DCC – Capítulo 41 – 3Lobos

DCC – Capítulo 41

A chegada do Calor – parte 2

 

Henry Siever:


 

Eu estava parado na frente dela… talvez mais enlouquecido que ela. Apontei minha arma para os demais renascidos que ainda estavam com a cabeça intacta e disparei contra todos eles. Eu nunca tinha posto pra fora tamanha intenção assassina.

As defesas da arena foram acionadas. Para começar, uma chuva de dardos tranquilizantes voou em nossa direção e se chocou com uma barreira mágica muito mais complexa do que as que alguém começando a usar magia poderia fazer. Era uma circunferência completa ao redor de nós dois. Então eu estendi a mão para Alésia. Ela hesitou.

Eu finalmente estava cara a cara com ela de novo. Havia se passado algum tempo, e Alésia com certeza já tinha perdido as esperanças de que alguém aparecesse para resgatá-la ao ponto de desistir da própria humanidade para sobreviver. Eu olhei para os braços ensanguentados dela, mas muito daquele sangue nem sequer pertencia a ela. Que ela estaria pensando ao me ver ali? Aquela expressão desconfiada dela…

— QUEM ABRIU OS ESCUDOS??? — Ouvi uma voz berrar do alto de um camarote no centro das arquibancadas — Quem é esse? Como ele invadiu? — Alésia desviou o olhar desconfiado de mim, e encarou a origem da voz. Eu também me virei para ele e ele falou diretamente para mim — O que você pensa que está fazendo com a minha propriedade? Quem é o seu proprietário? — Ele obviamente estava me confundindo com algum desses renascidos.

— Por favor, me perdoe… — eu voltei a atenção para Alésia, mas ela ainda observava o homem nas escadarias. — Eu fracassei com você e acabei deixando que passasse por isso… eu nunca vou conseguir me redimir o suficiente.

Então ela estremeceu um pouco. Ela não parecia sequer lembrar de mim. Eu estava tão preocupado. Esse Demetre Laplantine tinha tomado todo o tipo de precauções para que ela não fosse encontrada por ninguém, então, por isso, acabei demorando mais do que o esperado para chegar até ali. Quando eu achei que ela me ignoraria completamente, ela flutuou lentamente até ficar frente a frente comigo.

Uma sensação levemente incômoda de gravidade aumentada me atacou por um breve momento. Parecia que ela estava me avaliando tentando decidir se eu seria ou não uma ameaça na base da força. Ela mordia os lábios como se tentasse segurar a dor que estava sentindo, e me olhava com um misto de curiosidade e alerta, ainda em guarda comigo.

Eu ofereci a mão, mas o movimento repentino pareceu assustá-la. Ela balançou um pouco hesitante, pronta pra lutar a qualquer minuto, mas então ela apertou minha mão. Eu estremeci quando senti uma onda de frescor invadir meu corpo. Uma sensação de conforto que parecia tão distante, como se eu nunca tivesse sentido isso na vida. A onda de nosso contato se espalhou um pouco ao nosso redor, mostrando descargas visíveis de energia, e aos poucos estabilizou. Ela liberou a pressão que estava fazendo contra mim e então ela se aproximou mais até encostar a testa contra meu ombro, e esconder o rosto contra meu peito. Me senti desmerecedor dessa aproximação dela.

Eu a abracei em tempo de segurá-la assim que ela se deixou cair em meus braços. Parecia que ela estava terrivelmente cansada, terrivelmente machucada, terrivelmente fraca… terrivelmente frágil. Ela queria, para variar, ser salva em vez de ter que se salvar sozinha. Então eu caminhei cuidadosamente com Alésia aninhada em meus braços até sair da arena e flutuei na direção de Demetre.

— Você mexeu com coisas das quais não pode mais fugir, meu amigo — a minha voz saiu suave. Mas nada além de ameaça e intenção assassina estava nela. — Você sabia que ela estava viva e ainda a colocou nisso… não espere que vai conseguir escapar.

— He! — Demetre caçoou. Era óbvio que ele não me colocava em seus olhos — Eu não sei como você entrou aqui, mas você está se metendo com gente grande garoto. Quem você pensa que é para vir até aqui sozinho? Você não acha… — ele disse apontando o dedo na minha cara.

Imagino que ele nem percebeu o que o atingiu. Com um mero abano da minha mão eu lancei uma pequena onda de impacto que dilacerou a carne e os ossos de metade da mão dele, fazendo seu sangue imundo jorrar.

— Um verme como você não é digno sequer de me dirigir a palavra. Você provocou a minha fúria e ainda se atreve a apontar o dedo pra mim?

Demetre gritava de dor enquanto segurava o toco de mão onde agora só tinha dois dedos.

— G-g-guardas… GUARDAS!!! — Demetre gritou desesperado ao cair pra trás choramingando na própria poça de sangue, abraçando a mão dilacerada. Em um instante fomos cercados por algumas dezenas dos guardas do lugar.

Eu olhei ao redor apenas por tempo o suficiente pra perceber que nenhum deles dominava qualquer tipo de arte mágica. Todos eles eram apenas um monte de sacos ambulantes de ossos que ainda não entenderam que a morte estava na frente deles. O primeiro a chegar bateu diretamente contra a minha barreira e foi repelido com força contra uma parede que ficava no lado completamente oposto da arena, e caiu molemente no chão pra não voltar mais a se mexer.

— O próximo a se aproximar não vai ter um fim tão piedoso… — eu disse, voltando minha atenção para Demetre, — E você… eu simplesmente não consigo decidir qual seria a forma mais cruel de te esmagar…

— Uuuuu… não! N-n-não faça isso!!! Uuuu… — Demetre começou a rastejar para longe de mim enquanto choramingava. — P-p-poupe-me! Eu tenho como pagar por sua piedade!! Não.. não se aproxime…

Então, pra sorte dele, Alésia estremeceu em meu braço, enquanto eu me preparava para cortá-lo em dois. Ela não estava bem. Eu tinha que ir embora logo e tratá-la. Esse pedaço de lixo podia esperar. Mesmo que eu desse alguns dias de vantagem a ele, não havia lugar nesse universo em que ele pudesse se esconder de mim.

Eu não fiquei para esperar ele terminar de implorar. Eu desapareci da frente dele, e no mesmo segundo reapareci no centro operacional que controlava todos os sistemas daquela lua. Seria muito pior para aquele idiota se ele fosse preso, humilhado e perdesse tudo o que dava valor antes de qualquer outra coisa. Mesmo morrer não seria o suficiente para nenhum daqueles que vinham até aqui.

Os dois seguranças se assustaram ao me ver surgir do nada na frente deles.

— Saiam!  — ouvi minha voz rugir.

Os dois recuaram de costas para as paredes e saíram assustados. Esse tipo de gente nunca era do tipo preparada para lidar contra usuários de magia, e obviamente eles estavam me assistindo lidar com Demetre pelas câmeras. A melhor opção pra eles seria com certeza fugir. Mas eu tinha pouco tempo, Alésia se moveu em meus braços e olhou para onde eu tinha a trazido.

— Aguente mais um pouco, só preciso… — e eu retirei um bastão diferente do bolso e o conectei ao console central do sistema — … destruir tudo isso!

Eu havia preparado um vírus backdoor que me colocaria no controle da rede interna. Eu planejava simplesmente apagar todos os registros sobre Alésia e então divulgar todas as informações desse lugar na macronet. Assim que terminei, recolhi o bastão e desapareci de novo. Reapareci já dentro da minha própria nave que orbitava fora da orla do sistema de defesa daquele lugar. Eu coloquei delicadamente Alésia no banco e iniciei o curso da nave. Então, retirei um estojo de primeiros socorros. Alésia ainda me olhava como se eu fosse alguma coisa irreal. Ela não tinha falado nada. Eu pensei em tantas coisas que tinha vontade de dizer, mas não podia fazer isso. Eu me sentia tão nervoso, irritado e acima de tudo, frustrado.

— Acho melhor fechar esses ferimentos enquanto voltamos… — eu falei sem jeito — você deve estar com muita dor… me deixe… — ela continuou me encarando com insistência. Que será que estava passando na mente dela agora? Eu peguei meu bisturi a laser e cortei o pedaço da roupa de combate sobre o ombro atingido e, tomando o máximo de cuidado, descobri o ferimento.

Eu precisei de todo o autocontrole que eu possuía para manter meu rosto estável. Ela me observava de perto, então eu não queria que ela percebesse o quanto eu fiquei em agonia. Parecia não haver mais parte alguma nela que não estivesse coberta por cicatrizes ou hematomas. Eu senti minha mão tremer em fúria, e desejei ter força de vontade suficiente para me manter no curso e não voltar para aquele lugar e tirar a vida daqueles cretinos. Ajudá-la agora era a prioridade.

Respirei fundo algumas vezes, e peguei o bastão de reconstrução celular para fechar aquele corte profundo. Por enquanto eu não poderia fazer nada quanto à clavícula quebrada, mas parar a hemorragia era o mais importante. Eu não tinha anestesia de nenhum tipo aqui, mas ela não reclamou em nenhum momento. Sequer contorceu o rosto. Quando eu terminei e a cobri com o cobertor, eu virei para frente sem dizer nada. Alésia recostou-se na cadeira, e procurou pelos compartimentos da nave por algo…

— O que precisa? — Perguntei ansioso. Ela ainda não havia falado nada. Então ela achou um de meus livros, o abriu sem jeito em uma página qualquer, e ergueu a mão sobre ele. Depois de alguns segundos, ela me indicou que eu olhasse o papel.

Obrigada por vir.

Eu li as palavras que foram queimadas por mágica em um espaço vazio do papel. Eu senti meu coração partir… será que além de tudo, ela também não podia falar?

— Você não tem que me agradecer… a culpa é minha que você tenha caído nesse tipo de situação. Minhas ações acabaram fazendo você sofrer. Eu devia ter sido responsável por você, então o que eu fiz foi imperdoável…

Mesmo assim, obrigada — ela escreveu logo em seguida.

Eu pude ver os pequenos raios ainda saindo da sua mão e queimando o papel para escrever. Eu quebrei bem ali. Dor e lágrimas contorceram meu rosto. Eu me sentia terrivelmente angustiado com o que tinha acontecido, como se a dor que Alésia sofreu durante todo o tempo que esteve sozinha, estivesse inteiramente em mim agora.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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