DCC – Capítulo 43 – 3Lobos

DCC – Capítulo 43

O fim da Lua Laplantine

 

Marco Gionardi:


Vir para esse finzinho de mundo não era uma tarefa difícil. Humanos comuns não tem capacidade de lidar com magia. Mesmo os mais elevados aparatos tecnológicos ainda seriam inferiores quando comparados às artes arcanas. Porém, usar “Os olhos de Deus” tinha sido completamente exaustivo. Eu levaria pelo menos um mês pra me recuperar por completo.

Ocorre que eu também não podia deixar essa situação de lado. Além da ofensa que me fizeram, eles ofenderam o império. E pensar que tais manobras hediondas eram feitas bem debaixo do meu nariz. Porém, “Os olhos de deus” eram realmente absolutos. Desde que eu soube da fórmula dessa arte, essa foi a primeira vez em minha existência que me dei ao trabalho de usá-la. Eu pude sentir o passado e o presente de bilhões e bilhões de pessoas, em cada um dos centenas de sistemas estelares espalhados pelo império.

Isso seria definitivamente suicídio para qualquer outro. Nem mesmo os imperadores anteriores teriam o poder mental necessário para lidar com a carga de estresse e o fluxo intenso de informações criados como resultado dessa arte. Claro, nenhum dos imperadores anteriores foram eu. Nenhum deles chegou aos meus pés.

Quanto a todos aqueles que estavam nessa lua minúscula… nenhum… nenhum é digno de ser poupado. Olhei atentamente a alma de todos esses condenados. Apenas fitar um onisciente normal assusta terrivelmente os pecadores. Imagine um onisciente nível imperador. Image a mim! Eles sentem o peso do julgamento e se desesperam. Que seres ridículos…

Que seja. A existência quebrada deles vai continuar enquanto o anjo da morte não tiver a piedade de levá-los. Eu estraçalhei a consciência de todos eles. Memória por memória, quebrei cada pedaço de esperança, sonhos, desejos e sanidade que um dia eles já tiveram, e plantei a semente do desespero e do medo. Com o nível insignificante da alma deles, enlouquecê-los é uma tarefa ridícula.

Nada é pior para um humano do que perder a capacidade de viver por si só. Mesmo morrer não é tão terrível. E agora, toda sombra, todo som e todo tato em que eles interagirem irá instigar um medo irracional e perverso que irá consumir os restos das almas deles até o último limite da loucura. Eles nunca mais serão capazes de sequer verem uns aos outros de novo. Imagine reconstruir o reino de perversão que tinham.

Aquele Demetre, então… ah, mas como eu queria arrancar pelo menos os dentes dele, um por um, e ouvir seus gritos desesperados por perdão. Não fosse o nojo de ter que tocá-los pessoalmente, nem mesmo isso seria suficiente para satisfazer minha frustração. Mas claro, depois que os segredos dele foram expostos, era apenas uma questão de horas até que aqueles que sofreriam com as repercussões aparecessem para cobrar o prejuízo. Isso se minha armada não os pegassem primeiro.

Mas que problemático… Agora eu teria que me recuperar… nada menos que um mês. Não fosse o fato daquela garota ser necessária, eu já a teria cortado dos meus planos…

— Vejo que gosta de brincar com a mente desses humanos… — Uma voz etérea ressoou ao meu redor.

Um arrepio sinistro desceu pela minha espinha e, quando me virei, uma sombra negra disforme e incorpórea flutuava a alguns metros de mim. O cheiro da morte exalava com força em minha direção. Aquela pressão… aquela energia… aquela presença… não podia ser!

— Dhar!? Como…

Não havia dúvidas. Mesmo que aquela presença não tivesse uma forma, ou mesmo um rosto, como eu não reconheceria a quem pertencia? Mesmo que milhões de anos ainda se passassem e o universo morresse de velhice, eu ainda o reconheceria, principalmente surgindo em uma forma tão… incorpórea, mas…

— Olá, meu amigo — a voz sinistra dele me cumprimentou ressoando pelas paredes do galpão.

— Como pode existir nessa forma? — Entre todas as coisas, isso eu não pude deixar de perguntar.

— Tal existência deprimente… Estar disposto a sujeitar-se ao conceito da morte… quanta humilhação! — A voz de Dhar repreendeu com um tom de nojo evidente. As pessoas ali, que tinham acabado de sofrer em minhas mãos estremeceram e gritaram em desespero quando sentiram a pressão de Dhar. Mesmo uma brisa os assustaria terrivelmente depois do estrago que fiz nas mentes deles. Imagino o que aquela voz dominante não faria com eles.

— Você não deve ter aparecido para mim apenas para criticar a mortalidade humana… — presumi. Algo estava muito errado aqui. Era óbvio pela aparência, mas mesmo a alma dele…  Eu conheci Dhar, mas parecia que depois de tanto, tanto tempo, ele já não era mais o mesmo.

— Hu hu hu hu hu! Não… vim lhe mostrar… que eu me libertei das algemas da humanidade… — ele anunciou. Então, ergueu um de seus braços sem forma definida e estalou os dedos. — Tenho liberdade de manipular como eu quiser o meu próprio poder! A minha própria existência!!

Ondas após ondas começaram a irradiar lentamente da mão etérea de Dhar e propagar ao redor dele. Um sentimento de perigo que eu nunca havia sentido antes nessa vida me assolou. Demorei o suficiente apenas para ver a primeira onda envolver os corpos flácidos e apavorados dos guardas inertes. Vi a pele deles enrugar, murchar e sumir até restarem apenas os ossos, e depois mesmo os ossos foram corroídos até virarem pó.

Obviamente eu não iria esperar até que uma dessas ondas tocasse em mim. Apressadamente, rasguei uma fenda no espaço e me lancei daquela lua até o planeta que ela orbitava, ainda assim tendo calafrios pela sensação de que não tinha ido longe o suficiente.

Olhei para o céu a tempo de ver a lua inteira ser engolida por uma névoa translúcida, desestabilizar e ruir aos pedaços até se desfazer em um monte de poeira espacial e destroços que aos poucos entravam na atmosfera em uma espetacular chuva de fogo até serem completamente consumidos ao nada. Aquilo não era natural!

— É assim que se brinca! — A voz de Dhar sussurrou ao meu lado, me deixando sobressaltado.

— Você… — Eu me senti paralisado pelo choque. — Como conseguiu fazer aquilo?

— O tempo é o regente de todas as coisas vivas, meu caro. Elas existem e deixam de existir por causa dele! Vencer o tempo. Vencer a mim mesmo… e ganhar o controle sobre minha própria existência. Resistir como eu bem entender… você não gostaria de ter isso? — Dhar falava lentamente enquanto arfava um hálito de morte.

Eu engoli em seco. Se ele dizia a verdade, e era óbvio que dizia, Dhar de alguma forma tinha encontrado um caminho para se tornar um Deus vivo! Isso era… não dava para negar, no mínimo tentador.

— Você mais do que ninguém deve desejar essa liberdade… esse poder… junte-se à mim! Eu pretendo reunir poder suficiente para destruir essa palhaçada toda! — ele abriu os braços disformes para o alto, como se quisesse abraçar os céus.

Como eu poderia não entender o que ele queria dizer?

— Nossa… quanta revolta! — Ironizei — De todos os Deuses, por que justo você iria querer isso? Além do mais, você não tem o direito de decidir isso sozinho! — Eu o acusei, sentindo a raiva escapar junto com o receio e o desejo nas minhas palavras.

— Eu não tenho o direito? — A sombra de Dhar tremeluziu violentamente. — Por que eu não iria querer? Desde que os Deuses caíram, apenas eu mantive o dever de manter a ordem do multiverso. E apenas eu percebi como foi errado deixar que essa realidade existisse, criada em cima dos atos desprezíveis de Deuses falidos e infestada de seres insignificantes! Apenas eu lutei pela imortalidade que me pertence de direito! — Dhar acusou. — Essa sua carne ainda é jovem, mas já deve entender que quanto mais tempo você vive… mais perto estará da sua morte. Você tem o direito de se vingar das deidades responsáveis por isso e apagar toda a história dessas vidas falhas. Você também foi apenas uma vítima da corrupção…

— Do que você está falando afinal? Por que eu iria querer vingança contra este multiverso? Eu sou um dos “seres insignificantes” que mora nele! E imortalidade? A imortalidade é impossível nesse plano sem o poder das Relíquias e todas elas estão… estão… a não ser… A Organização desceu pra esse plano? Então foi você quem esteve tentando manipular as pessoas para tomar posse das Relíquias! — eu acusei, sentindo um lapso de esclarecimento e o perigo dessa informação — Esta realidade também me pertence! E eu não vejo sentido em destruí-la! — Eu o repreendi.

— Humpf. Logo logo você não terá outra escolha a não ser se juntar a mim ou perecer junto aos outros. Sim, é verdade que a Organização está comigo, e como pode ver, meu controle sobre ela já supera em muito as suas capacidades de me deter estando preso nessa carcaça humana. Mas não precisa ser assim! Me siga! Liberte-se dessa humanidade fatigante e governe acima de todos!

— Eu já governo acima de todos! — eu rebati fitando o que eu achava ser os olhos da figura disforme. — E eu já tenho todo o poder que preciso, ninguém, humano ou entidade, tem poder suficiente para me prejudicar se eu não permitir!

— Ah, então você decidiu assumir a Sabedoria? Mesmo que você tenha decidido reivindicar o seu direito sobre ela, você não terá tempo para controlá-la antes que seja tarde demais. Sua única escolha é juntar-se a mim! Já que mesmo que eu não faça nada… a maldição de Brah está mais perto de corromper as Relíquias do que nunca e isso trará o apogeu da Destruição. Quando este momento chegar, eu sequer vou precisar levantar um dedo sequer. Destruir uma simples lua não será nada em comparação. Destruir toda a galáxia com um estalar de dedos para ela não vai ser nada… todo o universo e todo o multiverso estarão de volta nas minhas mãos, e eu poderei apagar todos os erros que vocês criaram.

— Eu prefiro matá-los antes de ver isso acontecer! — Eu insinuei.

— Hu hu hu hu… eu não duvido. Depois do que fez com aquela versão insignificante de humano chamado Nádia… mas você não tem mais tempo. Ou você quebra a maldição ou eu destruo o universo. Os guardiões, vivendo ou morrendo, não importa mais, o futuro é inevitável, agora que todas as peças estão reunidas. Mesmo sua vida eu só estou tolerando agora porque você decidiu reivindicar seu direito sobre a Sabedoria. Humpf… um poder divino com um mortal… que decadente… — ele falou finalmente expressando o desprezo dele por mim. — De qualquer forma eu prefiro que vocês todos estejam vivos, assim será mais fácil dominá-los. É muito mais fácil para as pessoas perderem sua sanidade se puderem sentir o desespero de suas existências. Atrelar poderes divinos à humanidade é o que trará ruína a este universo. Enquanto vocês viverem, vocês irão sofrer, e quanto mais sofrerem, mais corruptos se tornarão.

— Dhar! Não me ameace! — Eu avisei — Apenas porque você é capaz de se esconder de mim entre esses humanos, não significa que eu não possa enfrentá-lo.

— Quem VOCÊ pensa que é, achando que pode fazer frente a mim? Eu vim aqui para tentar trazer você à razão! — A sombra que era Dhar começou a vibrar ameaçadoramente. — Quando não houver mais ninguém que tenha fé em você, esse será o seu fim. Então de uma forma ou de outra eu ganho já que não tem como você quebrar a maldição de Brah a tempo.

Dhar tinha razão. Não tinha como eu fazer frente a ele nesse momento, mesmo que eu estivesse com a Sabedoria. Então, havia realmente um espião dele entre os guardiões do segredo. Felizmente, ao contrário do que ele pensava, eu não havia me ligado à Relíquia. A contagem regressiva ainda não tinha sido iniciada. E pelo visto ele também não tinha ainda peso suficiente pra me encarar despreparadamente, com a informação que ele tinha. Esse encontro… foi realmente apenas um convite… uma ameaça. Uma amostra do poder que ele pretendia reunir.

— Então? Você já alcançou o topo do que a humanidade pode lhe oferecer… Você não vai ganhar nada permitindo que essa realidade continue existindo. Brah falhou. Falhou e nos condenou. Você mais do que todos deveria ser aquele que mais o repudia, e ainda espera que ele quebre a maldição?

— Não tem mais nada que eu possa fazer quanto a isso — respondi seriamente. — Quanto ao que os humanos podem me oferecer… isso sou eu quem decide.

— Então nos vemos no advento da Destruição… — O tom de voz de Dhar baixou quase uma oitava e se tornou ameaçador — Até lá… fique fora do meu caminho!

Então, a sombra espectral de Dhar investiu contra mim.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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