DCC – Capítulo 40 – 3Lobos

DCC – Capítulo 40

A chegada do Calor – parte 1

 

Eu saltei para a arena assim que o alçapão abriu. Do alto ouvi um locutor anunciar os combates da noite:

― Aqui está ela! A protagonista de nossos ringues. O único exemplar invicto de renascido mesmo com mais de trezentas batalhas. A primeira e única a Princesa Degoladora, a nossa Ruuuuuuuuuiva de Sangue! — assim que ele gritou meu nome de batalha a plateia urrou em euforia. Tinham me dado esse nome por causa dos momentos em que meus cabelos soltavam e empapavam com o sangue das cabeças dos renascidos que eu esmagava. — E hoje é a noite dos forasteiros, então teremos um desafio inédito nunca antes visto nessa arena!! — o locutor estava incrivelmente animado essa noite. Então eu busquei rapidamente me atualizar com a ajuda da Sabedoria sobre o que estava sendo planejado para esta noite. — O prêmio de hoje é imperdível! Três bilhões de créditos para quem derrubar a Ruiva!!

Eu detestava quando ele fazia essas introduções. Mas algo estava realmente diferente hoje. Nenhum renascido aguardava do lado de fora das escadarias. Foi quando a Sabedoria finalmente localizou a informação que eu estava precisando e eu fiquei abismada. Eu passei muito tempo desacordada. Muitos detalhes haviam mudado…

— E para a surpresa de hoje… Será uma batalha de vinte e sete contra um!!! — o grito do locutor ressoou. Eu senti pela primeira vez em tempos o medo da morte correr pela minha espinha. Eu já tinha batalhado antes contra cinco ou seis ao mesmo tempo. Mas isso era absurdo! Vinte e sete adversários? E todos eles viriam armados até os dentes com as melhores técnicas de combate que os apostadores puderam investir durante um bom tempo, depois de diversas frustrações da derrota, apenas para me derrubar.

— E agora os concorrentes! — O locutor continuou. Nesse instante vinte e sete cabeças foram brotando do chão, até que todos eles estavam completamente expostos.

Eu olhei enojada para alguns. Tinham sido completamente modificados ao ponto de deixarem de parecer que tinha sido corpos humanos. Havia pelo menos quatro deles que tinham sido aumentados artificialmente para ficarem fisicamente mais fortes, e outros que pareciam ser terrivelmente ágeis. As armas deles não estavam à vista, então eu não sabia quem estava armado e com o que.

Assim que todos estavam no campo, a batalha estava valendo. Demetre não gostava muito quando eu voava para longe, então ele tinha baixado uma barreira de contenção na arena para pouco menos de três metros de altura, pois ele achava que minha habilidade de voo deixava as partidas menos interessantes.

Afinal, as pessoas que vinham aqui vinham ver algo que não existia mais em boa parte da galáxia: carnificina. E eles podiam assistir esses espetáculos de lutas sangrentas com a vantagem de estarem seguros em suas poltronas nas arquibancadas. Armas modernas de nocaute imediato não tinham graça. Por que uma morte rápida quando a graça era ver o perdedor se contorcendo de dor antes de ser completamente quebrado?

Eu não estava conseguindo me concentrar completamente hoje. Que diabos seria essa sensação estranha? Eu podia sentir algo se aproximando rápido pela orla do sistema. Daí quando o renascido mais próximo disparou sua arma, um lança chamas, eu só pude saltar para trás. O alcance, porém, era impressionante. Eu continuei me afastando, mas logo atrás de mim já vinha outro adversário que vinha girando o corpo com uma alabarda afiadíssima.

Ponto de Impacto! — Eu pensei, enquanto me virei para encará-lo. Há muito tempo, eu descobri que dar nomes às magias era a forma mais eficiente de direcionar o poder de forma correta. Falar o nome, ou no meu caso, pensar… já que eu não tinha mais cordas vocais, era uma forma segura de executar corretamente a magia que eu estava idealizando.

O “Ponto de Impacto” era uma magia tipo escudo, que eu criei para desviar ataques rápidos. Precisava de um baixo nível de poder mental e podia ser lançado várias vezes seguidas. A desvantagem é que eu só poderia invocar um de cada vez. Então enquanto eu estivesse lidando com um adversário a frente, minhas costas estariam desprotegidas.

A minha vantagem era que, pelas minhas costas, apenas as chamas estavam vindo. Eu não era necessariamente imune ao fogo, mas desde que eu pudesse me preparar, também não era algo que eu tivesse que temer. O princípio da Relíquia da Criação era absorver energia para criar matéria. Calor era um tipo de energia. Então a Relíquia absorvia o calor, inclusive do meu próprio corpo — o que acabava me deixando com frio — me permitindo congelar coisas ao meu alcance. Em contrapartida, eu poderia criar átomos e elétrons — matéria que eu poderia usar para expelir essa energia acumulada.

Então, antes mesmo do fogo tocar minhas costas, eu direcionei a habilidade que batizei de “Buraco Negro” e meu corpo começou a sugar o calor do fogo que vinha das chamas. Ao mesmo tempo, eu joguei o corpo horizontalmente passando rente ao corte da alabarda, que estava sendo desviado pelo “Ponto de Impacto”. Uma faca já estava em minha mão, e a enfiei na cabeça do atacante no espaço entre a mandíbula e a orelha. Eu detestava esses que vinham com armas antiquadas. Seus donos provavelmente eram fãs de histórias de guerras. Mas o dono desse renascido era esperto. Apesar dele ter caído quase decapitado, a arma ainda fez outra investida.

Eu esquivei e agarrei a arma pelo cabo, e recuando com a investida até sugar completamente a energia. Outros três renascidos também já estavam em cima de mim, prestes a me atacar. Então eu girei o corpo e movi minha lança com a habilidade “Marionete”, que fazia com que os objetos bem próximos que eu já tivesse tocado se movessem sozinhos de acordo com minha vontade, sem que eu precisasse tocar neles. A lança começou a girar tão rápido no mesmo lugar que quase se tornou uma parede sólida de lâminas afiadas. Assim que os atacantes chegaram perto, foram rasgados pelos ventos cortantes e arremessados para longe.

Eu não tive nem um segundo de folga. Os outros já vinham muito próximos logo em seguida. Seria uma luta sem fim se eu não fosse com tudo. E eu iria me forçar muito se continuasse nesse ritmo. Só tinha derrotado quatro dos vinte e sete.

Eu ainda tinha nove facas no meu coldre. Então ativei “Marionete” de novo e fiz as nove facas voarem acima de mim. Levei meio segundo para mirar, e então atirei eficientemente atravessando os olhos de sete adversários. Dois deles conseguiram desviar.

Um minuto de luta. Restavam dezesseis adversários. Eu agarrei a lança e a atirei contra o renascido do lança chamas, que agora vinha com os punhos quase ao alcance de me pegar. A lança voou em direção à ele e cravou na cabeça. Quinze. A cabeça era o ponto fraco dos renascidos. Arrancá-la garantia que ele pelo menos não tornaria a se levantar naquele combate, mas danificar o cérebro de alguma forma garantiria que ele nunca mais se levantasse.

Quinze adversários e eu estava desarmada. Inferno… eu deveria ter aprendido a convocar objetos de longe. Pelo menos eu tinha baixando consideravelmente os números. Ocorre que lutas desarmadas demoravam muito para acabar. Também não adiantava tentar eletrocutá-los. Ninguém mais mandava renascidos sem roupa isolante para lutar comigo.

As opções agora consistiam em roubar as armas dos inimigos caídos ou congelar os adversários que faltavam. Mas tentar congelar também era ruim, já que o dano também caia sobre mim. Quando eu ativava “Buraco Negro” eu sugava a energia do ambiente até a temperatura se tornar estável, no caso de ataques com fogo. Mas para sugar ao ponto de congelar tanta coisa era outra história. Então eu só poderia usar isso como último recurso.

Um renascido correu atrás de mim e mandou um golpe com uma estrela da manhã em minha direção, e do outro lado vinha uma estocada com um sabre eletrificado. Eu saltei do alcance da estrela e ativei o “Ponto de Impacto para me defender da estocada. Mas eu não esperava que o renascido soltasse a estrela da haste por uma corrente, aumentando o alcance.

A esfera cheia de espinhos bateu pesadamente em meu ombro e ficou cravada ali. Eu recuei alguns passos pela força do impacto. A dor foi excruciante, mas continuei focada no sabre e assim que ele escorregou pelo Ponto de Impacto, esmurrei meu punho fechado contra o lado externo do cotovelo do adversário, roubando a arma do braço recém quebrado dele, e a virando impiedosamente contra sua nuca, assim que ele passou completamente por mim. A cabeça foi completamente arrancada fora do corpo do seu antigo dono. Essa era realmente uma arma perigosa.

Então, sem parar o movimento, arremessei o sabre contra o dono da estrela da manhã, arrancando seu braço fora. Ele caiu agonizando de dor, e eu aproveitei o momento para também lhe arrancar a cabeça. Restavam treze.

O dono dele deveria estar muito feliz na plateia, apesar de ter perdido a propriedade. Eles costumavam premiar quem acertasse um golpe em mim primeiro, e isso valia muito dinheiro. Eu não esperei para ver o sangue jorrando do meu adversário mutilado. Em um salto, pulei para fora do cerco que eles estavam fazendo. Mas nesse momento, uma boleadeira veio voando em minha direção e se prendeu em minhas pernas. Eu tropecei, mas antes de terminar de cair, transformei a queda em uma cambalhota e me coloquei ajoelhada virada de frente para os adversários que já estavam tornando a formar um cerco ao meu redor. Um deles arremessou uma bola maciça de metal onde a estrela da manhã havia sido cravada. A dor era causticante. Era uma kusarigama.

De onde diabos esses velhos doentes desenterravam essas armas? A esfera tinha uma corrente que ligava-se à outra ponta com uma foice, a qual ele já vinha recolhendo, pronto para arremessar. Mas do meu outro lado, uma clava já vinha zumbindo cada vez mais próxima.

Eu ativei “Ponto de impacto” novamente. Foi o suficiente para parar a clava e vê-la chocar-se estrondosamente com o vazio, mas nesse meio tempo, o lado da foice da kusarigama já havia sido arremessado e cravou-se profundamente no meu outro braço, onde eu segurava o sabre.

Era isso. Eu pude sentir o gosto da dor. Pude sentir o hálito do anjo da morte. Meus pés estavam presos e meus dois braços estavam inutilizados, mesmo que eu pudesse flutuar, eu não tinha como atacar de volta. Me restava agora explodir ou congelar todos ali. Demetre ficaria furioso, mas o que eu não poderia permitir era morrer daquela forma patética. Vinte adversários eram demais mesmo para mim. E por algum motivo eu não conseguia me concentrar corretamente. Hoje não era meu dia para batalhar.

Então eu fechei completamente meus sentimentos. Os raios começaram a sair contínuos, um após o outro e uma magia surgiu prendendo todos eles no chão pelos pés. Era a minha habilidade “Cadeia”. Alguns pareciam estar esperando por isso, mas não importava mais. Eles não iriam me derrotar. Quem tinha armas de arremesso as lançou nessa hora. Eu levantei os dedos novamente e todas as armas voaram para cima, inclusive as que eu havia jogado.

Uma massa disforme de lâminas e armas pesadas se formou sobre a cabeça deles e quando eu tornei a baixar os dedos, elas desceram, dançando e girando ao redor deles, empalando, cortando, desmembrando os que estavam abaixo delas. Eu olhei para o chão, cada vez mais encharcado de vermelho e comecei a gargalhar. Eles não vão conseguir me matar. Não hoje!

NÃO HOJE!

A dança das armas continuou até onde minhas forças permitiram. Não havia mais do que um pilha irreconhecível de carne dilacerada espalhada pelo chão. Então aquela sensação nostálgica me cercou de perto. Não era mais uma aproximação. Era uma presença.

Um movimento atrás de mim me puxou de volta para a realidade. Um dos renascidos tinha se esquivado o suficiente para que as armas o atingissem de forma não letal. Ele estava arrancando uma adaga que estava empalada no meio de suas costas. Como ele estava preso no chão pela “Cadeia”, ele estava se preparando para arremessar a adaga.

Era um esforço inútil dele. Mas assim que eu me preparei para me defender, um disparo de origem desconhecida foi feito, e ele parou. O corpo desabou com um furo de bala no meio da testa. Eu me virei para frente de novo, e vi outra pessoa lá.

Ele tinha os olhos prateados como todos os outros renascidos. Mas os dele não eram sem vida. Muito pelo contrário. Eles eram olhos perigosos e ferozes, quanto ele empunhava um objeto branco, que provavelmente era uma arma de projéteis, apontada para o renascido recém derrotado. Eu recuei. Talvez ele tivesse se escondido desde o começo. Eu não o vi quando subiu. Mesmo a Sabedoria não me disse que teria alguém como ele. Talvez ele estivesse esperando eu estar debilitada para atacar.

Mas ele voltou seu olhar pra mim, e aquela nostalgia despertou no fundo das minhas memórias escondidas. Era um calor familiar…

Calor?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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