DCC – Capítulo 51 – 3Lobos

DCC – Capítulo 51

As ameaças de Marco

Alésia Latrell:


 

— Vocês…  — Marco sibilou. A voz sussurrante dele saiu como um grito ameaçador e fez os meus pelos da nuca arrepiarem.

Ele parecia bem cansado, estava magro e decomposto. Tinha pesadas olheiras abaixo de seus olhos lilases, mas a pressão que ele sempre exercia naturalmente não deixou de aparecer.

— O que faz na minha casa? — Henry perguntou impositivo, demonstrando com toda sua capacidade um “você não é bem-vindo”.

— Eu sabia que não deveria ter permitido que você fosse até ela! O que pensa que está fazendo? Você só vai atrair a catástrofe… — Marco começou a brigar com Henry.

— Do que você está falando? — eu perguntei confusa.

— E você! É mesmo uma imprestável! — ele disse se virando para mim, completamente furioso.

— Você veio até aqui só pra nos insultar? — Henry falou, ficando mais nervoso.

— O que mais posso fazer além disso? Que burrice é essa que vocês estão fazendo? Como você se atreve a namorar ela?

Marco começou a falar como se estivéssemos cometendo algum pecado indizível. Com o poder da onisciência, ele saberia de tudo no momento em que nos olhasse. Não haveria segredos pra ele. Então o grande problema o tempo todo era estarmos juntos? Não foi suficiente ele ter destruído a vida de Henry e a de Nádia, e agora ele queria destruir a minha? Quão doentia era a mente desse cara?

— O que fazemos da nossa vida não te diz respeito! — Henry falou, se esforçando ao máximo para conter-se. Uma parede quase sólida de calor foi se formando aos poucos ao redor dele.

— Me diz respeito do momento em que você resolve colocar a sua vida em jogo por causa de uma mulher, com essa sua mente fraca e louca! Você vai ser incapaz de se manter são!! — então ele virou-se pra mim, querendo continuar o sermão — E de que te adianta ter renascido?? Você nem ao menos…

BAM!!!

Marco foi jogado contra a parede por um soco meu, e logo em seguida eu prensei o pescoço dele com meu braço, mantendo-o encurralado. Estávamos alto o suficiente para não tocarmos o chão. Ele nem sequer chegou a terminar de falar o que quer que tinha a dizer sobre mim.

— Eu tive a impressão… — comecei a falar lentamente, tomando cuidado para não fazer contato visual — de que você estava para expressar uma opinião da qual ninguém aqui quer ou se importa sobre mim…

— Você se atreve a tocar em mim de novo! —  A voz dele saiu abafada. Enquanto eu ainda apertava o pescoço dele, as mãos dele agarraram meu braço, e eu senti um impulso de força invadir meu corpo tentando me repelir.

Eu ri. Até parece que esse nível de dor me faria pestanejar. Obviamente ele estava me subestimando.

— Como se atreve você a vir na minha frente me insultar! — Então, eu apertei o acocho no pescoço dele. — O que você quer afinal?

— Me… solte!!! — Ele começou a se debater, e seu rosto começou a corar em fúria. Ao mesmo tempo a intensidade da pressão que ele exercia com suas mãos em meu braço foi aumentando. — Você vai se arrepender amargamente de estar fazendo isso! Você não entende as consequências…

— E você entende? Não adianta me fazer ameaças vazias… Você fala como se eu fosse Nádia. Eu não sou Nádia. Eu sou qualquer coisa menos ela! — Eu comecei a brigar irada. — O que te importa se eu renasci dela? Henry estar comigo só pode obviamente atrair uma catástrofe nas nossas vidas: você!

O rosto de Marco já estava tão vermelho e contorcido de raiva, que ele parecia ter perdido toda a majestade natural que carregava consigo. Então ele desistiu de tentar me impedir injetando energia para controlar meu sistema nervoso, e começou a usar força bruta.

Dessa vez eu tive que recuar. Apesar de eu ter me tornado extremamente bem versada em combate corpo a corpo, não tinha sentido machucá-lo realmente, e muito menos permitir que ele me machucasse — o que era mais provável. Além do que, eu não tinha poder suficiente para encarar ele de forma justa. Apesar da estranha aparência frágil que ele mostrava, estava bem claro pra mim que eu só não tinha caído no chão morta ainda, por piedade dele.

Então ele caiu meio atrapalhado de mau jeito e se aprumou rapidamente. Logo em seguida ele instantaneamente invocou uma sólida barreira translúcida, forte o suficiente para me fazer recuar vários passos. Dessa vez, ele queria ter certeza que eu não chegaria perto.

— Você realmente não tem ideia de com quem está lidando, menina! — ele disse, com o rosto completamente vermelho e ofegando levemente.

— E nem quero ter. Eu já disse que não adianta fazer ameaças vazias pra mim — eu acusei quase cuspindo as palavras. — O que as pessoas vão dizer se souberem que o imperador em pessoa veio procurar briga com uma Brard, e ainda a ameaçou usando seu status? Isso não está um pouco abaixo do seu nível? Ainda mais poucas décadas depois da guerra…

— Você está me ameaçando? — Ele indignou-se. Como ele não poderia entender as entrelinhas das minhas palavras? Se ele quisesse mexer comigo, eu o levaria a público. Afinal, mesmo que ele alegasse que eu o agredi, todas as vezes que eu levantei a mão contra ele, foi por causa da forma opressora com que ele falava comigo.

— Se você quer que seja assim, então eu vou fazer assim! Nós temos um acordo. Você quem sabe se vale a pena quebrá-lo ou não, apenas para satisfazer esses seus joguetes sádicos. Qualquer um pensaria que você na verdade tem é o desejo de controlar os guardiões das relíquias por baixo dos panos. Já não basta comandar a galáxia inteira?

Ele não disse nada imediatamente. Apenas me encarou como se eu fosse burra.

— Você não sabe de nada… vocês não podem continuar com isso!! E pensar que eu vim aqui conversar, mas o Tempo dirá que vocês estão errados, paguem pra ver!

—  Então me dê um motivo para nos separarmos!  Alguma coisa que não envolva o fato de eu ser a nova encarnação de Nádia!

— É justamente por você ter a alma que tem que você não pode ficar perto dele! — Ele falou exasperado apontando para Henry.

—  Então eu não aceito a sua interferência! Você fará um grande favor para nós se parar de se intrometer… Esqueça que eu fui a Nádia numa vida passada… Eu não sou e nunca vou ser a sua esposa.

Dessa vez ele parecia ter ficado tremendamente ofendido. Marco me olhou por um tempo como se estivesse ponderando as minhas palavras. Depois ele inspirou profundamente, olhou de mim para Henry e de Henry para mim. Por fim falou com uma voz sombria e agourenta, cheia de ódio:

— Muito bem!  Se é o que você quer,  assim será.  E eu espero sinceramente que você amargure essa decisão do fundo da sua alma com cada pedaço de dor e sofrimento que você irá passar daqui para frente. Quando se cansar, não me procure. Que morra de novo…  é o que você merece!

Marco virou-se para parede onde tinha sido arremessado, estendeu o braço e abriu a palma da mão.  Por um momento não entendi qual era a sua intenção, mas quando ele fechou os dedos, a parede inteira foi comprimida e aos poucos dizimada como se tivesse sido jogada para o vazio e desaparecido sem deixar escombros, apenas um forte barulho de trituração. Então ele caminhou para fora a passos pesados, virou-se o suficiente para nos mandar um último olhar furioso, e então desapareceu naquele lugar.

— O que foi essa ideia ridícula dele de saída dramática? — perguntei suspirando profundamente, me sentindo cansada como se nem tivesse dormido.

Henry se aproximou e me abraçou por trás. Ele também parecia estar muito cansado com essa pequena causalidade.

— Todas as vezes eu penso que eu vou poder proteger você, e você faz essas coisas absurdas…  Afinal, como consegue penetrar no escudo primário dele? — Henry me virou para que eu pudesse ficar olho a olho com ele. — Já é a segunda vez!!!

— Eu não preciso ser protegida! — eu disse como um tom impertinente. — E eu também não entendo como consigo atravessar o escudo dele… E na verdade… essa foi a quarta — Eu mostrei a ele um sorriso culpado.

— E eu já lhe disse para não forçar a barra com ele… Você deve ter percebido que ele pegou leve contigo. Esse pequeno espetáculo da saída foi apenas para deixar isso claro.  que ele tem poder o suficiente para nos enfrentar… Talvez realmente não seja uma má ideia estudar magia afinal de contas. Você claramente o declarou como inimigo. Então, no momento que ele tiver a oportunidade ele vai tentar fazer alguma coisa mais drástica. Ele não é um inimigo contra quem podemos lutar abertamente.

Eu dei algumas tapinhas de leve na lateral do braço de Henry como se para confortá-lo,  e depois disse:

— Você é que não pode lutar com ele! Afinal ele foi o seu melhor amigo durante muito tempo. É natural que, apesar de você sentir tanto ódio, você também se sinta hesitante. Mas eu não me importo de virar a galáxia inteira contra mim se for para me livrar dele caso ele tente algo mais drástico. Não sou mais alguém que pode abaixar a cabeça e aceitar as coisas do jeito que ele quer fazer sem tentar lutar contra. Se eu não puder lutar eu não lutarei, mas se eu puder lutar pela minha liberdade, ainda não inventaram algo que possa me parar.

— Nossa… que atrevida! — Henry disse brincando enquanto íamos para a cozinha. — Vocês Brards dão muito valor ao livre arbítrio de vocês.

— Mas é claro que sim! — eu respondi. — Comparado com vocês, nossas existências são apenas um sopro. Como podemos limitar nossas vidas baseadas em uma decisão que não é nossa? Eu sei que existe a necessidade de pensar no bem maior e no futuro das próximas gerações e tal,  mas não dá para pensar apenas nisso. Se fossemos viver apenas pensando em como viver, nunca começaríamos antes de nosso tempo acabar.

— Jomons já são diferentes. As nossas existências abrangem um espaço de tempo relativamente grande, que nos permite ver coisas de uma perspectiva mais objetiva.  O mundo humano muda muito rápido e frequentemente a história sempre acaba se repetindo. Nós sentimos e observamos os padrões que a vida segue e então tomamos nossas decisões baseadas nisso porque daqui a quinhentos anos ainda estaremos vivos, e todas as mudanças que ocorrerem daqui para lá nos afetarão. E você não precisa se excluir dessa perspectiva.  Agora, mesmo sendo uma Brard, sua expectativa de vida é imensamente maior do que a de qualquer Jomon. — Henry argumentou.

— Você não espera que eu desenvolva esse tipo de pensamento tendo apenas pouco mais de nove anos imperiais, não é?  Se eu estivesse em Sátie, agora que eu estaria fazendo vinte e dois anos. Essa é a idade da juventude.

— Eow… Eu namoro uma criança! — Henry brincou. Eu bati no ombro dele.

— Não diga isso!

Henry começou a gargalhar, e me puxou para um abraço apertado. Depois disse com uma voz levemente melancólica:

— Vamos comer e depois partir. Eu sei que você não é alguém que quer ser protegida… mas eu quero ser alguém que possa te proteger. Então, se eu puder fazer algo por você, me permita!

Eu senti a pontada de culpa na voz dele. Então eu concordei, dando um suave beijo em sua bochecha. Não tínhamos com o que nos preocupar se estivéssemos um ao lado do outro.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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