DCC – Capítulo 48 – 3Lobos

DCC – Capítulo 48

Cásira

 

Eu estava sozinha com Cásira na nave dela, seguindo para o Distrito Vinnie, onde passaríamos um dia só nós duas. Cásira era a representante dos negócios da família em todo o Conglomerado Imperial. Então longe de Henry era uma pessoa incrivelmente mais altiva. Ocasionalmente recebia chamadas sobre um ou outro problema dos funcionários, mesmo sendo seu dia de folga. Ela atendia, passava rápidas instruções e voltava a dedicar toda sua atenção para mim, apresentando roteiros que podíamos fazer e me mostrando seus lugares preferidos de visitar.

Quando estávamos almoçando, ela já tinha observado a minha expressão apática muito bem, percebendo o meu desconforto, até que ela finalmente comentou:

— Você soube que eu e Henry já namoramos? — Ela perguntou, remexendo o talher sem prestar atenção na comida.

— Algo assim… — Eu respondi, surpresa com a pergunta. Por um momento delirante eu realmente achei que Cásira não tentaria nenhum tipo de confronto direto comigo.

— Henry e eu nos conhecemos nos tempos da academia, quando eu estava sendo preparada para a passagem das relíquias pelo antigo guardião, sabe? — ela falou com um tom nostálgico, como se estivesse se lembrando de coisas felizes… então ela é quem deveria ter sido uma guardiã. — Para você deve fazer muito tempo… foi antes das guerras. Até então, a escolha dos guardiões nunca foi feita da forma como ocorreu com você e como tinha ocorrido com Nádia.

— E depois, já haviam vários milênios que os guardiões eram os mesmos.

Eu deixei o queixo cair… vários MILÊNIOS???

— Você já sabe que as relíquias lhe impedem de envelhecer, certo?

Confirmei com a cabeça.

— Isso não te deixa imortal… um acidente, uma doença… qualquer fatalidade desse tipo pode te matar… a única coisa à qual está imune é o tempo. Os dois guardiões anteriores a Henry e Nádia viveram juntos por muitos milênios, até que Aaron Lamont, o antigo guardião da Transformação, pegou uma doença e veio a falecer. Então, Erin Castro, o guardião da criação, também não quis mais encarar o fardo sem Aaron… disse que seria muito solitário. Ele preferia reiniciar o ciclo da vida à permanecer em uma existência vazia, pois todos os que cresceram com ele já haviam partido há muito tempo.

Eu ouvia a história que Cásira contava, e conseguia ver as lembranças equivalentes de Erin e Aaron mostradas pela relíquia da sabedoria em meu pulso escondida sob a luva. Era uma perspectiva interessante de se acompanhar uma história.

— Erin acompanhou a passagem da Relíquia da Transformação para um escolhido, que acabou sendo Henry. Os dois passaram um bom tempo juntos, onde Erin teve que ensinar a Henry tudo sobre como usar as três Relíquias, e quando finalmente achou que Henry estava pronto, ele retirou a matriz da Relíquia do próprio corpo. Henry me falou que estava preparado para isso, e que sabia o que aconteceria, mas ainda assim foi difícil de presenciar. O tempo de vida de Erin que havia sido parado, voltou a correr até consumir o corpo dele, que envelheceu milhares de anos em poucos segundos, até não sobrar nada além da Criação e uma cortina de pó.

Cásira fez uma expressão pensativa, e depois continuou:

— Henry recolheu a Relíquia e a guardou no recipiente para ser contida. O plano inicial do nosso grupo era que eu deveria ficar com ela, já que Henry e eu gostávamos um do outro na época. Mas não é tão fácil assim como as dobras do destino se formam, já que pouco antes de me encontrar com Henry e a Criação, ele teve um contratempo. Enquanto passava por uma excursão turística pela universidade onde Henry estava trabalhando, Nádia foi atraída magicamente pela Criação, e se tornou a guardiã. Não sei como aconteceu com você, mas para ela foi extremamente compulsório. Ela ficou muito assustada por um tempo. Lembro bem das expressões de medo que ela tinha… levou um bom tempo para confiar em nós, sempre muito delicada e tímida.

— Acho que eu não me imaginaria reagindo assim — eu comentei, quando me lembrei que talvez não fizesse sentido para Cásira. Ela não sabia que eu era uma nova encarnação de Nádia. Eu sempre pensei que há momentos em que a decisão mais sábia é baixar a cabeça e aguentar, mas nunca fiz isso por delicadeza ou medo de reagir. Eu ainda tinha que aprender que reagir demais fora de hora é que poderia ser um problema.

— Não pense em você como uma continuação de Nádia — Cásira continuou. Acho que comentou isso por eu estar ocupando a vida que era dela, e não por estar ocupando a alma que também foi dela. — Tenho certeza que Henry não pensa dessa forma também. Ele a amou tão intensamente, tão terrivelmente, que quando ela o deixou, o mundo dele simplesmente parou de fazer sentido. E quando ela morreu, nada mais existia para ele também.

— Sim, desde que o conheci, Henry sempre teve esse ar depressivo, mesmo quando está de bom humor.

— Então você entende. Dito tudo isso, chegamos à parte que interessa: eu partilho da opinião do mestre Marco sobre o relacionamento de vocês! — Cásira comentou terminando graciosamente a própria refeição. Eu quase me engasguei ao ouvir o comentário dito tão banalmente. — Veja bem, o argumento de Marco na festa de ano novo do ano passado foi procedente. Você já o conhece um pouco e já sabe alguma coisa sobre a história dele. Henry não está emocionalmente preparado para amar de novo. Ele nunca esteve. Então se você ferir os sentimentos dele, ele pode ruir completamente dessa vez.

Eu não acreditei nos meus próprios ouvidos. Ei imaginei que Cásira iria tentar argumentar alguma coisa sobre o nosso relacionamento, mas eu nunca imaginaria uma abordagem tão direta.

— E de quem é essa opinião? Da amiga ou da ex-namorada? — eu perguntei recostando-me na cadeia e cruzando os braços para a mulher.

Para minha surpresa maior ainda, Cásira corou violentamente, o que fez um contraste gracioso com seus olhos cor de rosa.

— Acho que posso dizer que um pouco das duas — ela disse depois de inspirar profundamente algumas vezes. Será que ela pensou que iria me intimidar? — Eu realmente gostei muito de Henry, não só porque ele é o guardião e minha família se dedica a gerações para protegê-los, mas por que eu realmente me preocupo com ele.

— E também, você não perdeu as esperanças de reatar o relacionamento com ele depois que ele saiu do confinamento… — eu soltei.

— Não confunda as coisas. Eu realmente não posso negar que ainda tenho algum interesse nele. Mas também estou acima disso. Ele nunca me corresponderia de novo, nem mesmo se você não existisse, então que diabos eu faria correndo atrás dele? Veja quem eu sou! Veja a minha posição! Eu sou uma mulher importante e tenho o meu orgulho. Quando era bom para mim ter Henry ao meu lado, eu fiz de tudo para tê-lo ao meu lado… mas nesse contexto atual, eu não ganharia nada pegando-o para mim de novo.

— Não foi isso que eu quis dizer, me desculpe! — Eu tentei acalmar Cásira, que já estava tão vermelha que os olhos rosados não contrastavam mais com a pele e parecia que a qualquer minuto ela começaria a soltar vapor — eu não quis insinuar que você está se arrastando atrás dele, só que a forma como você se comporta ao lado dele é muito… ah, eu não sei explicar! Quero dizer… — eu mesma já estava ficando nervosa — eu não tenho planos de magoar Henry. Eu realmente gosto muito dele, e você é tão linda e tão elegante, tão… provocante… que eu sequer me atreveria a tentar qualquer coisa tendo você como minha referência. Como ele pode me desejar se você é tão incrivelmente mais… mais… sexy… — Eu comecei a falar exasperada, até podia sentir que estava sendo ridícula e infantil, então abaixei voz a um sussurro e falei para o prato de comida quase vazio — … enquanto eu tenho esse corpo baixinho, infantil e marcado… e os poucos atrativos que eu tinha perdi durante os últimos anos… eu vou ser sempre uma criança perto de você.

Dessa vez era Cásira quem tinha a expressão surpresa. Mas do nada, ela começou a rir, uma risada casta, delicada e elegante.

— Você realmente está gostando dele, não está? — Eu não respondi. Continuei a remexer os restos do prato, sem ter vontade de continuar a comer — Eu sempre apreciei a força dos Brards. Vocês têm uma vida proporcionalmente tão curta que parece insignificante. Pareceria irrelevante tentar grandes feitos, mas vocês parecem que mudam seus sentimentos, opiniões e interesses tão rápido, e não tomam realmente as decisões pensando num bem maior a longo prazo, porque parece que se ficarem muito tempo olhando apenas para uma coisa, a vida acaba e vocês simplesmente não conheceram nada… mas vocês se esforçam tanto todos os dias para aproveitar as coisas que escolheram ao máximo que talvez você já tenha vivido mais emoções do que eu.

Nós duas permanecemos um bom tempo em silêncio, até uma equipe de funcionários vir recolher os pratos e servir duas taças de pudim maltado com caramelo.

— Eu não vou mudar de ideia! — eu disse por fim, provando uma colherada da sobremesa. — Eu entendi a sua preocupação. Eu não sei se isso é coisa de destino, ou seja lá o que for… mas se você não pensa em mim como uma continuação da Nádia, não ache também que eu vá cometer os mesmos erros que ela.

Então Cásira sorriu feliz, como se tivesse alcançado um grande objetivo com nossa conversa.

— Então é bom você cumprir isso — Cásira disse satisfeita. — Henry é muito intenso, então se você decidir se entregar a ele, se entregue completamente. Não o faça sofrer — então ela sorriu desafiadoramente — porque se você fizer, eu não pensarei duas vezes antes de roubar ele de você!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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