DCC – Capítulo 44 – 3Lobos

DCC – Capítulo 44

Recomeço

Alésia Latrell:


Eu me deixei ser carregada e cuidada por Henry assim que pousamos em Keret. Levei quase a viagem toda de volta tentando restaurar as minhas memórias e sentimentos que eu havia selado para me impedir de sofrer, tentando me lembrar quem era ele. Eu vivi todo esse tempo que estive presa como uma máquina, então pensar como uma era o que me ajudava a sobreviver.

Mas acho que de alguma forma, alguma coisa dentro de mim quebrou. Eu não chorava havia um bom tempo. Chorar e me encolher de medo tinha sido uma coisa tão inútil durante esse tempo todo. Porém, Henry brotou de novo em meus pensamentos como um sol depois de uma longa e cansativa noite. Ele me resgatou, e me levou ao subsolo e tratou minhas feridas.

Henry trabalhou duro. Em pouco tempo, ele tratou todas as minhas feridas abertas e reconstruiu minhas cordas vocais. Meu ombro precisou ser refeito, e inclusive várias outras partes do meu corpo que foram mexidas com as habilidades inferiores dos mecânicos de reborns.  Quanto às cicatrizes, levaria algum tempo para remover todas. Porém, depois de alguns dias, eu passei a acordar assustada, achando que meu retorno havia sido um sonho cruel, que eu na verdade não estava aqui, ou que finalmente tinha perdido a razão de vez.

Assim que ele me deu alta, e eu pude sair e ver o sol pela primeira vez, eu corri para o jardim e gritei. Gritei até ficar sem fôlego, apenas pelo prazer de gritar, apenas para ouvir o som da minha própria voz de novo. O som não era exatamente igual ao que eu me lembrava, mas ainda me deixou feliz em ouvir. Mas Henry apenas subiu as escadas e sentou-se no batente da varanda. Desde que nos reencontramos, ele evitava fazer contato visual comigo.

— Não seja chato! — Eu chamei do jardim. — Por que está aí escondido?

Henry pareceu terrivelmente perturbado por eu ter falado com ele. Ele parecia estar muito abalado ainda.

— Ei rapaz… assim não vai ser divertido para mim… — então eu dei um salto e voei até o parapeito da varanda, onde me debrucei, olhando-o.

Henry deu um meio sorriso.

— Além de já poder falar e escrever no meu idioma, você também já aprendeu a voar tão bem… — ele disse, mas sem me olhar realmente.

Eu sorri feliz com a observação dele, então dei de ombros:

— Eu tive uma ajuda — e sacudi a mão onde a relíquia da Sabedoria tinha se colocado.

Henry sorriu para mim, mas o sorriso não chegou aos olhos.

— Temos que ir ao palácio… você tem que pegar sua identidade nova, seu selo, e… Marco também vai querer te ver…

— Eu não quero ver Marco! — eu ralhei irritada. — Por que eu iria querer ver aquele idiota? se ele não tivesse dito aquelas coisas, você não teria se irritado e nada disso teria acontecido!

— Não… você está direcionando sua raiva para a pessoa errada. Eu que te deixei para trás e fugi, então a culpa de tudo isso é minha. — Ele suspirou profundamente, parecia estar se debatendo com sérios conflitos internos. — Se você quiser ir vê-lo, não precisa se segurar por minha causa. Você não tem que ficar presa a mim. — Então ele se levantou e debruçou-se na varanda ao meu lado, mas ainda olhando em outra direção. — Tudo o que eu fiz durante esse tempo foi provar que ele estava certo. Eu não posso ser responsável por sua segurança. Eu não teria sequer o direito de te odiar se quiser ficar ao lado dele.

— Henry! — eu chamei, mas ele não se virou. — Olhe pra mim! — exigi. Mas demorou um pouco antes de me encarar. — Eu beijei Marco! — eu assumi com a expressão séria. Não esperava ter que ter essa conversa tão cedo. Henry crispou os lábios e desviou os olhos. — Mas eu tive meus motivos para fazer isso, e de qualquer forma não foi uma coisa que deixou qualquer um de nós dois felizes. Eu não o amo… muito pelo contrário!

— Então por que — ele começou, me olhando de esguelha, surpreso —, quero dizer, não que você tenha que me dar satisfação, ou coisa assim…

— Por que… eu não vou dizer porque, já que eu não tenho que te dar satisfações — eu provoquei —, mas com certeza foi algo que, dependendo da minha vontade, não irá se repetir nunca mais na minha vida. Acho que eu já tenho traumas demais.

— Sinto muito por isso.

— E se você me pedir desculpas de novo, eu vou me irritar com você. — Eu briguei, sorrindo para ele enquanto dei um soco leve no ombro dele. Então saltei para o jardim e flutuei lentamente até o chão, aproveitando a brisa fresca no meu rosto.

Já tinham se passado vários dias desde que eu havia chegado. Marco não apareceu para forçar outra visita, mas mandou um emissário entregar a minha identidade nova, bem como o brasão imperial em meu nome. Isso me permitiria andar livremente por qualquer lugar sem ser confundida de novo com uma renascida ilegal.

Quando pude acessar a macronet de novo, Henry me mostrou as notícias sobre o desmonte da quadrilha de traficantes de corpos e a organização ilegal de apostadores daqueles duelos sangrentos. Demetre havia sido apontado como o cabeça, mas ele e seus homens haviam desaparecido completamente. Inclusive a própria lua havia sumido do mapa. Ninguém soube explicar o que tinha acontecido com eles. E, sem provas concretas, seria bem mais difícil prender todos os envolvidos.

Eu não consegui sequer sentir alívio ou alegria por ter escapado. Na verdade, eu não senti nada além de pena por aquilo ter acontecido. Todos os outros que um dia fizeram negócios com Demetre eventualmente poderiam ser localizados e presos, teriam seus bens confiscados e os renascidos sob suas posses seriam desativados e os corpos devolvidos para as famílias, que também teriam algumas explicações a dar. Inquisidores imperiais foram especialmente movidos para interrogatórios, a fim de separar os verdadeiros culpados daqueles que tiveram os nomes usurpados.

Apesar de eu tentar me manter sempre firme e animada no dia a dia, tentando compensar o tempo que estive privada de liberdade, eu agora entendia como dormir deveria ter sido ruim para Henry durante todos os anos do luto depressivo dele. Em várias ocasiões, às vezes repetidamente, ele precisava ir ao meu quarto a noite para me acordar de pesadelos. Lembrei-me que acabei trancando minha própria memória e sentimentos para não ter que passar por isso na minha cela. Mas agora, as memórias das lutas chocaram-se com todas as outras, e eu sonhava angustiada que estava com o corpo coberto de sangue, cercada de inimigos.

E, sempre que isso acontecia, Henry segurava a minha mão e me acordava gentilmente, e me fazia companhia até eu dormir de novo. Pela manhã eu costumava fingir que nada tinha acontecido. Queria lidar com tudo o mínimo necessário. E apesar disso, tinha ganhado o hábito de treinar para distrair a mente. Corria várias voltas ao redor da casa enquanto atirava pedrinhas em alvos que eu havia espalhado, além de praticar golpes. E por vezes, saia voando pela propriedade, apenas para sentir aquele prazer maravilhoso de voar em liberdade.

Porém, o que eu tinha me determinado a dominar mesmo era a capacidade de criar barreiras completas de raio longo, como a que Henry tinha feito quando me resgatou. Parecia precisar de um nível de controle mental absurdo, e até pensei em como Marco conseguia fazer isso por tanto tempo, quase indefinidamente como ele fazia. Fora isso, eu passava muito tempo meditando com a Relíquia da Sabedoria. Tinha descoberto a vontade de aprender cada vez mais, e de alguma forma, para mim aquilo tinha se tornado extremamente fácil.

Henry porém estava se mantendo cada vez mais distante. Ele sempre me rondava, mas como se fosse uma obrigação que ele tinha a cumprir comigo e não por vontade própria, já que sempre que eu me aproximava, ele arrumava uma desculpa para se afastar. O que se passava na cabeça dele?

— Alésia, eu pretendo ir embora de Keret em breve! — ele disse do nada durante o café da manhã, quase duas semanas depois.

Eu achei a proposição repentina, e imaginei que ele deveria estar há muito tempo pensando nisso.

— Eu não vejo problema com isso… — respondi entre uma garfada e outra.

Ele pareceu ligeiramente decepcionado, e continuou comendo em silêncio um bom tempo antes de continuar.

— Você pode continuar nessa casa, se quiser. Ela foi comprada com o dinheiro que pertence a herança dos guardiões, afinal. Os guardiões anteriores nunca tiveram herdeiros, então acabou que a fortuna deles foi passando para os sucessores do fardo, e… você tem direito… além do que, agora que você também recebeu a sua guia de créditos, pode se virar sozinha com o dinheiro… — Eu não estava prestando atenção nessa parte.

— Você não vai me levar com você? — perguntei séria.

Henry baixou os olhos para o prato e começou a remexer a comida sem falar nada.

— Eu não posso mais decidir isso por você. Você deve ir para onde quiser.

Eu não soube o que responder, mas de alguma forma me senti ofendida. É claro que eu decidiria o que fazer da minha vida. Disso ele não precisava ter dúvidas, mas mesmo assim, me senti triste e rejeitada.

— Então boa viagem! — Eu resmunguei para ele, empurrei o prato para o lado, me levantei da mesa e fui pisando forte para meu quarto.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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