DCC – Capítulo 53 – 3Lobos

DCC – Capítulo 53

 Irmandade

 

Aquele senhor segurou firmemente a frente da roupa de Henry. A sua cara de furioso tremia em cada pequena ruga e linha de expressão. A mulher também mostrava uma expressão conflituosa. Mas então subitamente e sem explicação, a expressão dele se abrandou tremendamente, como se tivesse percebido alguma coisa no ar. Então com a mão ainda agarrada e a voz pastosa, ele falou:

— Você nos abandona, abandona sua família, sua herança e… e… — O homem começou a brigar. Mas contra todas as minhas expectativas, ele começou a chorar. Ainda segurando a frente das roupas de Henry, ele abaixou a cabeça e cobriu os olhos cheios de lágrimas com a outra mão. — Você é mesmo um péssimo filho… como pôde fazer isso comigo? — ele resmungava com o rosto coberto enquanto sacudia Henry.

Aparentemente essa reação também estava fora das expectativas de Henry. Ele simplesmente ficou parado, parecendo perdido, enquanto se deixava ser sacudido. A mulher que parecia ser a mãe também sucumbiu às lágrimas e saltou sobre o marido agarrando Henry em um abraço apertado.

Definitivamente isso foi mais desconcertante do que uma discussão pública. A plateia ao nosso redor nem sequer se dava ao trabalho de encobrir as vozes exaltadas enquanto assistiam.

— Vamos… vamos entrar… temos muito que conversar — a mulher disse se afastando e segurando os ombros do marido.

Henry estendeu a mão para segurar a minha e seguimos os dois por dentro da propriedade até uma sala de visitas confortável e luxuosa, cheia de móveis e decoração exagerada parecida com a do palácio imperial, mesmo que ligeiramente menos rica. Definitivamente não consegui imaginar de onde Henry puxou o gosto por decoração minimalista. Logo depois, alguém trouxe uma travessa com chá e biscoitinhos, e ficamos lá, sentados em silêncio. Quando estávamos todos acomodados, o senhor pigarreou algumas vezes como se quisesse tomar a primeira palavra, abriu a boca algumas vezes para dizer algo, mas não conseguiu.

— Ahh… pai, mãe, esta é Alésia Latrell, minha companheira — Henry disse levemente sem jeito, enquanto me apresentava tentando me usar como desculpa para cortar o clima constrangedor. — Alésia, estes são Dominik e Petra Siever, meus pais.

— Muito prazer! — Eu cumprimentei encabulada.

Petra apertou os olhos e pareceu me avaliar de cima a baixo. Depois destacou:

— Ela é Brard. — Não foi uma pergunta.

— Sim. — Henry disse firmemente, expressando com toda determinação que esse assunto não estaria em discussão.

— Então… hum… como vão as coisas? — Dominik perguntou depois de parecer ter considerado seriamente não entrar em discussão sobre isso agora.

— Melhorando, eu acho. Tenho pensado em voltar a trabalhar…

— Humpf… Trabalhar? Naquela besteira de bioeng… urg — Dominik ia falando mas levou uma cotovelada de Petra, — quero dizer… Mesmo sendo tão jovem, você já é o mais renomado pesquisador da sua geração. Nós… hum… sempre acompanhamos as notícias sobre você… mas você desapareceu da mídia…

— E mesmo tendo deixado nossa tradição para trás, você sempre foi tão talentoso. E parece estar tão forte… você tirou esses anos para voltar à magia? — Petra perguntou avaliando Henry, mostrando-se esperançosa.

— Pode-se dizer que sim, meio que aconteceram algumas coisas… esse tempo todo eu fiquei imaginando que não queriam me ver mais, então eu não voltei.

— Não! Não se desculpe! — Petra tomou as mãos do filho e se ajoelhou na frente dele. — A culpa é toda nossa. Deixamos nossas mentes fechadas nublarem nossos julgamentos… — eu reparei que ela lançou um olhar de esguelha pra mim nessa hora — …e quase perdemos a oportunidade de ter você em nossas vidas para sempre! Há anos que queríamos entrar em contato, mas simplesmente não sabíamos onde te procurar.

— Entendo…

— E olhe para você! Tão jovem e bonito como no dia que saiu de casa… Emil deve estar parecendo ser o mais velho agora.

— Como ele está? — Henry perguntou.

— Ele saiu a trabalho… deve estar de volta ao cair da noite… Mas e você, pelo que disse não estava trabalhando? — Dominik falou.

— Eu tenho algumas instituições de pesquisa funcionando em meu nome junto a academia e em Keret, mas nada que eu tenha participado pessoalmente na última década.

— Eu entendo… e pelo visto você já tem mais influência sozinho do que teria se tivesse crescido pelo nome de nossa família. Eu… eu nunca aprovei a ideia de que você partisse por tal caminho, mas devo admitir que apesar do desperdício de não ter se dedicado a concorrer como herdeiro do império, você não fez feio, — Petra falou enchendo o peito do que parecia ser orgulho.

— E o que fez na última década então? — Dominik quis saber.

— Nada.

Henry respondeu tão simplesmente, tão sinceramente, tão descontraidamente, que eu simplesmente parei de respirar. Como assim você chega para os próprios pais para dizer que passou a última década — década imperial, diga-se de passagem — fazendo “nada”?? Que espécie de absurdo era esse? E ele não parecia estar disposto a dar maiores explicações sobre o assunto também, ou se justificar que não esteve vadiando ou coisa assim. Era. Uma. Década. Imperial!!!

Dominik e Petra também ficaram estáticos por alguns segundos depois da resposta curta, direta e sincera de Henry.

— Hum… bem… Não que você precise fazer mais alguma coisa com a reputação grandiosa que você tem… afinal você também é reconhecidamente o melhor amigo do Imperador e… — Dominik começou a elogiar.

— Não me fale daquele idiota, — Henry cortou o pai.

Dessa vez eu não consegui me conter antes de cobrir meu rosto com a mão! Minha nossa… ele era pior em falar com as pessoas do que eu podia imaginar. Depois de tudo, acho que ele foi realmente “delicado” quando disse que me envenenou quando eu ainda estava em Sátie.

— I…idiota? O imperador?? — Dominik agora estava em choque — M-m-mas!!!

— Querido!! — Petra repreendeu o marido, como se sequer repetir fosse um crime. — Henry… v-você não pode dizer coisas assim do imperador, mesmo sendo amigos. Isso poderia ser considerado insubordinação!

— Humpf! Quero só ver ele se atrever a mover mais um dedo contra mim… — Henry resmungou.

— Henry, não comece a comentar coisas das quais não quer explicar. Você só vai deixá-los confusos e preocupados, — eu o repreendi. Que piada… uma Brard repreendendo o comportamento de um Jomon. E na frente dos pais dele! O casal me olhou ainda parecendo querer evitar o assunto sobre mim, mas ninguém comentou nada.

Henry olhou para mim e ponderou sobre o que eu disse.

— Não se preocupem. Eu e Marco tivemos alguns problemas pessoais, mas ele é maduro o suficiente para não usar o cargo como motivo para me prejudicar. Ele sequer usa a autoridade para me impedir de ver Isaac.

— Isaac? Príncipe Isaac? — Petra perguntou confusa. — Por que você teria que ver o príncipe imperial?

— Isaac é meu filho biológico. Neto de vocês! — Dessa vez Petra e Dominik levantaram e encararam Henry, de pé. Depois, trocaram olhares alarmados.

Eu estava cada vez mais impressionada com a capacidade de Henry de comentar notícias tão impactantes como se fossem detalhes insignificantes: ei pai, o céu está lindo, aliás, você tem um neto! Eu olhei para Henry e ele realmente parecia alheio ao fato de que toda essa comoção estava sendo causada pelas palavras abruptas dele. Ainda por cima sobre Isaac, que tinha o título de Príncipe Imperial.

O fato de Isaac ser filho biológico de Henry não era exatamente um segredo, mas também não era um assunto público. A informação que as pessoas de modo geral tinham, era de que Isaac era filho da falecida esposa de Marco. Ninguém pensava realmente se haveriam mais detalhes, e mesmo assim, não era necessário.

O cargo imperial não era de descendência hereditária, mas meritocrática. Aquele que fosse mais adequado seria escolhido pelo Imperador em exercício, não importando relações de sangue. Por isso, mesmo considerando ter o título de Príncipe Imperial, Isaac tinha tantas chances de se tornar o próximo imperador quanto qualquer outro que tivesse capacidade de lutar por essa ambição.

— Neto? Nosso neto?

— Pois é… então, é uma história complicada… agora não é um bom momento para explicar! — Henry encerrou o assunto.

Petra lançou um olhar para mim mais uma vez e depois disse:

— É, você está certo. Os detalhes podem esperar. Esta noite, irei mandar preparar um banquete para comemorar seu retorno — ela disse animada.

— Não há necessidade… eu vim mesmo só para pedir uma carta de indicação para o curso de magia da academia em nome de Alésia. Estamos perto do início das aulas, então seria bom que eu pudesse…

— Você quer levar uma Brard para a academia para estudar artes mágicas?

— Sim. — Henry respondeu objetivamente de novo, mas dessa vez eu começou a explicar — Alésia não está no mesmo nível que os outros Brards, cuja expectativa de vida é insuficiente para conseguirem aprender magia de forma eficiente. Dê a ela a oportunidade, e ela será mais poderosa que qualquer outro Jomon bem treinado.

— Mas como pode dizer isso? Mesmo que ela tenha alguma aptidão, não deveria ser suficiente para superar um Jomon qualquer de baixo nível.

— Ela já sabe invocar escudos!

Dessa vez, o casal Siever me olhou com uma expressão que misturava assombro, surpresa, receio e incredulidade. Eu imagino o que eles ainda teriam dito, não fosse pela porta sendo aberta de uma vez.

Um rapaz, que eu poderia jurar ser uma cópia quase exata de Henry, apareceu. Os olhos violetas, os cabelos curtos e a aparência ligeiramente mais velha faziam a diferença entre os dois. Até a expressão alterada que ele tinha era a mesma de Henry quando estava com raiva.

Esse provavelmente era o Irmão mais novo que falaram mais cedo. E por um segundo delirante eu imaginei que ele teria a mesma reação que os pais de Henry.

Mas então eu senti uma sensação de perigo vindo em nossa direção, e a mão de Henry me agarrou por trás em tempo de me lançar para cima. Eu instintivamente levantei uma barreira suficiente para me proteger. Uma onda de impacto assustadora foi criada pelo recém chegado irmão e lançada em nossa direção. Aproveitando o impulso inicial de Henry, flutuei para o teto para fora do alcance da onda de impacto tentando evitar o contato direto. Aquele nível de magia não era algo que eu poderia encarar facilmente.

Henry, por sua vez, levantou-se em tempo suficiente de erguer a mão, e levantar uma barreira protetiva suficiente de livrá-lo do contato direto com o ataque. A força do impacto o empurrou para trás até o limite da sala.

— O QUE VOCÊ FAZ AQUI???


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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