DCC – Capítulo 52 – 3Lobos

DCC – Capítulo 52

Nefrandir

Marco Gionardi:


 

— INFERNO! — gritei frustrado já de volta ao meu apartamento no palácio.

Se aqueles dois se aliassem dessa forma, controlar as relíquias seria cada vez mais difícil pra mim. Por outro lado, Dhar, que desejava corrompê-los, não precisaria fazer mais nada. Só precisava garantir que aqueles dois continuassem querendo permanecer juntos. A maldição das relíquias iria cuidar do resto, e a mente humana deles iria eventualmente sucumbir. Maldito momento em que foi permitido aos humanos ter o livre arbítrio.

Eu precisava eliminar essa variável da equação. Principalmente o daquela menina. O cargo de imperador era secundário nesse momento, mas eu não podia me dar ao luxo de abrir mão do acesso a informação que o cargo me trazia. Eu precisava de mais poder…

Que raiva. ÓDIO! Se Dhar não tivesse me interceptado naquele encontro, eu poderia ter interferido bem mais cedo antes disso virar um problema, agora vou ter que medir meus passos.

Qualquer brisa me sussurrava as memórias sobre as promessas de Dhar e me deixava arrepiado. Eu realmente não tinha muito interesse nem vontade de me envolver nos problemas que Brah havia criado, já que a minha ajuda não seria bem-vinda. Mas o que Dhar estava propondo… era a aniquilação total de todo este universo. De todo tempo e espaço que já existiram. Todas as vidas, histórias e conhecimento construídos.

Não. Eu não poderia permitir. Este universo me pertencia por direito. Eu mesmo não cheguei ao topo da raça humana para ver todo esse legado ser jogado fora. Algo deveria ser feito. Mesmo que sutilmente. Aqueles que pecaram deveriam se dobrar diante das minhas ordens, e agradecer pela minha clemência e bondade por ajudar.

Só porque eu não queria fazer parte do objetivo de Dhar em destruir tudo, não queria dizer dizer que eu discordava que os dois guardiões das Relíquias deveriam sofrer para apaziguar a maldição. Era óbvio pra mim que aqueles dois deviam sentir a dor de seus legados. E era mais óbvio ainda que esse sofrimento deveria vir das minhas mãos, e não das mãos de Dhar. Afinal, que diabos queria um deus em pessoa descendo para esse plano? Ou… ele sempre esteve aqui… não, não era possível. A Sabedoria nunca deixaria de notar a existência da Organização na dimensão dos mortais.

Esse ciclo chato de morrer e renascer… As Relíquias sempre estariam a mercê da corrupção, desde que estivessem aos cuidados de seus legítimos guardiões mortais.

Se Henry falhar e sucumbir… isso terá sido tudo o que ele conseguiu ser nessa vida patética. E aquela garota… ah… é ela quem realmente deveria sofrer, e eu cuidarei especialmente para que ela me implorasse por isso.

Alésia Latrell:


A viagem durou menos de meia hora depois que saímos de órbita. Estando no mesmo quadrante, os sistemas estelares estavam apenas “alguns” anos luz distantes um do outro.  

Por onde quer que eu olhasse antes de entrarmos na atmosfera, havia apenas oceanos. As massas de terra não chegavam a ser continentais e dividiam-se em arquipélagos espalhados pelos quatro cantos do planeta.

Quando descemos para uma altura respirável, Henry abriu as janelas e deixou o vento salgado entrar. O ar ali era extremamente limpo e fresco. As memórias que eu tive de Nádia de quando eu estava me integrando com a Criação me deram uma sensação de familiaridade, como se eu já tivesse estado lá antes.

Dessa forma, passamos quase duas horas pairando sobre as ilhas do Oceano Dumont. Henry me mostrou todos os lugares que eu gostava de brincar quando era criança, e todos os lugares onde ia para pensar ou estudar, com um ar saudosista e carinhoso. Mas à medida que nos aproximávamos, a expressão dele foi ficando pesada e levemente tensa. Quando a costa de Urandir, onde ficava a casa dos Siever, estava a vista, Henry falou:

— Alésia, como já deve saber, em todos os sistemas estelares do quadrante Cepheus, o idioma imperial é oficial, apesar de cada planeta e distrito variar em seus próprios regionalismos, mas de modo geral, você não precisa se preocupar em andar com um tradutor…. porém… minha família é um pouquinho “difícil”, — ele começou a explicar.

É claro que eu entendi a história.

Diferente de Keret, onde o trabalho da pessoa não importava com o julgamento que faziam sobre ela, em Nefrandir, havia um desejo por status que certos trabalhos ofereciam. O maior status que alguém poderia conseguir era se tornar um artista mágico. Os artistas mágicos eram requisitados em toda a galáxia para fazerem os mais diversos tipos de trabalhos, e o nível e especialidade dos artistas também variava bastante, definindo um status interno entre eles. Mas os mais talentosos procuravam especializar-se em três grandes áreas: a Onipotência e a Onipresença e a Onisciência.

Quem se especializava em Onipotência era conhecido pelas capacidades de manipular qualquer objeto de acordo com a própria vontade e ter força além dos limites físicos normais. A capacidade de voar e criar escudos também era atribuída à onipotência. Os onipotentes costumavam ser a principal linha de defesa dos planetas em tempos de guerra, e ter o apoio de um onipotente era o mesmo que ser considerado inatingível. Mas o principal trabalho que poderiam ter, era como Terraformadores. Apesar de existirem equipamentos supereficientes para Terraformação, os artistas onipotentes faziam o mesmo serviço, a um preço bem mais em conta, e se tornaram o principal motivo da capacidade de expansão humana pela galáxia.

Os onipresentes por outro lado, tinham um poder bem particular: o de manipular o “espaço” à vontade. Eles podem rasgar o espaço, e mandar coisas e pessoas de um lugar para outro em questão de segundos, além de possuírem resistência e velocidades incomparáveis. Eles também podiam construir espaços do nada. Dimensões inteiras podiam ser criadas e destruídas por eles. Então, ninguém era melhor em proteger do que onipresentes. Se eles podiam ir e vir de qualquer lugar, então não importava a ameaça, nada poderia alcançá-los.

A casa dos Siever era um lugar com uma tradição muito forte em onisciência. Quem se especializava em onisciência comumente acabava se tornando um inquisidor. Os inquisidores eram os juízes de tudo, estando abaixo apenas do imperador em questão de autoridade nos planetas do Conglomerado. Ter o apoio de um inquisidor significava sucesso na certa para qualquer negócio, pois para eles não haviam segredos e eles poderiam saber quais os melhores pontos para investir. Eles também eram capazes de julgar a culpa e a inocência em conflitos menores que não eram dignos da atenção do imperador. Ou seja: eles instauravam a lei e a ordem.

Henry baixou a nave até a pista e fomos a seguindo até o limite norte da cidade, onde ficava a casa dos Siever. Ele parou bem na entrada e um dos porteiros que estava na guarita assobiou em admiração para a nave, enquanto desceu de lá flutuando lentamente.

— Boa tarde, visitante, se não tem hora marcada, receio que o horário para visi… — então ele parou de chofre e encarou Henry quando o viu, como se visse um fantasma. Ele enviou uma mensagem de voz urgente pelo Link e depois continuou a se aproximar até estar ao lado da janela do piloto. — S-s-senhor Henry, poderia por favor, autenticar sua entrada e… a da convidada? — Ele entregou uma tela para Henry, que a pegou e pressionou a mão direita sobre ela, e depois a entregou para mim, para que eu pudesse fazer o mesmo.

A tela escaneou rapidamente nossas palmas e depois desligou. Henry a entregou de volta ao porteiro sem dizer nada. Este por sua vez, retornou para a guarita. Ainda levou pelo menos mais uns dois minutos até que ele fizesse mais alguma coisa. Foi então que ele finalmente abriu o portão e nos permitiu atravessar.

Henry guiou a nave até um enorme pátio na entrada de um salão impressionante. A Casa dos Siever ficava em um nível mais elevado que o restante da cidade, permitindo ter uma vista estupenda do enorme oceano a frente. O céu límpido e lilás misturava-se com a água que brilhava em várias cores ao reflexo do sol.

— Vamos Alésia… — Henry chamou, me despertando da minha admiração — se for possível, eu espero que você não releve nada do que venha a acontecer aqui.

— Como assim? — perguntei levemente confusa. Ele estava esperando que fosse realmente ruim?

— Você vai entender…

Nós caminhamos para dentro do salão e nos sentamos pra esperar. De vez em quando, passavam pessoas conversando distraidamente através do salão. Mas então, quando eles viravam para nos olhar, paravam de queixos caídos e ficavam nos encarando sem pudor. Não foi uma, nem duas vezes. Todas as pessoas que aconteciam de passar por ali reagiam da mesma foram, e aos poucos começaram a se acumular no fundo do salão.

A parte mais constrangedora é que eles pareciam estar divulgando a informação, então em pouco mais de dez minutos já havia uma sólida plateia nos observando e conversando aos sussurros — Nós estamos vendo vocês! Por que sussurrar? — eu pensei comigo mesma.

— Ele veio mesmo até aqui…

— …trouxe uma Brard!

— …eu não esperava que ele fosse voltar…

— Você acha que eles vão…

— Por que você acha que ele voltou?

As conversas iam se tornando cada vez mais animadas e impertinentes. Então foi isso que Henry quis dizer ao me alertar? As pessoas desse lugar eram estranhas. Já havia se passado quase meia hora quando finalmente as conversas morreram.

Do pátio interno, do outro lado do salão, vinha um casal que parecia ter por volta dos quarenta anos de idade. O homem vestia um conjunto de terno azul marinho absolutamente impecável, e a mulher um tailleur perolado. Henry apertou minha mão de leve e depois levantou-se do assento, adiantando-se para encontrar os dois.

— Olá pai, mãe… — Henry disse quando estavam frente a frente, curvando-se levemente mostrando respeito.

Foi quando o senhor agarrou a frente das roupas de Henry e falou irritado:

— Como você tem coragem de mostrar sua cara de novo depois de cinquenta anos!?

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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