DCC – Capítulo 38 – 3Lobos

DCC – Capítulo 38

Os olhos de Deus

Henry Siever:


 

— Como assim não está com você? — Cásira arregalou os olhos para mim.

Eu senti o impacto do significado da pergunta de Cásira. Depois que eu fugi do palácio, senti a presença de Alésia correndo em minha direção, e mesmo assim eu não parei para esperá-la. A conclusão mais óbvia era que ela deveria ter voltado ao palácio.

Eu simplesmente saí do planeta logo após aquilo. Já era o fim do quinto mês… do ano seguinte… então, eu havia passado quase um ano e meio fora. Eu tinha voltado para fazer o balanço de energia entre as relíquias, com a ideia de voltar a me exilar de novo logo em seguida. Porém, isso mudava tudo. Eu levantei do sofá onde estava recebendo Cásira como visita e corri para a nave, ignorando completamente os chamados dela. Precisava confirmar isso. Precisava resolver isso. A viagem em direção ao palácio acabou sendo feita em menos da metade do tempo normal, e eu quase invadi pelas escadarias, deixando os guardas alvoroçados.

Eu corri pelo palácio sem saber o que estava procurando, eu já podia sentir que ela não estava ali, até que enfim dei de cara com um dos autômatos bio sensoriais de Marco. Marco ainda abriu a boca para perguntar o que se passava, mas os seus poderes lhe informaram antes de qualquer coisa.

— Como você deixou isso acontecer? — Marco avançou na minha direção e me agarrou pela camisa, me acusando.

Eu não soube o que responder. Sequer tive cara pra revidar a investida de Marco.

— Você fugiu! Você, acima de qualquer um, sabe que o dia mais frágil do Império é o primeiro dia do ano, que é quando eu estou cansado demais para ver qualquer coisa! Eu pensei que ela tivesse ido com você! Todos pensamos!!! — Marco ralhou furioso — Você a perdeu… e ela é uma Brard, caramba!! O tempo que já passou é muito longo para pessoas da mesma raça que ela!

— Ela… ela está bem… tem que estar! — Eu encarei o chão, desorientado. — Eu posso sentir que ela está viva em algum lugar… se ela tivesse morrido eu teria sentido…

— Não adianta usar isso como desculpa! — Marco se afastou, logo em seguida o autômato desligou.

Eu suspirei nervoso. O que foi que eu fiz?? Tinha havido pessoas que tentaram me capturar a todo custo em várias ocasiões, e tantas outras vezes que fizeram mal para Nádia quando estava viva… Será que Alésia estaria sofrendo o mesmo destino nas mãos desses mesmos inimigos?

Poucos segundos depois o alarme silencioso do castelo foi ativado. Eu ouvi a movimentação dos guardas por todos os lados, correndo para assumir seus postos. Marco iria fazer alguma coisa pessoalmente. Se alguém pudesse descobrir a localização dela se ela ainda estivesse nessa galáxia, esse alguém era Marco.

Porém, isso era um esforço insano. Marco tinha autômatos alocados estrategicamente em todos os quadrantes do império. Soando o alarme, os guardas recuaram dos terrenos do palácio para proteger apenas a sede, pois ele precisaria desencantar os escudos mágicos, que sustentava com a própria magia, para se poupar.

Uma vez dentro de cada autômato ele poderia transmitir seu poder para cada quadrante e vasculhar uma a uma todas as mentes de todas as pessoas do império, até localizar a de Alésia, ou de alguém que soubesse de seu paradeiro. Era um poder que exigia tanto esforço físico, mágico e mental, que mesmo vários Imperadores antecessores a Marco não haviam sido capazes de usar: a técnica conhecida como “olhos de Deus”. Seguindo o caminho que eu conhecia, fui até os aposentos imperiais, onde o Marco verdadeiro estava.

Os guardas estavam alvoroçados, sem saber o que de tão grave havia acontecido a ponto de Marco precisar utilizar os pontos dos quadrantes, coisa que aconteceu pela última vez nos tempos de guerra. O sentinela da entrada dos aposentos parecia ter sido avisado da minha chegada. Assim que me viu, abriu a posta para me permitir entrar e depois a trancou.

Eu atravessei o apartamento luxuoso até alcançar a cama, onde o corpo verdadeiro de Marco estava deitado, brilhando suavemente, com os olhos arregalados vasculhando o vazio. De certa forma, era uma visão assustadora. Marco estava em transe intenso.

Eu me sentei ansioso ao lado dele. Não sabia de quem estava sentindo mais raiva neste momento, se dele ou de mim. Marco seria sempre maníaco por cumprir o que ele tivesse como responsabilidade dele, então ele se forçaria ao extremo até localizar Alésia, pois ele realmente se sentia responsável pela proteção das Relíquias e seus guardiões.

Mesmo que se considerasse todo o poder assombroso que o Imperador era obrigado a desenvolver, o máximo que era possível fazer normalmente era apenas sentir as intenções das pessoas que estavam à distância. Sentir os pensamentos e ver as memórias era muito mais complexo e ele estaria fazendo isso com todas as pessoas do império inteiro.

Não demorou muito para aparecer o primeiro sintoma do esforço absurdo quando lágrimas de sangue começaram a escorrer pelo olho esquerdo dele. Eu comecei a ficar angustiado. Estar na presença de Marco sempre me confundia completamente. Durante tanto tempo ele havia sido o melhor amigo que se poderia ter, mas tudo acabou no momento em que ele assumiu a coroa.

Marco e eu nos conhecemos na academia, e nos tornamos amigos quase instantaneamente. Fazíamos de tudo juntos. Ele cursava Medicina, e eu fazia o curso de Artes Mágicas. Apesar do meu talento, eu confessadamente nunca tinha tido interesse em seguir qualquer carreira que usasse magia. Inclusive seguir os negócios da minha família. Então simplesmente trocamos nossas vagas. Marco imediatamente se destacou na magia. Parecia inato para ele, como a medicina era para mim.

Marco tinha alguns segredos, mas eu nunca o pressionei para que me contasse. Se eu precisasse saber, ele me contaria. E um dia ele me apresentou para Erin Castro. Erin era um rapaz calmo, e nunca falava muito sobre si mesmo. Erin estava em luto por causa da morte de um amigo com quem esteve junto durante toda a vida.

Erin teve uma boa impressão de mim então decidiram me incluir nesses tais segredos. Erin era o guardião da Criação em luto por Aaron Lamont, antigo guardião da Transformação. Aaron havia ficado muito doente, e eventualmente se cansou. Depois de vários milênios partiu dessa vida. Erin, quis segui-lo logo depois, mas precisava deixar as relíquias nas mãos de novos guardiões.

A pessoa escolhida para substituir Aaron havia sido Cásira, e Marco me convidou para assistir a entrega. Era conhecimento geral que as relíquias se atrelavam à alma mais próxima. Então eu acompanhei o grupo que guardava o segredo para formar uma barreira de proteção que iria impedir que qualquer coisa estranha atrapalhasse a passagem.

Erin e Cásira ficaram no meio de um espaço separado várias dezenas de metros de qualquer outro ser vivo. Porém, quando Erin abriu o relicário… aquela coisa veio voando em minha direção e sem mais nem menos se fundiu a mim. Foi um choque para todos, principalmente para Marco. Ele ficou do meu lado o tempo todo. Cuidou de mim, e inclusive foi ele quem fez a cirurgia para reparar meu corpo e trocar meus olhos quando toda minha pele queimou nas primeiras explosões e eu fiquei cego.

Foi na mesma época que Gabriel Gionardi, o imperador anterior, escolheu Marco como seu herdeiro, e Marco foi levado ao palácio para treinar.

Marco nunca tinha mudado comigo, e mesmo quando Erin partiu, as coisas entre nós foram sempre boas. Tudo mudou quando novamente fui transportar a Relíquia da Criação para entregar a Cásira, quando um imprevisto no meio do caminho aconteceu. A Criação simplesmente “fugiu” de mim e voou até se ligar com uma garota Brard que estava no caminho.

Naquele tempo, eu já era um excelente médico. Com a ajuda da Sabedoria, eu pude crescer mais do que qualquer um. Então eu cuidei de Nádia para que ela sobrevivesse… sendo uma Brard, a rejeição do corpo dela estava sendo muito maior. Marco constantemente vinha me pedir para deixar que a levasse, para que ele cuidasse de tudo. Começou a insistir cada vez mais. Eu achei estranho, mas não levei ao coração.

Então ele foi posto em reclusão pelo Imperador anterior, e só foi permitido sair para a posse. Marco então voltou a perseguir minha proximidade com Nádia, ao ponto de sequestrá-la. Ele não explicou nada, ele não disse nada e não me deixou sequer me despedir. Talvez tivesse encontrado alguma coisa para chantageá-la, e obrigá-la a casar-se com ele, e no fim ela acabou morrendo. Marco nunca havia mostrado nem mesmo uma única pontada de arrependimento. Nunca havia dado uma desculpa sequer. De todas as pessoas, ao menos uma palavra eu queria.

E agora ele se colocava em uma situação tão perigosa para ajudar a consertar os erros que eu tinha cometido. Depois de duas horas sem pausa, o sangramento aumentou e começou a escorrer forte pelas duas narinas e orelhas, além dos olhos. Marco agora estava com a respiração arrastada. As artérias latejavam visivelmente sob a pele onde os músculos contraídos com tanta força faziam os membros dele tremerem levemente.

Quando a quarta hora seguida nesse ritmo se completou, o corpo de Marco relaxou, ele fechou os olhos e inspirou profundamente. Ficou um tempo assim, como se estivesse dormindo, até que finalmente tateou ao redor até tocar na cabeceira e puxar um lenço para secar as narinas que ainda sangravam. Ele colocou a outra mão sobre a testa, e a massageou levemente.

— Ela está em uma lua… fora… — Marco parecia estar fazendo muito esforço para expressar essas poucas palavras — … fora do… império.

Então ele não falou mais.

Havia desmaiado.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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