DCC – Capítulo 45 – 3Lobos

DCC – Capítulo 45

Decisões

 

Eu não sabia por que estava irritada. Andava de um lado para o outro dentro do quarto, sentindo como se tivesse sido muito contrariada de alguma forma. Eu devia estar agindo como uma criança… Por que Henry não pediu para eu ir com ele? Ele me acha um estorvo depois disso tudo? E, ainda por cima, me vem com aquela desculpa fraca… É claro que eu mesma vou decidir o que fazer da minha vida… mas não custava ele me fazer um convite.

Poucos minutos depois Henry bateu na porta, parecendo confuso:

— Você está bem? — ele perguntou.

Eu me joguei na cama, e me cobri com o edredom. Me senti ridícula, mas não queria que ele visse minha expressão irritada.

— Eu estou muito bem, obrigada — respondi secamente.

Eu esperei ele perguntar mais alguma coisa, mas ele não falou nada. Quando eu olhei para a porta, ele já tinha saído. Eu respirei frustrada. Me sentia uma criança mimada fazendo birra. Fiquei chateada e olhei para minhas mãos. Henry ainda estava terminando de cuidar das cicatrizes que as batalhas haviam deixado, e aos poucos estava passando a usar apenas roupas compridas e até luvas. Apesar de que agora tinha a liberdade de escolha entre o que vestir, não me sentia muito bem ao imaginar que no fim, estava usando-as agora não pelo frio, mas para esconder minha própria pele.

Lembrei das palavras cruéis de Marco no ano novo que passei no palácio há tanto tempo. Será que Henry realmente tinha me amado? Talvez agora ele tivesse mudado de ideia depois de me ver nesse estado deplorável, e estava com receio de me colocar na realidade, pela culpa que sentia. É claro que ele estava me ajudando a me livrar das cicatrizes, mas essa não era uma das especialidades dele, e pelas mãos dele, isso iria demorar bastante. Ele disse que partiria em breve e não estendeu o convite para mim, então ele não terminaria de retirá-las?

Como eu não apareci para o almoço, Henry tornou a bater na porta do meu quarto. Vinha trazendo uma bandeja com uma refeição para mim. Há essa altura, eu estava recostada no canto do teto, flutuando distraidamente de cabeça para baixo. Somente quando percebi que ele estava lá que despertei de meus devaneios.

— Desculpe. Estava meditando com a Sabedoria, — eu disse, pousando. Agora que ele tinha aparecido com a comida, eu lembrei que estava faminta. Não comi nada desde o café da manhã.

Henry sorriu levemente e deixou o prato na mesinha ao lado da cama, e virou-se para se retirar. Então, ele hesitou à porta.

— Eu… — ele começou a falar. O rosto redondo e fofo dele me lembrou o de uma criança de novo — … eu disse algo que te aborreceu?

— Você sempre me aborrece, Henry — respondi sinceramente sem rodeios. Ele tinha um jeito de falar as coisas que me deixava com a sensação de eu estar sendo tratada como uma criança.

— Ah, me desculpe por isso. — Ele deu mais um passo em direção à saída, mas parou novamente, deu meia volta e ficou na minha frente. — Eu sei que eu devo ser irritante para você, mas antes você não demonstrava tanto aborrecimento. E se você não diz o que é, eu não entendo! Antes você reagia de uma forma diferente e não parecia tão distante. Eu imagino que não queira mais ficar perto de mim, depois de tudo o que aconteceu, e eu até esperava que pudesse me per…

— Por que está falando essas coisas? — eu interrompi angustiada. — É você quem está… distante de mim. — Então, eu baixei os olhos para minha refeição. Tinha perdido a vontade de comer de novo. — Você não tem pelo que se desculpar. O que aconteceu, aconteceu. Não dá mais para mudar e ficar colecionando culpa não ajuda. Eu também tive culpa, por andar por aí sozinha, ainda mais você tendo me dito para não sair em público sem óculos.

Eu levei um tempo para reunir coragem de continuar a falar, Henry parecia ter percebido e esperou paciente. Então eu me sentei sobre os joelhos no chão e me concentrei em olhar para o carpete.

— Eu não tinha perdido as esperanças de sair de lá, mas no começo eu pensava que você estava irritado comigo, que não se importaria mais se eu sobrevivesse ou não… que eventualmente apareceria para recuperar as Relíquias. Mas eu desejei tanto que me achasse e que me salvasse… tanto, que se tornou doloroso. Tanto que eu quis esquecer e tranquei dentro de mim as memórias que eu tinha. Eu era obrigada a descer na arena ou eles simplesmente me obrigariam, e também era obrigada a dar o melhor de mim, pois se eu perdesse, eu morreria de verdade.

Eu dei um sorriso irônico, que não era bem um sorriso, antes de continuar:

— Quando eu entendi isso, o máximo que eu pude fazer foi sorrir e tentar me manter sorrindo, porque se eu me desesperasse, se eu chorasse, eu não iria conseguir, eu não iria sobreviver… E-eu sei — eu senti meu corpo retrair em agonia ao lembrar disso — que eles não… que eles não estavam vivos de verdade. Que eram apenas bonecos feitos de carne e osso, que a vida deles não era real, mas eles sentiam dor também, eles sentiam fome, frio, e mesmo assim eu matei eles… cada um deles… eu ainda sinto o sangue deles na minha pele, ainda sinto o cheiro. E aquele cretino do Demetre, eu contei a ele, escrevi tantas vezes… Ele sabia que eu estava viva, ele sabia e mesmo assim me deixou lá! Me colocava em duelo atrás de duelo, me fez lutar tanto, e era tão doloroso de tantas formas. Então, é claro que eu vou reagir diferente agora de como eu reagia antigamente… eu nem sou mais a mesma pessoa que eu era.

Eu não continuei depois disso. Nesse momento, para minha surpresa, Henry ajoelhou-se na minha frente e me abraçou com força. Eu não estava esperando essa reação e fiquei parada espremida entre os braços dele, aceitando o intenso calor.

— Eu daria tudo pra ter passado por isso no seu lugar — ele tentou se desculpar novamente, com a voz tremida. — Você foi tão forte, enquanto eu fui tão fraco! Eu esperava que você ralhasse comigo e falasse que tudo foi minha culpa por ter sido um covarde e ter fugido de você, assim eu poderia pelo menos me odiar em paz.

— Mas eu não quero que você se odeie! — Eu ouvi minha voz sair abafada entre os braços dele.

— MAS EU QUERO ME ODIAR! EU PRECISO ME ODIAR! — eu me assustei com o tom de voz alto e angustiado — Eu sou um fracasso que não consegue proteger ninguém, e ainda tive a ousadia de te desejar, de desejar que nada nunca te afastasse de mim. Mas eu não posso decidir por você, eu não posso deixar você para sempre no meu caminho, e te impedir de ver o mundo, porque eu sei que no momento que você ver algo melhor, você vai perceber a merda que eu sou, e não vai mais querer sequer minha companhia.

Então eu empurrei Henry e me afastei de seus braços, e enquanto ele se afastava, eu levantei o pulso com a palma da mão aberta e a cravei com toda a força que eu pude reunir no rosto dele. Eu sabia que eu tinha ficado várias vezes mais forte, mas ele também era forte. Ele aguentaria o tranco. Ele se desequilibrou e caiu chocado, me olhando boquiaberto enquanto afagava a bochecha atingida pela minha mão pesada.

— Cale-se! — eu ordenei com o tom de voz mais incisivo que consegui impor.

Então impulsivamente joguei meus braços ao redor de Henry e antes que ele se recuperasse da surpresa do tapa, eu pressionei com força meus lábios nos dele. Por um milésimo de segundo, eu temi que ele não responderia, que ele me rejeitaria, mas no mesmo milésimo de segundo, Henry arrepiou-se inspirando profundamente e me abraçou de volta, movendo os lábios junto aos meus. Quando finalmente nos separamos, ele me olhou ainda com a expressão assombrada, e eu disse seriamente, colocando o rosto dele entre as minhas mãos:

— Não se atreva a achar que sabe o que eu quero, penso ou vou pensar! Eu mesma posso decidir isso, e só eu sei se eu vou ou não mudar de opinião. Então não se reprima de fazer o que VOCÊ quiser.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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