DCC – Capítulo 50 – 3Lobos

DCC – Capítulo 50

Por que Marco?

Henry Siever:


— Olá meninos… há quanto tempo…

Marco levou a mão a boca em choque completo. Não era comum aparecerem coisas que pudessem surpreendê-lo a tal ponto. Com o poder da onisciência, como ele poderia não saber? Mas eu também olhei para a Alésia… e aquela presença…

— Eu esperei muitos anos depois do ciclo da vida para enfim poder voltar a ver os dois, juntos… Minha alma… despertou nesta menina… e eu a trouxe aqui… para vê-los…

Então era mesmo ela! Nádia falava pelo corpo de Alésia! O corpo de Alésia flutuava a poucos centímetros do chão, enquanto uma energia etérea, quase divina, emanava de sua pele, fazendo seus cabelos ondularem como se estivessem na brisa suave. Os olhos dela brilhavam com o lindo brilho azul que Nádia teve em vida, mas olhavam para o nada, como se ela não pudesse usá-los para ver. Sua alma tinha voltado a vida mais uma vez. Marco foi o primeiro a se recuperar o suficiente para falar alguma coisa:

— O que… o que você voltou para dizer? — ele perguntou ainda com a expressão chocada, mas pelo visto fez um enorme esforço para parecer indiferente. Ele era realmente um cretino.

— Eu sei que nenhum de vocês pode perdoar meus pecados… Eu os fiz sofrer e sofri todos os tipos de dores enquanto vivi minha vida amaldiçoada… então, primeiro peço… que me perdoem… — Ela falava tão lentamente, como se a voz viesse diretamente de outro mundo — Minha decisão egoísta de recomeçar… eu espero que também possa deixar pra lá e… me deixe tentar pagar minha dívida… enquanto ainda há tempo…

Eu não consegui dizer nada… ela estava pedindo desculpas por ter decidido morrer. Por que ela havia decidido carregar essa culpa de uma vida para outra ao ponto de rasgar o espaço para trazer sua nova encarnação até aqui. Para pagar uma dívida? Para mim, ela não devia nada… eu que devia a ela por tudo o que eu não pude fazer para protegê-la. O olhar triste dela ainda mirava o vazio quando a voz etérea tornou a falar:

— Eu sei que eu não tenho o direito de reivindicar meu legado… em nome dessa nova vida inocente… mas o que deve ser feito… precisa ser feito… Ela deve conseguir fazer… o que eu não consegui…

Então ela respirou profundamente e a presença começou a sumir lentamente.

— Espere!! — Eu chamei alarmado, mas ela já tinha ido.

Marco permaneceu calado com a expressão pensativa. Por que ela queria falar com ele?

Eu acordei ensopado de suor. Esse sonho… foi o dia em que Alésia veio parar no palácio imperial e foi possuída pela última sombra deixada pela alma de Nádia. Nádia poupou suas energias para deixar um desejo póstumo agregado a sua alma e assim, poder dar a Alésia a oportunidade de pagar os débitos que ela achava ter deixado para trás.

Que tola. Eu que a devia mais do que qualquer um nesse universo pode dever alguém. Eu nunca pude protegê-la. Nem mesmo de Marco, em quem eu confiava na época, eu não pude salvá-la. Mesmo a minha tentativa pífia de livrar Alésia dessa responsabilidade descabida resultou em uma falha tremenda.

Ao menos eu pude manter a vida dela, quando era óbvio que ela não tinha condições de ser a nova guardiã. Mesmo Marco tendo aceitado e feito aquela coisa absurda. Mas por que eu me sentia tão inquieto toda vez que lembrava daquele dia?

Como qualquer mal que aconteceu com Nádia não foi culpa minha por ter sido incapaz de protegê-la? Ela não tinha que me pedir desculpas… Eu sabia que Marco havia a chantageado de alguma forma para afastá-la de mim. Ele roubou de mim minha família: minha mulher e nosso filho que estava por nascer. Eu sabia que ter cedido às chantagens de Marco a magoou o suficiente para desejar morrer. Eu sabia que ela não queria mais me ver por conta da culpa que sentia. Mas nunca tinha imaginado que essa dor era tão grande ao ponto de atravessar vidas. Mas por que ela queria dizer aquilo na frente de Marco?

Por que justamente Marco, que havia praticamente a sequestrado e a obrigado a viver anos como uma esposa falsa, apenas para rir de mim? Por que falar na frente dele, justamente dele, que havia destruído a vida dela? Será que ela queria que ele entendesse a dor que a alma dela carregava por culpa dele? E mesmo assim, eu fui incapaz de proteger Alésia. A dor que ela sentiu no último ano… Como eu poderia pagar por isso mesmo em milhares de séculos?

Mas dessa vez… de agora em diante eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para dar a Alésia tudo. Para fazer dela a pessoa mais feliz que já viveu. Darei minha vida por isso.

Já era o fim da décima quarta hora da noite, então não fazia sentido voltar a dormir. Hoje completava um mês que eu tinha voltado para Keret com Alésia, e estávamos prontos para partir para meu planeta natal. Nefrandir era um planeta oceânico, no Sistema de Cenes Venatici, quarta estrela do primeiro quadrante do Conglomerado Imperial: Cepheus.

Eu já havia voltado a Nefrandir algumas vezes, mas faziam mais de cinquenta anos que eu não voltava para a casa dos meus pais, precisamente quando decidi abandonar a herança mágica da família e me dedicar aos estudos da bioengenharia médica. Não que eu não gostasse de magia, ou que eu não tivesse aptidão para tal. Muito pelo contrário… se eu tivesse me dedicado o suficiente e não tivesse virado guardião da Transformação, hoje o imperador poderia muito bem ter sido mais outro membro da casa dos Siever.

Porém, eu nunca me identifiquei com a ambição por poder da minha família. Nunca quis assumir nenhum desses fardos. Magia sempre foi tão fácil para mim ao ponto de ser entediante. E pensar que se eu tivesse me esforçado em passar Marco, eu poderia ter evitado tanta coisa… A princípio, nunca tinha havido motivos para eu ter que me proteger daquele idiota!

De qualquer forma, a minha casa havia decidido por me banir… ah, se eles soubessem que agora eu guardo um dos artefatos mágicos mais poderosos que existem no universo conhecido…

Depois de tomar um banho rápido, fui ao quarto de Alésia esperar até ela acordar. Ela estava enterrada debaixo de uma pilha de cobertores, mais embolada que um gato. Havia uma leve estática no ar dentro do quarto dela. Parecia que ela continuava liberando energia inconscientemente.

Interessante, da forma que estava, parecia um escudo rudimentar querendo se formar… Eu me aproximei devagar e me sentei na cama ao lado dela. Aos poucos, a estática foi diminuindo até desaparecer completamente. Então acessei a macronet através do meu Link e comecei a ver as notícias sobre Nefrandir. Nada muito grande havia acontecido, e nada que me interessasse pra variar.

A casa dos Siever continuava a governar o Oceano Dumont, e haviam elegido um novo sucessor de talento, para ocupar meu lugar.  Então eu liguei o gerador de realidade aumentada.

O quarto de Alésia à minha frente desapareceu e foi completamente substituído por uma imagem perfeita do Dumont. Quilômetros de praias se estendiam pelos lados e uma maravilhosa baía de água tão límpida que se podia ver cardumes passando mesmo à distância.

Cenes Venatici brilhava maravilhosamente entre as nuvens e eu podia ver os raios passarem entre as folhas das árvores que cercavam a praia. Tudo ali era perfeito e intocado. O único lugar de onde eu sentia falta naquele planeta.

— Você está no meu quarto de novo… — Eu ouvi a voz de Alésia saindo abafada debaixo dos cobertores.

— Algum problema? — perguntei.

— Hmpf! — ela reclamou se debatendo das cobertas e jogando-as em mim.

Eu agarrei seu pulso e a puxei com firmeza para mim, e lhe dei um beijo, que a fez parar de se debater.

— Eu já pedi para parar de jogar essas coisas em mim! Quero só ver você reclamar quando eu comprar sorvete! — eu briguei brincando. Ela odiava o fato de não conseguir mais comer sorvete, e por “maldade”, as vezes eu comia em frente a ela.

— Que estava olhando? — Alésia perguntou ruborizada, esticando os braços preguiçosamente.

— Apenas nosso roteiro de viagem. Partiremos logo após comermos alguma coisa.

O sorriso dela se iluminou de expectativa. É claro que ela estava animada. Ela quase não saia de casa estando aqui.

— Eu vou me trocar então! — Ela saltou da cama, e sem sequer tocar no chão, foi direto ao closet se vestir. Menos de cinco minutos depois, ela vinha vindo completamente coberta com um vestido simples florido, um casaco de couro azul e botas que subiam até acima dos joelhos. Os cabelos, que ela não cortava há anos, já desciam bem abaixo dos quadris, e dançavam a cada passo que ela dava.

Então ela me puxou pela mão e descemos quase correndo para o andar de baixo. Porém meu humor que já estava levemente alterado pela ideia de voltar para meu planeta natal subitamente deu uma revirada como se tivesse levado um soco em meu estômago.

Sentado no sofá da sala estava Marco. Seu olhar apertado investigou de mim pra Alésia algumas vezes antes da compreensão passar por ele e fúria encher seus olhos.

— Vocês!!!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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