DCC – Capítulo 49 – 3Lobos

DCC – Capítulo 49

Fazendo planos

 

Depois da conversa durante o almoço, Cásira voltou a ser simpática e altiva. Me levou ainda para ver as famosas quedas do Rio Nadir, um famoso ponto turístico de todo o Conglomerado, e passamos um bom tempo rindo das histórias antigas de Henry que ela conhecia. Cásira, apesar de parecer ter deixado bem claro o seu orgulho como mulher, também tinha esclarecido que não deixaria de ser uma rival, mesmo se nós duas acabássemos nos tornando amigas.

O que foi bom, pois Cásira conhecia o mundo dos homens, e de uma forma tão mais completa que ela conseguiu ao menos apaziguar uma parte das minhas intranquilidades.

De acordo com ela, é claro que Henry tinha seus próprios gostos e preferências sobre o que querer do físico de uma mulher. Todos eram assim. Mas isso não tinha muito haver com amor. Amor apagava essas preferências de tal forma, que as reescrevia completamente. Que aquilo que era amado se tornava o novo ideal, seja lá a forma que tivesse. Namoricos a parte, como Jomons, era difícil encontrar amor duradouro, mas uma vez que o sentimento existisse, estaria lá para sempre. Por isso era muito importante que eu encontrasse uma resposta: eu realmente amava Henry? Por que Henry definitivamente me amava.

Às duas horas da noite, Cásira me devolveu para a casa de Henry. Ele estava aguardando no portão de entrada e deixou o rosto se iluminar completamente com um sorriso de orelha a orelha quando nossos olhos se encontraram.

— Até parece que faz um mês que ele te viu… — Cásira sussurrou presunçosamente no pé do meu ouvido, quando abriu a porta da nave para que eu pudesse descer.

Eu agradeci contente o dia que passei com Cásira. Tinha sido divertido e agradável, e pude ver coisas novas. Assim que ela partiu, Henry acenou a mão, e com um belíssimo encanto, flores surgiram como se estivessem brotando do vazio. Como se o próprio ar estivesse se transformando nelas.

— Rosas Galacianas azuis! — ele exclamou me oferecendo um buquê animado.

Nós entramos e conversamos por um bom tempo. Contei tudo o que tinha visto e tudo o que tinha me impressionado (é claro que a parte da conversa onde ele foi o assunto eu omiti). Ele ficou um pouco apreensivo com as histórias sobre ele que Cásira pudesse ter me contado, e eu aproveitei a oportunidade para fazer um suspense e rir da expressão dele de nervoso.

Agora que eu estava prestando atenção, Henry não tinha mudado em absoluto a forma que agia comigo, além das flores diárias e de uma cara de bobo risonho como se estivesse vendo as estrelas pela primeira vez.

E isso parecia ser fortemente contagioso, porque eu também me sentia boba. Comecei a me pegar sorrindo sozinha só de pensar naquela alegria dele estampada no rosto redondo. Ele realmente estava cumprindo a promessa de trazer todos os dias flores diferentes. Cada uma mais linda e perfumada que a outra. As rosas galacianas eram encantadoras e grandes. Quase do tamanho de uma cabeça, e ao menor movimento, levantavam um delicioso aroma no ar.

Ao final da ceia, eu me sentei escorada ao lado dele e passamos um tempo disputando partidas ferrenhas de jogos de simulação de corrida com geradores de realidade aumentada. Era útil, pois era o programa usado para ensinar futuros pilotos.

Quando eu já estava exausta, Henry me deu um longo e acalorado beijo, na porta de meu quarto e depois foi para o próprio. O dia terminou tão bem, e eu me senti tão feliz, que dormi profundamente agarrada aos cobertores, sem sonhos para me perturbar.

Quando acordei no dia seguinte, estava me sentindo tão leve, aquecida e confortável, que não quis abrir os olhos. Estranhamente, aquecida não era uma coisa que eu deveria sentir estando sozinha… de fato, algo segurava a minha mão.

Eu abri os olhos e eis que Henry dormia a sono solto, segurando minha mão próxima ao rosto. Eu me assustei e me levantei puxando a mão com força. Henry acordou confuso e sonolento. Olhou ao redor parecendo ligeiramente perdido.

— Alésia? Que foi? Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou confuso quando encontrou o meu olhar.

— Por que está na minha cama? — perguntei tentando me desvencilhar dos cobertores que ainda me cobriam.

Henry largou-se de volta no travesseiro quase frustrado e voltou a fechar os olhos, como se aquele “detalhe” não fosse motivo suficiente para acordar, muito menos sair de onde estava. Eu peguei o cobertor que segurava e arremessei nele.

— Não jogue isso em mim! — ele reclamou descobrindo-se e se virou para o outro lado. — Isso é quente.

— Por que veio dormir aqui? — eu insisti.

— Não sei… — ele respondeu ainda com os olhos fechados e a voz pastosa — Acho que eu vim dar uma passada para ver como você estava e acabei ficando…

— “Acha”? — eu puxei outro cobertor e joguei nele.

— Já pedi para não jogar isso em mim! — ele reclamou emburrado. Levantou-se o suficiente para alcançar minha mão de novo e me puxou de volta para a cama, me deixando perfeitamente embraçada sobre ele — você é muito melhor…. tanto tempo que nós não dormíamos uma noite inteira e você aí sendo chata…

Meu corpo cedeu. Ele tinha me puxado com bastante força, mas me segurava com tanta delicadeza, como se uma pressão mais forte pudesse me quebrar de alguma forma. Ele bocejou preguiçosamente, mas ficou um bom tempo nessa posição, acariciando levemente os meus cabelos, sorrindo como uma criança boba enquanto apreciava o brinquedo favorito. Eu fiquei ali também olhando o sorriso sonolento dele, rendida entre seus braços por um bom tempo. A não ser pelo comportamento atrevido dele naquela hora, realmente havia de convir que estava em uma ótima oportunidade de continuar na cama.

— Henry? — eu chamei pensativa depois de um tempo. Ele murmurou uma resposta indicando que estava ouvindo — Que vou fazer agora?

— Como assim? — ele questionou distraído.

— Quero dizer… o que eu farei? Com certeza juventude eterna é uma inveja pra qualquer um de meu planeta… — eu desatei a falar — mas enquanto eu viver, o que vou fazer? Eu não sei muita coisa ainda. É claro que eu venho estudando com a ajuda da Sabedoria, mas não sinto como se estivesse chegando à uma resposta de que a minha vida não vai ser só isso. É muito bom passar os dias com você, mas fazer só isso… apenas isso… você mesmo tem mais o que fazer, e ainda por cima ama o seu trabalho. Mas eu ainda estou a toa…

Henry espreguiçou-se e se sentou na cama, mostrando que estava prestando a atenção devida ao assunto, e me olhou pensativo.

— Eu não sei o que você vai fazer… você tem todo um mundo de possibilidades… — ele respondeu seriamente, — mas você precisa decidir primeiro o que você quer se focar em aprender e depois, você pode se focar no que fazer com esse conhecimento.

— Magia! — eu exclamei prontamente. Nem precisei pensar muito sobre isso — Eu quero aprender magia, e fazer coisas que ninguém mais consegue!

Eu disse animada. Podia sentir meu rosto irradiando ansiedade. Eu nunca antes nessa vida tinha me imaginado sequer assistindo práticas mágicas. Hoje eu já não me imaginava fazendo outra coisa. Magia era o assunto que tinha o maior foco na minha mente. Foi então que percebi que Henry não seguiu minha empolgação.

— Qual o problema? — perguntei confusa.

— Não… não é nada… — ele disse entre um suspiro — só acho tremendamente chato, pessoalmente falando — ele explicou.

— Mas você sabe magia, e é extremamente poderoso até! — eu disse, me sentindo mais confusa ainda — Como pode ter chegado nesse nível achando tremendamente chato? Pensei que para dominar completamente a magia eram necessários séculos de estudo concentrado… — eu disse.

— E é… mas, vamos descer e comer alguma coisa…

Então ele saiu rapidamente do quarto e foi até a cozinha. Eu tive uma sensação estranha de que ele estava querendo evitar o assunto.

— Qual o problema? — eu perguntei de novo assim que o acompanhei.

— Como assim? — ele perguntou de volta enquanto cortava uma fatia de bolo e passava geleia nela, sentado à mesa de café da manhã.

— Você parece não querer que eu vá… — eu disse, tomando cuidado para observar atentamente cada expressão dele.

Henry comeu quietamente seu bolo e me fitou enquanto mastigava. Quando finalmente engoliu, ele disse:

— Minha família… eu venho de uma grande família aristocrática das artes mágicas. Já tive até mesmo antepassados que foram imperadores…. então treinar magia é uma coisa que aprendemos de berço.

— Ah… entendi… mas isso é um problema? — eu perguntei hesitante.

— Bem, quando eu desisti das artes mágicas para estudar bioengenharia, sim,— ele disse indiferente. — Eu virei a vergonha da família, e meus pais me baniram completamente. Faz mais de cinquenta anos que não vejo nenhum deles.

Meu queixo caiu.

— Não se preocupe com isso — ele disse abanando a mão casualmente —, faz muito tempo que eu deixei de me importar.

Eu fiquei chocada. Eu nunca havia pensado sobre a vida pessoal de Henry até hoje. E pelo visto não era nada simples.

— Mas a melhor academia que existe, de qualquer forma, é bastante rígida e restrita. Sendo controlada por um grupo de famílias aristocráticas, que regulam a entrada e saída de alunos de famílias desconhecidas no curso de artes mágicas, apenas os mais talentosos entre os mais talentosos conseguem uma vaga. Para você entrar lá, teria que passar no teste de admissão, ter a indicação de uma dessas famílias, ou o aval do imperador.

Ele levantou os olhos para mim como se dissesse que nenhuma dessas alternativas era uma opção real.

— Então eu faço o teste de admissão! — eu disse confiante.

Ele negou com a cabeça.

— As inscrições provavelmente já acabaram essa época do ano, e você precisaria ser interrogada por um Inquisidor. Entre todas as coisas que não podemos fazer nessa vida, uma delas é sermos interrogados por um Inquisidor.

— Com uma indicação sua, eu não conseguiria uma vaga? — perguntei esperançosa.

— Em qualquer outro curso da academia, com certeza.

Eu me senti desanimada. Se ele não podia entrar em contato com a família, eu não poderia pedir para ele fazer isso por mim. Pedir a indicação de Marco estava completamente fora de questão. A única saída seria esperar o teste de aptidão quando houvesse outro, e dar um jeito de driblar o Inquisidor… mas pelo que eu sabia deles, era quase impossível. Suspirei conformada. Pelo menos era um começo. Mas Henry, logo depois de tomar seu café da manhã, me fitou e disse:

— Então vamos?

Eu estranhei.

— Vamos pra onde?

— Para a casa dos meus pais.

 

FIM DO PRIMEIRO ARCO


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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