DCC – Capítulo 37 – 3Lobos

DCC – Capítulo 37

Ruiva de Sangue

 

Demetre Laplantine:


 

Absolutamente fantástico… Eu sussurrei sentindo o deleite do espetáculo que tinha acabado de ver. Nenhum renascido novato nunca tinha chegado a linha de tiro dos canhões. Mas que se dane sobre o recorde… ela estava flutuando! Fize! eu chamei.

Fize, meu braço direito e chefe da segurança se aproximou e aguardou por minhas instruções.

― Tem certeza de que mandaram ela para a arena desarmada? — perguntei, me dando conta que estava em pé, ao relaxar e me sentar de novo.

― Sim senhor. Ela não entrou com nada que pudesse causar tais efeitos. ― Fize respondeu. Ele parecia estar tão impressionado com os resultados quanto eu e todos os outros.

O murmúrio da plateia estava enorme. Muitas pessoas exclamavam coisas diferentes. Eu conseguia pegar uma frase ou outra destacada da multidão.

― Isso é trapaça!

― Ela está viva?

― Isso foi muito absurdo! Nunca antes…

― Eu acho que foi magia…?

― Como um renascido conseguiu usar magia?

― Ela com certeza estava usando algum aparelho…

― Eu ouvi dizer que ela foi feita com a melhor…

Até eu, que era o proprietário e sabia que ela era diferente, me senti tapeado. Seja lá quem foi que fez uma preciosidade dessas, era um gênio entre os gênios. E um louco entre os loucos. Mas essa preciosidade agora me pertencia. Foda-se se ela fosse um ser vivo. Mesmo que fosse, ela “não existia”.

― HAHAHAHAHAHA! Muito bem! Limpem-na e tragam-na a mim! — Eu ordenei, me retirando para minha torre particular.

Que sorte maravilhosa. Usar humanos como escravos era muito difícil hoje em dia. Simplesmente roubar alguns de seus planetas de origem era arriscado demais. Eventualmente chamaria atenção, e bastava que um Inquisidor buscasse por um desaparecido, para perceber a falta dos demais. Cativeiros desse tipo normalmente duravam pouco e rendiam menos.

Então a esperança para esses negócios estavam em cima dos renascidos. Por serem inicialmente ilegais, os proprietários nunca registrariam um desaparecimento. E minha propriedade ficava estrategicamente fora dos limites do Império humano, o que dificultaria imensamente potenciais buscas.

Saciar o desejo que muitos tinham de assistir pessoalmente essas batalhas sangrentas entre seres vivos  era um excelente negócio, e agora eu tinha a opção de usar uma belezinha daquelas, que além de ter sido capaz de ganhar a primeira luta, ganhou com brutalidade, e um quê de magia. Isso me renderia uma fortuna imensa.

Principalmente porque ela fez uma coisa tão simples como a pista render um espetáculo tão surpreendente. Ninguém espera que um renascido enviado para lá fosse capaz de revidar ou contra-atacar. Eles são enviados no geral apenas para servirem de sacos de pancada e serem avaliados quanto à sua versatilidade em combate.

Ah, eu poderia dar pulinhos. Já podia idealizar os planos: desafios de quem seria o último a cair, ou corridas de obstáculos… as possibilidades eram imensas! E se ela pudesse repetir esse feito de hoje, então ela nunca perderia! Apareceriam cada vez mais desafiantes atrás do grande prêmio.

Levou dois dias para meus mecânicos repararem o corpo da menina. Fize a escoltou até meus aposentos e a apresentou para mim.

― Patrão, aqui está a ferinha! — Fize apontou para a menina que estava com os pulsos algemados e usando uma roupinha casual.

― Muito obrigado Fize! — então ele se retirou.

A menina estava consciente, e me olhou com a expressão vazia. Depois começou a olhar ao redor como se estivesse… investigando. Aquela expressão dela, de quem não tinha medo… me deixou levemente nervoso.

― Sente-se! — Eu apontei para uma poltrona sem vacilar.

Ela voltou a me olhar, e depois passou com desprezo por mim até se sentar. Me senti como se eu estivesse sendo ousado demais em sequer lhe dirigir a palavra. Aquela expressão impertinente me dava nos nervos.

― Então você é uma artista mágica… — eu disse lentamente, me aproximando da poltrona e me sentando em frente à ela. — E pensar que eu até achei que você fosse uma Brard, mas enfim… você tem um nome, gracinha? — Entreguei a ela uma tela, por onde ela poderia escrever as respostas que eu queria saber.

Ela recebeu a tela. Porém não escreveu o nome. Em poucos segundos, a frase dela apareceu:

― Você deve me libertar…

— He! E o que te faz pensar que eu devo fazer isso? — Então ela, sem desviar os olhos de mim, fez a caneta se mover por mágica sobre a tela, até as palavras estarem formadas:

— Por que você vai se arrepender se não o fizer.

Quando a caneta tocou na tela para marcar o ponto final, foi com tanta força que atravessou o material, lançando cacos estilhaçados sobre a mesinha em frente.

― É, isso com certeza me deixou arrepiado. — Eu ri, levantando uma sobrancelha. Apesar de ter sido um gesto tolo, ela me deixou desconfortável. Ela uma preciosidade. Eu iria defendê-la como minha propriedade enquanto ela pudesse me dar lucro. Mas aquele ato foi uma forma infantil de me dizer que ela poderia me matar se quisesse. Mas se ela não fez de primeira… não o faria depois, eu sabia sobre os princípios dos artistas mágicos.

Então ela se levantou e começou a se retirar da sala.

― Ei, eu não lembro de ter dito que nossa conversa acabou! — Eu me apressei e me coloquei na frente dela.

Os cabelos longos dela estavam soltos e uma mecha desceu cobrindo o rosto dela. Aquela aparência indefesa dela realmente enganava. Tanto, que eu toquei no cabelo.

Pra que?

Foi apenas um toque de leve, e um choque terrível me derrubou no chão e me deixou caído aos pés dela. Me senti mais fraco e vulnerável do que já havia me sentido em toda a vida. E então o frio.

Um frio severo desceu sobre mim tão de repente que eu pude sentir o choque térmico. Meu hálito se tornou visível na frente do meu rosto, e ela ajoelhou-se na minha frente, até estar olho a olho comigo. Os cabelos dela esvoaçaram com uma estática visível e subiam cada vez mais ameaçadoramente.

A garota apontou o dedo para a mesa, e a caneta saiu de dentro da tela quebrada e voou até o teto, onde começou a cravar as palavras, fazendo um som estridente de arranhado. Em pouco tempo, com letras enormes, uma pequena frase havia sido escrita:

― Se tocar em mim de novo, você morre!

Então a caneta voltou-se em minha direção, veloz, e cravou no chão. No chão! Exatamente entre os dedos da mão que eu usava para me apoiar! Ou a mira dela era muito boa, ou era muito ruim.

Foi quando Fize, do outro lado da sala, atirou um dardo tranquilizante na garota. Ela não havia percebido a aproximação dele.

Aquele era um anestésico muito poderoso, mas Fize continuou apontando a arma para o caso de ser necessário mais um disparo.

Ela virou a cabeça na direção dele e arrancou o dardo da cintura, onde tinha sido atingida. A expressão dela não era de surpresa. Parecia que ela imaginava que algo assim iria acontecer. De qualquer forma, em poucos segundos, ela amoleceu e tombou para o lado. Fize se apressou em chamar uma equipe de contenção, e correu para o meu lado.

― O senhor está bem, patrão? — ele perguntou ansioso.

Eu tremia violentamente ainda. O frio ainda não tinha se dissipado, e meu corpo ainda espasmava por conta do choque.

― Nah, baboseira se estou bem ou não! Ela é autêntica… — eu disse me levantando de mau jeito. — Mas se ela não me matou agora, ela não fará de qualquer forma, nem que um dia passe a querer… eu que não vou ser burro de dar a ela a oportunidade.

― Ela… tentou te matar? — Fize perguntou chocado — Mesmo com as mãos atadas?

― Ela não precisa de mãos seu estúpido! Ela é uma artista mágica… Enfim, Brard ou Jomon, ela ainda é uma criança. Tentou me intimidar com pouco e ainda expôs parte dos poderes dela. Será suficiente para montar um plano de contenção eficiente para evitar problemas futuros. — Comecei a explicar. — A vantagem de lidar com esses artistas mágicos, é que eles não podem ferir a moralidade deles. E ela deve ser do tipo que não mataria uma pessoa.

― Então o senhor já tem alguma ordem para despachar junto com ela? — Fize perguntou curioso. Parecia um pouco receoso de chegar mais perto da menina desacordada.

― Claro que sim… — eu disse, sentindo a empolgação subir, junto com a temperatura — Mande preparar os torneios. O mais cedo possível, que ela comece nas arenas, melhor!

― E que nome devemos colocar para ela? Ela chegou a informar? — Fize perguntou, se animando também.

Eu olhei para a menina caída do chão. O corpo dela era mesmo bem forte. Ela ainda estava de olhos abertos contemplando o vazio, mas as pálpebras já estavam pesando, e a cortina de cabelos castanhos ainda subia cheia de estática ao redor dela. Então me lembrei da luta na pista, quando ela encarou de primeira um renascido e venceu. Ah, aquela cena… uma garotinha completamente assanhada com os cabelos escarlates de tanto sangue…

― Anuncie ela como… Ruiva de Sangue.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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