DCC – Capítulo 47 – 3Lobos

DCC – Capítulo 47

Conversa

 

Uma noite, eu mais uma vez acordei assustada depois de mais um pesadelo. Me sentei ofegante na cama e agarrei a cabeça com as mãos, apertando-a com força, como se dessa forma pudesse esmagar o medo que eu estava sentindo.

— Está melhor? — Era Henry. Ele já devia ter me ouvido de seu quarto enquanto me debatia e foi ele quem me acordou.

Eu abracei as pernas e enterrei o rosto nos joelhos, ainda assustada. Henry acariciou delicadamente meus cabelos e esperou até que eu me acalmasse.

— Antes era só você que sofria com pesadelos… — eu sussurrei irritada — isso é tão frustrante…

Henry sentou-se ao meu lado e recostou-se na cabeceira, depois me puxou até seus braços. Eu me sentia nervosa todas as vezes que ele fazia isso. Em parte por receio dele tentar alguma coisa, em parte por receio de ele não tentar.

Mas ele apenas me acalentou docilmente, até que eu me acalmasse. Eu me deixei ser mimada pelos braços dele por vários minutos, até que meus pensamentos transbordaram:

— O que você faz quando tem pesadelos assim?

— Quando eu acordo, eu vou ler… Ler é muito bom para distrair a mente e nos leva para outros pensamentos menos penosos — ele respondeu com a voz cansada.

— Eu devo estar te dando muito trabalho te fazendo acordar toda noite para cuidar de mim…

— Por incrível que pareça, eu tenho dormido melhor agora do que em muitos anos… Quando eu estava só, até medo de dormir eu tinha…. Mas já que você já se acalmou, eu vou voltar — ele respondeu se levantando jeitoso.

Ele saiu da cama, mas antes que pudesse se afastar, eu agarrei seu pulso com as duas mãos, agindo antes de pensar.

— Por favor, fique! — eu detestei ouvir o tom suplicante da minha própria voz, mas não queria ficar sozinha.

Henry desviou o olhar para a porta, ligeiramente perturbado, respirou profundamente, e por fim abaixou-se. Ele me deu um beijo delicado na testa, e soltou as minhas mãos.

— Está tudo bem, eu estarei aqui ao lado… — e saiu.

Eu não soube dizer se o que ele disse foi bom ou ruim.

No fim, passei boa parte da noite remoendo pensamentos entre Henry e pesadelos, até conseguir voltar a dormir. A manhã já estava na metade quando acordei e me arrumei de qualquer jeito para descer e tomar café. Eu ouvi o som raro da risada de Henry vindo do andar de baixo. Ele conversava animado com alguma visita. Seria Isaac?

Mas não era Isaac. Era Cásira, vestida em um deslumbrante e sóbrio vestido de tiras pretas, com os cabelos brilhantes ao lado do rosto. Eu teria dado meia volta bem ali mesmo e ido vestir algo melhor, mas Henry percebeu minha presença e me chamou para sentar com eles.

— Oi Alésia, fiquei sabendo do ocorrido, e assim que pude tirar uma folga no trabalho, quis vir aqui! — Cásira falou para mim assim que se sentou. Parecia sinceramente preocupada. — Todos estão chocados com essa infeliz falha de comunicação.

— Ha… não se preocupe com isso. Foi só uma fatalidade que já acabou.

Eu respondi tentando demonstrar simpatia. Senti-me terrível naquele momento, ao olhar para ela, que já havia sido namorada de Henry, e reparar o quanto o corpo dela era cheio de curvas e sensualidade, enquanto o meu estava magro, desidratado e sem atrativos. Mas Cásira pareceu repentinamente surpresa ao me ouvir falar.

— Você já aprendeu nosso idioma! Tão rápido… e fala perfeitamente — ela elogiou abismada e eu sorri sem graça. — Mas você está bem mesmo? Me parece estar ainda um pouco abatida.

— É que eu ando tendo alguns problemas pra dormir, não é nada demais… — Eu respondi sem jeito e olhei para Henry, e ele me encarava distraído com um sorriso no fundo de sua expressão serena. Acabei me lembrando da súplica que fiz para ele ficar comigo noite passada e senti meu rosto corar.

Isso não passou despercebido por Cásira. Ela alternou o olhar de meu rosto corado para a expressão de Henry. Então um presunçoso ar de compreensão lhe cobriu o belo rosto.

— Hum… então é isso! — Cásira comentou com um meio sorriso provocador.

— Isso o que? — Henry perguntou distraído.

— Por favor, eu não nasci ontem, Henry! — Cásira respondeu, também corando levemente e olhando para nós dois com as mãos entrelaçadas em seu colo. — Esse seu olhar apaixonado só pode de significar que ela te correspondeu! Pensei que me contaria quando isso acontecesse…

Henry sorriu de orelha a orelha, antes de responder:

— Acho que quis fazer suspense.

— Como assim? — indaguei confusa olhando de um para o outro.

— Sabe, não era preciso o poder da onisciência para saber que Henry estava caídinho por você — Cásira explicou —, ele nunca se deu muito bem com responsabilidades de um modo geral, e perceber como ele se dedicou tão intensamente à você… No momento em que eu vi, no momento em que todos viram vocês juntos, todos perceberam os sentimentos dele. Ele não teria feito metade do que fez por você se não estivesse apaixonado.

— Cásira! — Henry repreendeu nervoso ao ver a mulher a sua frente falar dele.

Eu não conhecia muito da personalidade de Henry como todos os que viveram com ele a mais tempo conheciam. Sempre pensava que a forma de agir dele era natural, comum para todos e não exclusividade minha.

— Mas Henry — ela recomeçou, corando violentamente e pondo uma cara de repreensão —, você precisa dar a ela um descanso! Ela parece exausta! Imagino que já faça algum tempo pra você, mas não precisa…

Dessa vez eu corei violentamente ouvindo o que Cásira estava insinuando.

— Não, não entenda errado! — eu exclamei urgente.

— Não fale essas coisas — disse Henry ligeiramente contrafeito —, você sabe que eu não faria uma coisa dessas com a Alésia.

Eu baixei os olhos para os joelhos, ainda me sentindo envergonhada de ter coisas da minha intimidade sendo discutidas dessa forma. As palavras de Henry também martelavam em minha cabeça com força, junto com todas as minhas inseguranças. O que ele queria dizer com isso afinal de contas?

É claro que eu tinha consciência de que, comparada à idade dele, eu ainda não passava de um bebê. Além disso, eu ainda tinha pouquíssima experiência com rapazes, para não dizer, nenhuma — não dava realmente para contar alguns beijos trocados com três ou quatro ficantes em festas durante a escola — e Henry já tinha até um filho. E olhar para Cásira, como ex-namorada dele, deslumbrante ao extremo em seu vestido preto, realçando seu corpo perfeito e adulto, não ajudava muito minha autoestima.

E é claro que a maturidade de Cásira deveria estar em outro nível, ainda inacessível para mim pois, em uma breve troca de olhares, Cásira entendeu alguma coisa que eu não sabia que estava expressando.

— Mas Henry, quando foi a última vez que levou sua jovem donzela para passear? — Cásira perguntou para ele, e depois me fitou. — Por que não saímos um pouco nós duas? Creio que deva ter passado um bom tempo sem que tenha tido companhia feminina.

Como eu não poderia registrar a intenção dela em ressaltar as palavras “jovem donzela”? Mas ela tinha razão. Havia muito tempo que eu sequer tinha tido o luxo de companhia qualquer fora Henry.

— Ah, tenho medo de vocês duas a sós… Você vai acabar me envergonhando para ela! — Henry expressou nervoso.

— Ora, eu quero apenas oferecer meu dia de folga a ela, como uma forma de amizade… Não preciso falar nada que lhe comprometa. — Cásira sorriu presunçosamente, sem realmente olhá-lo nos olhos. — Mas isso também não quer dizer que eu também não o faria — ela completou com uma expressão perspicaz.

— Certo, certo… você tem razão! — ele concordou nervoso e perguntou para mim — se você quiser ir, Cásira é uma boa amiga… vocês vão se dar bem.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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