DCC – Capítulo 42 – 3Lobos

DCC – Capítulo 42

Abandonando o navio

 

Demetre Laplantine:


 

— O que você disse? — Eu levantei de uma vez, encarando o chefe da segurança que tinha acabado de me trazer informações. Senti o suor descer gelado pelas minhas costas.

— Confirmamos que o invasor que levou a Ruiva de Sangue foi Henry Siever… — ele repetiu

Que inferno era esse? Como assim Henry Siever? O Henry Siever?? Só poderia ser alguma espécie de engano… era isso… algum rival contratou um sósia para vir me dar um susto e levar minha propriedade… mas Fize não parecia ter terminando o relatório. Seja lá o que fosse, ele estava se segurando para contar. — O que mais? Desembucha logo de uma vez!

— Ele também invadiu a central de controle do nosso sistema, e infectou nossa rede interna com um vírus backdoor. Perdemos a autonomia de todos os controles.

— O QUE? — Eu despenquei na cadeira em choque. Se o controle do meu sistema interno estava nas mãos de outra pessoa, seria terrível. Se fosse uma pessoa comum, eu ainda teria como ameaçar… Mas se fosse realmente Henry Siever… Haviam muitas poucas pessoas que podiam gozar de fama, riqueza, inteligência e poder nesse universo. E Siever estava acima de todas elas. Não só ele era tremendamente poderoso, ele também era sabidamente o maior amigo pessoal do Imperador em pessoa!

Henry poderia ser considerado a segunda pessoa mais influente de toda a galáxia. Olhei pra minha mão enfaixada. Teria que pagar uma quantia razoável para reconstruir meus dedos. Se alguém como ele estivesse contra mim, então as coisas estariam piores do que o esperado. Ele não era alguém que eu podia mandar matar e sair impune como se nada tivesse acontecido. Ter perdido alguns dedos foi quase como sair ileso.  

Ainda por cima, ele tinha vindo aqui pessoalmente e sozinho. Entrou sozinho e saiu sozinho como se não fosse nada demais. Que tipo de lugar era esse? Eu tinha a melhor segurança tecnológica da galáxia! E ele andou por aqui como se não fosse nada. Apareceu e desapareceu como se fosse um fantasma. Os guardas não tiveram sequer condições de reagir.

“Você mexeu com coisas das quais não pode mais fugir, meu amigo”… “não espere que vai conseguir escapar…” As palavras dele dançaram na minha memória de novo. Naquela hora, eu simplesmente achei ridículo. Como alguém com aquela carinha de criança poderia ser uma ameaça para mim? E ele disse que a Ruiva estava viva… se ele sabia, então ela era alguém da vida pessoal dele…

Comecei a suar frio de verdade agora. De alguma forma, ter pago o preço de “apenas” alguns dedos e ter o controle do meu sistema interno usurpado… parecia uma compensação pequena. Pequena demais…. o ódio que ele mostrou não era um sentimento simples, como o de alguém zangado por que pegaram seu brinquedo sem permissão. Era genuíno e irreconciliável. Porém, era uma questão de tempo até recuperarem o controle do sistema. Quando isso acontecesse… eu apenas abandonaria este lugar e recomeçaria em outro. Não é como se eu não tivesse planos alternativos.

Passos apressados vieram do corredor da minha sala. Um guarda entrou apressado com a expressão de pânico.

— Senhor! — Ele entrou de uma vez, sem se anunciar — O que faremos? Todos os arquivos do sistema estão sendo vazados para fora! Agora toda a galáxia já pode saber dos nossos negócios!!

PUTA MERDA! Eu petrifiquei no lugar. Que?? Então o plano dele era me expor? Que merda ele estava fazendo? Caramba, agora eu definitivamente estava sentindo o cheiro da morte! Todas as pessoas que frequentavam esse lugar… todas elas sem exceção me caçariam até os confins do universo se nossos negócios se tornassem públicos.

— Vamos evacuar agora. Peguem tudo o que der pra salvar, e preparem minha nave… AGORA!! — Gritei a ordem para os guardas. Fize transmitiu o comando, e correu também. Era uma questão de tempo apenas. Se aquelas pessoas chegassem aqui buscando vingança, antes que eu saísse, não seria uma coisa simples, considerando que perdi o controle do meu sistema de segurança.

Abri uma maleta e comecei a encher com minhas cartas de crédito que eu havia guardado esse tempo. Precisava levar minha fortuna. Recomeçar bem longe. Eu poderia, quem sabe, até mudar de rosto quando fosse recolocar os dedos, então era só trocar de nome. Não seria a primeira vez. Dinheiro resolvia tudo… eu só precisava garantir a minha fortuna. Então aprontei minhas coisas e corri para o hangar.

Vários do meu pessoal corriam de um lado para o outro aprontando as naves. Uma equipe trabalhava abastecendo minha nave pessoal com meus pertences mais valiosos. Todos corriam de um lado para o outro tentando dar conta da tarefa. Esperei do lado de fora ansioso.

— Vamos logo com isso! — Comecei a ordenar. — Esses ratos miseráveis estão me fazendo perder tempo… — Foi quando eu vi um rapaz andando calmamente pelo hangar como se estivesse turistando. Olhava com um ar levemente interessado para a correria, como se ele mesmo não tivesse trabalho a fazer — Você aí! — eu chamei zangado. — Como se atreve a fazer corpo mole na minha presença?

Foi quando ele olhou pra mim como se fosse eu quem tivesse sido audacioso. Mas então, eu vi o rosto dele… como não reconhecer aquele rosto? Henry Siever era um caso à parte, já que ele não aparecia muito em público, mas esse cara?? O que ele estaria fazendo aqui? Não… não… era impossível! Não tinha como ele vir aqui em pessoa… tinha?

O olhar dele dizia com todas as letras que eu era insignificante demais para sequer ser reconhecido como pessoa. Eu senti isso. Senti a pressão assustadora que caiu sobre mim logo quando nossos olhos se encontraram. Aquele tipo de aura dominadora… estava invadindo a minha alma. Quando eu percebi, já estava de joelhos no chão, encharcado de suor… e todos os meus homens estavam de joelhos também, como se não suportassem o próprio peso.

Terror.

Era isso que eu senti nesse momento. Sem razão aparente, apenas aquele medo intenso sendo plantado na minha alma e que crescia como uma árvore venenosa. Não adiantaria sequer tentar fugir. Eu sabia o que ele queria… ele me mostrou… eu vi em minha mente o desejo dele pela minha vida… foi quando percebi que podia me mover, comecei a me arrastar no chão, não pra longe, mas em direção aos pés dele.

— P-Por favor… Vossa alteza… me poupe… — Eu me arrastei até onde consegui me aproximar e comecei a chorar. Que humilhante. Nunca imaginei que estaria em uma situação tão degradante, implorando. Mas eu tinha que viver. — Eu faço qualquer coisa… eu pago qualquer preço…

Ele me olhou de cima com desgosto. E riu com escárnio.

— Você sequer tem alguma coisa que possa me comprar? — ele debochou e chutou minhas mãos que tinham agarrado na barra de suas vestes, fazendo questão de depois pisar sobre minha mão mutilada. — E se eu pedisse… — ele disse lentamente, enquanto eu suprimi um gemido. Aquele nível de dor era algo que eu nunca tinha encarado antes, parecia que meramente por estar na presença dele meus sentidos se tornavam muito mais aguçados, muito mais dolorosos, mas eu sabia que ele poderia fazer bem pior. Ele olhou em volta e apontou para minha nave pessoal — …e se eu falasse que quero tudo o que tem dentro dessas naves?

— Qualquer coisa… qualquer coisa… tudo aqui é seu! Eu não me atreveria a barganhar sendo uma pessoa tão insignificante — me apressei a responder, sentindo as lágrimas escorrerem. Sequer me atrevi a puxar o pulso cortado de debaixo da sola dele.

— Humm! — ele riu. Parecia impressionado. É isso… eu posso conseguir! Ele vai me deixar ir — Mas eu vim aqui cobrar uma dívida muito grande de você… ainda não é suficiente…

Então ele apontou uma das mãos para a minha nave fechou o punho. No mesmo instante, eu assisti horrorizado a nave ser comprimida e amassada, com um pesado som de metal sendo retorcido. Em poucos segundos, a nave havia sido comprimida a nada menos do que uma pequena bola de destroços e sucata.

—  Ah!!! — O que ele fez? Mas que merda foi aquela? Ele não sabia o tamanho da fortuna que estava naquela nave? O que diabos ele queria então? — Mas… s-s-se aquilo não era do agrado de vossa alteza… e-e-então o que posso…

— Você usou o meu brinquedo pelo último ano e meio… você me fez vir aqui pessoalmente lidar com essa gentinha… — ele disse lentamente. Parecia que quanto mais vagarosamente ele se expressasse, maior era o perigo, — e você acha, que uma navezinha vai saciar o débito de sangue que me deve?

As coisas dele? Será que ele também veio aqui pessoalmente por causa daquela menina? Quem diabos era ela afinal? Meu corpo agora já tremia tanto que eu não conseguia mais nem controlar meus membros.

— Eu lhe darei uma chance, um teste… — ele me olhou do alto, como se fosse muito engraçado sequer se dar ao trabalho de dirigir a palavra a mim — … você disse que pagaria qualquer preço. Então o preço que eu quero, é… a vida de seus melhores homens em troca da sua.

A vida… dos meus homens? As palavras dele me fizeram tremer!

— Claro, claro! Meus melhores homens… O Chefe da segurança, Fize, é quem tem a minha mais absoluta confiança em quase dois séculos trabalhando para mim… ele foi o melhor do ramo… — Se eu pudesse usar a vida deles pra trocar pela minha, qualquer coisa, eu pagaria qualquer coisa. — Com certeza a vida dele é…

*PAM!*

Com uma única palma da mão dele, ele me jogou pra longe. Depois de voar por dezenas de metros, senti meus órgãos internos chacoalharem assim que eu bati com força na parede ao fundo.  Sangue fresco saiu pela minha boca. Que tipo de força monstruosa…

— Por… que? — Eu deixei escapar a pergunta em meio ao terror. Minha cabeça zumbia. Se ele decidisse me matar ali, não havia ninguém que pudesse pará-lo. Em nenhum lugar.

— Por que, você ainda pergunta? Você é um verme… Um porco imundo. Sequer merece ser chamado de humano. Me faz ter vergonha de pertencer à mesma espécie que você! — Ele vociferou para mim, e eu estremeci com suas palavras. A pressão devastadora da força dele inundou novamente meus arredores e eu despenquei no chão. Mal conseguia respirar. — Mas não se preocupe… eu não sujaria minhas mãos com seu sangue vagabundo — eu não tive sequer tempo de sentir alívio, — um destino muitas vezes pior do que a morte te aguarda, e depois, você mesmo vai pensar seriamente sobre se vale a pena continuar nessa vida!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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