DCC – Capítulo 39 – 3Lobos

DCC – Capítulo 39

O grande espetáculo

 

Demetre Laplantine:


Eu estava contabilizando os lucros da última temporada de apostas. Minha fortuna havia mais que dobrado desde a aquisição daquela mina de ouro capaz de usar magia, no começo do ano passado. Isso, apesar da coisa ter se tornado cada vez mais problemática de se controlar com o passar do tempo.

A Ruiva era um tipo único. Alguns de fora, inclusive, especulavam que ela estava viva e que ainda tinha alma, já que apenas assim poderia conseguir usar magia. Bom, até era verdade, mas isso não importava mais. O DNA dela não estava registrado em lugar nenhum, nem como viva, nem como morta, e ninguém tinha dado queixa do desaparecimento dela em lugar nenhum da galáxia, mesmo entre os mercenários do submundo. Considerando o alto investimento que fizeram para transformar o corpo dela, com materiais da mais alta qualidade e uma fonte de energia impressionante que nenhum dos meus engenheiros nunca viu em lugar nenhum, eu ainda esperei que o antigo proprietário dessa belezinha aparecesse para tentar causar dor de cabeça.

Há há! Que venha! Porém, ninguém nunca apareceu em lugar nenhum, e a menina só ficava cada vez mais forte. Tinha se tornado uma atração e tanto, para vários tipos diferentes de apostas. Havia quem apostasse se e quando ela seria derrotada, quem apostasse quando e como ela usaria magia, e a maior diversão de todas: quando ela enlouqueceria.

Haviam alguns momentos fantásticos nos espetáculos, em que ela simplesmente ficava fora de si, e começava uma luta sanguinária, frenética e desvairada até estar completamente coberta de sangue, o que deixava a plateia em êxtase, e principalmente por causa daquela expressão medonha que ela exibia sorrindo em meio a sua sede de sangue. Era de dar arrepios como uma menina tão pequena e bonitinha poderia se tornar tão assustadora.

Porém, com o tempo esses momentos fantásticos passaram a ser um pouco preocupantes também. Ela não se incomodava mais com a dor ou os ferimentos: ela simplesmente não parava até o adversário ser completamente derrotado, e depois disso, o problema era derrubá-la. Depois de um certo tempo, mesmo durante as partidas dela, acabamos precisando formar planos de pará-la com a ajuda de tranquilizantes, antes que o poder dela causasse prejuízos e danos além do esperado… ou ela tivesse a ideia de vir atrás de mim, he he.

E a diabinha acabou criando o péssimo costume de mirar apenas nas cabeças dos renascidos. O que acabava resultando em perda total. Avariar a cabeça do renascido danificava irreversivelmente qualquer um deles. Obviamente, era premeditado. Depois da nossa primeira conversa, a Ruiva foi colocada no mesmo galpão que os demais do mesmo lote que ela, e no dia seguinte, quando foram até eles… todos eles amanheceram decapitados… e com as cabeças esmagadas.

Desde então, ela vem sendo mantida isolada a maior parte do tempo, em uma sala anti-magia. Ela não podia ser controlada a não ser que fosse assim, e eu sabia que ela pretendia fugir assim que achasse uma brecha. Por conta disso, eu sempre dava a ela o que ela queria, na medida do possível, na intenção de deixá-la calminha, como doces por exemplo. Estímulos negativos, além de terem se provado ineficientes, só deixavam-na com mais raiva.

E hoje eu estava preparando a próxima luta dela. Esta noite seria a noite dos desafiantes. Todos aqueles que quisessem trazer concorrentes para ela, poderiam armá-los com qualquer arma, desde que não fosse de tiro letal, e colocá-los na arena. Alésia mantinha o título de invicta desde o dia que havia chegado.

Então fui até o galpão onde eu a deixava guardada. Era um forte novíssimo cercado por campos de contenção poderosíssimos, e a câmara tinha controle de gás. Quando os dardos tranquilizantes não funcionaram mais, bastava remover o oxigênio da câmara até ela ficar inconsciente.

Ela estava sentada no chão, se tremendo em um canto, enquanto abraçava os joelhos… parecia até indefesa. Ela sempre tinha a temperatura baixa, independentemente do que fizessem, então ela sempre passava frio, isso quando não deixava os outros congelados. Por causa disso, eu sempre mantinha a temperatura daqui bem alta… porque parecia que o corpo dela sugava o calor ao redor.

Dei umas batidinhas na parede de vidro para chamar a atenção dela, ela apenas moveu ligeiramente a cabeça, então ela estava ouvindo.

— Hoje teremos um grande espetáculo. Pelo menos quinze concorrentes já se cadastraram! Quer escolher alguma arma para usar hoje? — perguntei tentando parecer simpático. Minha testa já estava cheia de gotas de suor… me aproximar dela sempre me dava calafrios.

Ela abriu os olhos lentamente e virou o rostinho de menina para o teto. Inspirou profundamente e sorriu. Num painel dentro da cela, letras começaram a brotar escrevendo a resposta dela por magia.

Espero que esteja preparado… hoje teremos algo novo — eu li a mensagem que apareceu no painel e logo em seguida a vi desaparecer. Eu ri. Mas a mensagem me deixou nervoso. Ela nunca havia dito nada desse tipo antes, mas não deixei ela me abalar.

— Há! Engraçadinha… Se não se comportar, não vai ganhar os doces de prêmio por cada vitória!

Então ela me ignorou, voltou a abaixar a cabeça e fechar os olhos. Mas ainda tinha o rosto sorridente. Aquela mensagem fez uma sensação estranha crescer no meu interior… ela sempre me ameaçava, mas hoje ela parecia mais confiante. Talvez finalmente ela tivesse perdido o juízo de vez.

De qualquer forma, ela precisava ser preparada.

 

 

Alésia Latrell:


Meus pensamentos estavam enevoados de novo. Eu já havia perdido as esperanças há tanto tempo. Talvez eu finalmente tivesse enlouquecido de vez e só o que me restava agora era o desejo de sobreviver não importava o que. Uma dor persistente no âmago do meu corpo me lembrava sempre que eu tinha uma obrigação a cumprir… eu não poderia me dar ao luxo de desistir…

As partidas de hoje seriam difíceis, pelo que Demetre havia anunciado. Pelo que eu havia descoberto através da Relíquia da Sabedoria. Eu sabia de todas as movimentações, todos os planos de todos os renascidos e todas os planos que fizeram para hoje, mesmo sem precisar que ele viesse me dizer. Mas quinze concorrentes… seria bem drástico. E talvez ainda chegassem mais. Isso porque as cicatrizes da última batalha ainda ardiam um pouco.

Depois de um tempo, me levantei e olhei para os meus braços completamente marcados. O restante do meu corpo não estava muito melhor, mas não adiantava reclamar. Eles não tinham aqui bons bastões de reconstrução celular, para fechar ferimentos externos, como aquele cara tinha.

Eu nunca tinha realmente concordado em participar das lutas. Eu imaginava que Demetre sabia que eu ainda estava viva e ainda tinha alma, mas se eu não colaborasse o mínimo, eles simplesmente me jogariam inconsciente na arena para despertar cercada de adversários sem me dar a chance de me preparar. Como, aliás, já fizeram algumas vezes. Mas eles não podiam me impedir de destruir o máximo de renascidos que eu conseguisse pôr as mãos. Eu destruiria todos com quem lutasse. Destruiria tudo desses porcos imundos.

Só de pensar nos renascidos que eu teria que enfrentar mais tarde já fiquei irritada. Se eu apenas fosse um pouco mais forte pra fugir daqui sozinha… Mas mesmo que eu chegasse a roubar uma nave, eu não sabia pilotar.

Era o cúmulo da imoralidade essa indústria de combates. Eu me irritava que isso ocorria bem debaixo do nariz das autoridades. Eu me irritava que isso ocorria justamente por causa de líderes corruptos que escolheram fechar os olhos, ou até mesmo fazer parte disso.

Mas não era isso que estava realmente em meus pensamentos agora. Algo se aproximava rápido. Algo nostálgico. Eu havia me esquecido de toda a minha vida antes de fazer parte da arena do Resort. Ou melhor, eu havia trancado intencionalmente minhas memórias nas profundezas da minha alma com ajuda da magia que eu vinha aprendendo com a Sabedoria.

Essa era uma magia bem intrigante, como um oposto à Onisciência. E afinal, eram apenas um punhado de lembranças que se tornava um fardo doloroso e inútil aqui. Mas essa sensação estranha que se aproximava de longe… algo que não era… frio.

Eu vesti minha roupa de batalha e prendi meus longos cabelos que já desciam abaixo dos quadris em um coque, e anotei no painel as armas que eu queria usar hoje. Já que seriam pelo menos quinze adversários com armas potencialmente letais, era bom escolher uma que me permitisse lutar a média e longa distância. Uma lança de duas pontas e uma coleção de facas de arremesso. De resto, eu poderia recorrer à magia se fosse necessário… Eu estava finalmente aprendendo a dominar a gravidade. Hoje talvez, pela quantidade de adversários, seria uma boa ocasião para testar.

Pouco depois, eles removeram o oxigênio da sala, para que pudessem se aproximar de mim, e me sedaram com tranquilizantes, para assim poderem me levar para a arena. Ninguém podia tocar em mim sem estar com isolamento elétrico e térmico, o que pelo menos me garantia que não iriam me violar enquanto eu estivesse inconsciente. Isso era de praxe, após eu ter tentado arrancar alguns membros dos treinadores em minhas primeiras tentativas de fuga ao ser transportada. Então decidiram colocar isso como parte do show. Eu era colocada no centro do local de batalha em um alçapão por onde costumavam sair autômatos nas pistas.

Eu despertei pouco antes da hora de entrar e tentei aprumar o corpo. Procurei nas costas pelo coldre da lança e apalpei a roupa atrás das facas de arremesso. Mas tinha alguma coisa na atmosfera realmente me distraindo. Era uma sensação nostálgica. Tão perto agora que eu já quase podia discernir. O que era isso?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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