DCC – Capítulo 46 – 3Lobos

DCC – Capítulo 46

Acertos

 

— Você é definitivamente uma pessoa impactante… — Henry tornou a me abraçar com força e escondeu o rosto entre meus cabelos. Eu podia sentir as emoções dele em desordem. — Alésia… o que sente por mim?

Eu suspirei enquanto acariciava os cabelos longos dele. Tinha que responder com total sinceridade para ele.

— Eu… — mas eu não sabia o que dizer exatamente. Eu não sabia o que sentir exatamente. — Eu não tenho pena de você… e nem quero que tenha pena de mim. Eu não te odeio, nem guardo mágoas e nem quero te odiar. Eu não comecei isso… esse beijo, não foi porque eu não sabia que poderia escolher caras melhores. Gosto muito de você, da sua companhia, e mesmo das suas provocações bestas… mas de certa forma, eu estive menos tempo com você, do que você esteve comigo… tive menos oportunidades de pensar em você, do que você teve de pensar em mim. Então, para mim, ainda é muito cedo para eu dizer que o que sinto é amor, porque não sinto que tenha construído algo com você. Eu só sei que definitivamente quero estar ao seu lado.

Henry passou um bom tempo parado, deixando o rosto apoiado em meu ombro sem afrouxar o abraço por nenhum momento. Então eu perguntei, por que também tinha essa dúvida:

— E você, que sente por mim? — eu ainda tinha receio da resposta dele. Ele poderia ter aceitado o beijo, mas os sentimentos dele poderiam ter mudado depois das acusações que Marco fez sobre ele na festa de ano novo. Fazia tanto tempo. Tanto já podia ter acontecido.

— Sinceramente — ele respondeu com a voz abafada, —  eu fui covarde demais para dizer qualquer coisa… covarde demais para perguntar o que você sentia e me deixei levar pelas acusações de Marco na festa. Fugi e deixei você pra traz. Se eu não tivesse abandonado o planeta, teríamos descoberto que você tinha desaparecido tão mais cedo… eu… eu te amo desde que acordei no palácio e te vi na minha frente… Me arrependi de ter te entregado aos guardas no segundo depois, e sai do meu quarto pela primeira vez em anos só pra te ver de novo e te tirar de lá. Te amo desde as conversas que tivemos, e dos problemas que passamos juntos. E quanto mais te conheci, quanto mais te vi, mais quis que fosse minha.

— É porque você soube que eu sou a encarnação de Nádia? — eu afastei Henry e perguntei séria e corada. Era possível que ele estivesse querendo me comparar com o antigo amor que ele teve.

— Eu não sei… talvez. Por um tempo eu pensei que pudesse ser por isso. Mas você não se parece com ela em nenhum aspecto além da posse da relíquia. Nádia era refinada, elegante, polida, extremamente tímida e parecia ser sempre tão frágil… e não importa o que, ela nunca demonstrava irritação com nada. Você por outro lado, parece uma escavadeira.

— Obrigada, eu acho. — Levantei as sobrancelhas desconcertada. Eu resolvi entender aquilo como um elogio. Eu tinha que admitir que eu não era elegante, nem polida e nem tímida. E definitivamente eu não parecia frágil, sempre distribuindo tapas quando me irritava demais. Mas ao menos ele parecia não estar colocando em mim as mesmas expectativas que havia posto em Nádia.

— Mas nunca importou realmente… se você é uma encarnação dela ou não… quem eu quero, é você… com cada pequena peculiaridade e surpresa que você pode trazer… por favor seja minha! — Henry me encarou tão intensamente que eu senti meu rosto corar mais ainda, até o ponto em que eu tive que desviar o olhar. Aquelas palavras me renderam. — Diga que eu posso esperar por isso! — ele insistiu, levantando o meu rosto com os dedos até poder me olhar nos olhos de novo.

Tanto tempo sem me olhar, e agora me fitava com tanta urgência… eu não saberia explicar o que estava sentindo sequer para mim mesma. O calor mágico dele parecia ser irrelevante comparado à sensação quente que encheu meu rosto. Eu pude me imaginar embaraçosamente corada ao ouvi-lo se declarar. Deixando todos os meus medos e receios a flor da pele, balancei a cabeça minimamente, nervosamente, confirmando sem voz a pergunta de Henry.

Então ele se aproximou de novo e me beijou, suavemente, quase como se tivesse medo de me quebrar de alguma forma, e quando terminou, deixou a testa colada na minha e permaneceu assim de olhos fechados, até finalmente se levantar e sair do quarto.

Eu permaneci ainda um bom tempo sentada, até perceber que não estava mais no chão, e sim flutuando levemente, observando a porta por onde Henry tinha saído. Mas a mudança repentina da minha percepção do frio me informou que além de sair do quarto, ele estava saindo da casa também.

Corri até a varanda, a tempo de ver a nave decolando pela entrada da propriedade. O que deu nele afinal? Ele simplesmente saiu dessa forma, me deixou aqui completamente confusa.

Ele não voltou até a décima quarta hora do dia. Eu já estava pensando que ele havia partido, como tinha dito que faria e me deixado para trás, sem dizer nada, quando finalmente a nave retornou.

Tentando não parecer muito afoita (e falhando miseravelmente), saltei pela varanda e o esperei terminar de pousar e estacionar no batente da casa. Pela primeira vez desde que havia retornado do resort, Henry me mostrou um sorriso de verdade quando me viu. Eu estava me sentindo realmente desconcertada. De fato, ainda nem tinha parado para perceber que estava propondo um relacionamento com um cara com quem dividia a casa e segurava minha mão à noite quando eu tinha pesadelos.

— Me permite? — Ele se aproximou com ar prepotente e antes que eu sequer entendesse a que ele se referia, ele me puxou pela cintura e me deu um beijo.

Depois, com um aceno da mão, me mostrou um grande buquê de flores azuis, lindas e de uma forma que eu nunca havia visto. Tinham um perfume maravilhoso.

— Ah… kirans! — eu exclamei. Apesar de nunca ter visto essas flores na vida, pude saber imediatamente o nome delas graças a Sabedoria. — Obrigada… eu acho…

— Todos os dias eu lhe trarei uma flor diferente, para cada um dos dias que você teve que sofrer  — disse ele encantador e sério, — e todos os dias eu vou me esforçar para te fazer a pessoa mais feliz que existe.

Eu não consegui me conter. Apesar da vergonha que sentia pelo gesto dele, simplesmente desabei em gargalhadas.

— Você é realmente um piegas… eu não esperava isso! — Eu sorri tanto, que até lágrimas começaram a dançar nos meus olhos.

Eu não assumi, mas as lágrimas também eram de felicidade, e não só por conta do riso.

Durante a semana seguinte, dia após dia, Henry passou a me trazer flores diferentes, uma mais bela que a outra, para me receber à porta do quarto assim que eu acordava. Eu tinha ficado muito nervosa com a proximidade dele, mas no que poderia comparar, era como se nada tivesse mudado de quando éramos “só amigos”.

Ele não forçava contato desnecessário, ou situação nenhuma. Parecia ter percebido o meu nervosismo na presença dele e passou a levar tudo muito calmamente, na medida do possível, o que passou a ser uma faca de dois gumes, já que eu também passei a me sentir desconfortável quando tínhamos sessões para apagar as cicatrizes e eu tinha que mostrar meu corpo, apesar de achar — saber — que ele já havia visto tudo.

Por outro lado, eu também o convenci — quase obriguei na verdade — a procurar Isaac e vê-lo pessoalmente, uma vez que ele assumiu ter fugido de Keret e não ter mais procurado ninguém na tentativa de voltar a se isolar. Até pensamos que Marco iria criar algum problema, e nenhum de nós dois queria ir até o palácio, devido a certeza quase absoluta de que Marco iria aproveitar a visita para fazer algum inferno entre nós dois.

Então, com os geradores de realidade aumentada, os dois reataram contato. Eu, pela primeira vez desde que comecei essa nova vida como guardiã, me senti realmente feliz. Pela primeira vez as coisas pareciam estar realmente indo pelo rumo certo. Menos a noite, quando eu me deitava no escuro do quarto, e de novo e de novo, sentia um peso enorme me arrastar em pesadelos terríveis misturados com as memórias das lutas sem fim que fui obrigada a travar.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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