, enquanto eu flutuei para os braços de Henry.

— Ela sabe voar!! — Dominik exclamou impressionado.

— Eu não diria que sei voar realmente… — eu disse meio sem jeito, — apenas sei flutuar um pouco. Pelo visto ainda tenho que aprender a controlar a velocidade e…

— Quantos anos você tem? — Petra perguntou. A forma como olhava para mim mudou significativamente agora.

— Ah… eu acho que vinte e dois… — Eu não tinha exatamente certeza, já que eu parei de contar o tempo de acordo como eu contava antes em Sátie.

— Ela tem nove e meio! — Henry respondeu. A expressão apática. Obviamente ele se referia aos anos imperiais, que também era o padrão de Nefrandir, que foi terraformado para ter a mesma rotação e translação.

— Impressionante! — Petra elogiou evidentemente chocada.

— Esses Brards realmente amadurecem bem mais rápido. Ela já parece adulta! — Dominik complementou.

— Algo assim. — Henry respondeu ainda apático.

Dominik suspirou profundamente.

— Escute filho. Perdoe seu irmão. Ele foi quem ficou mais abalado com a sua partida. Nós nunca conseguimos relevar o que você fez, ele menos ainda. Ele treinou duro todos esses anos para ocupar o seu lugar, mas nunca foi tão talentoso como você era antes de sair, então tenha paciência com ele.

— Não tem problema. Eu irei partir assim que conseguir a carta de recomendação. — Henry disse sério. — Então não precisam se preocupar com ele tendo problemas comigo.

— Não seja assim… — disse Petra tristemente. — Tanto tempo que passamos separados, e agora que temos a oportunidade de reconstruir nossa família… não podemos deixar isso passar.

— É verdade. O início das aulas da academia está próximo, mas nada que um dia ou dois a mais aqui faça mal. Façamos o seguinte! Farei um pequeno teste com ela amanhã para saber se ela tem nível pra entrar, e deixarei os documentos de recomendação encaminhados. Vocês ficam pela noite, e deixa sua mãe ordenar o banquete.

Henry apertou a minha mão. Sua expressão ainda estava séria e apática. Então ele relaxou os ombros e suspirou profundamente.

— Muito bem. Que assim seja.

Eu confesso que fiquei impressionada com a postura impositiva que Henry teve diante dos próprios pais. Nesse momento estávamos andando pela propriedade dos Siever, e ele me mostrava todos os prédios e pátios e para que eles eram usados.

— Eu sei que foi meio extremo o que Emil fez, mas por que você ficou tão frio depois com seus pais? — Eu perguntei inquieta. Ele parecia estar ignorando completamente o ocorrido.

Ele não respondeu imediatamente. Eu já estava achando que ele não responderia de jeito nenhum, quando chegamos em um bonito pátio onde não havia ninguém. Então ele riscou o ar com o dedo, e eu pude ver as ondulações no espaço sendo formadas.

— Uau! O que foi isso? — Eu perguntei impressionada observando as ondulações estabilizarem até sumirem.

— Eu acabei de rasgar o espaço e criei um domo de vácuo ao nosso redor — Henry começou a explicar, — é bem prático quando se quer ter uma conversa particular sem ter ouvidos curiosos nos espreitando. Graças ao vácuo, nenhum som entra. Nenhum som sai.

Eu observei admirada que realmente o silêncio que fazia agora não era o silêncio normal, mas um silêncio absoluto. Era um pouco vertiginoso.

— E por que precisa de uma barreira dessas para conversar comigo aqui?

Henry ainda não tinha relaxado. Ele olhava de um lado para o outro atento a eventuais passantes.

— Não consigo confirmar se papai sabe, mas o ataque de Emil… foi planejado por minha mãe. — Henry disse depois de um tempo.

Meu queixo caiu.

— Por que?

— Esse é o problema… ela não sabe que eu tenho um domínio razoável de onisciência, então não tomou cuidado em esconder o plano de mim. Eu posso até não estar em um nível em que é possível dizer exatamente o que uma pessoa pensa sem tocar nela, mas eu posso sentir as intenções… Quando chegamos, eles realmente vieram com a intenção de me rechaçar, mas quando papai tocou em mim, ele pode sentir que o meu poder já é muito maior do que ele poderia ter desejado. Apenas por isso… ele se permitiu me perdoar facilmente. — Ele suspirou, e prosseguiu.

— Mamãe também teve mais ou menos o mesmo pensamento, mas ela… ela queria testar. Ela usou Emil, que está realmente bravo comigo ainda. Eu o entendo. Mas… ele veio com tudo. Concentrou cada partícula do poder dele em ataques concentrados. Você pode não achar que foi tão grande coisa por conta da destruição que não foi lá essas coisas, mas é porque a onda de impacto que ele lançou veio contraída em pontos pequenos… se você tivesse continuado no caminho… — eu vi os nós das mãos de Henry embranquecerem com a força que ele apertava os punhos em raiva. — E mamãe realmente esperava que você continuasse…

— Mas… mas por que eles manchariam o nome deles ao machucar ou matar um Brard? Isso não seria muito inteligente… eu pensei que matar alguém… tirar a vida de uma alma quebrasse a magia da pessoa.

— Humpf. Eles todos acham que não tem relevância assassinar alguém “sem poder”. Eles também acham que você é alguém insignificante e sem importância. Um caso assim passaria no máximo como um acidente. Isso é, se alguém de fora sequer ficasse sabendo.

— Mas eu pensei… que para uma pessoa atingir um alto nível de magia, ela precisava de uma moral resoluta! E sua família é tradicional nas artes mágicas!!!

— Você precisa aprender uma coisa, Alésia: Já foi moral e legal ter escravos. Pena de Morte ainda é de moral e de lei em muitos planetas. Guerras são travadas matando outros humanos… Para um imperador, a moral é a imparcialidade e a “não mentira”. Moral é apenas um conceito abstrato que pertence ao domínio do espírito e que a pessoa segue de acordo com o que acredita ser certo e errado. Então, você pode destruir a vida de um planeta inteiro se for isso que você sinta ser o certo, ou no mínimo que não faz diferença, e for capaz de fazer isso com o coração em paz.

Eu absorvi as palavras de Henry. Me lembrei dos meus tempos de escola em Sátie. Sátie tinha muita pouca privacidade. Praticamente toda a vida das pessoas era filmada e registrada. Se fosse necessário, aquelas filmagens poderiam ser resgatadas, como papai fez para confirmar a existência de Henry. A vida toda eu vivi sendo ensinada e convivendo em um contexto, onde quem mentia era uma pessoa moralmente débil. Mas depois, quando eu fui confundida com uma mentirosa, começaram a fazer uso da minha falta de credibilidade pra aproveitarem e fazerem coisas erradas para me jogar a culpa.

Foi então que eu entendi: pra eles, o errado não era mentir. O errado era ser pego mentindo. Havia uma grande diferença aí. Então “tudo bem” fazer o que quiser, quando não tem ninguém olhando. Quando não há ninguém pra impedir. Quando se tem poder pra isso.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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