DCC – Capítulo 36 – 3Lobos

DCC – Capítulo 36

Dia de dor

 

Eu ainda estava respirando com dificuldade, mas forcei a minha mente a se esvaziar e consegui aprumar o corpo a tempo de me defender do primeiro golpe do renascido. Ele vinha decidido com um soco cruzado de direita, e chocou o punho no meu pulso machucado. Eu não tive nem tempo de contra-atacar.

Ele já tinha girado nos próprios pés, e lançado uma poderosa joelhada que me acertou na boca do estômago. Eu me curvei de dor. O pouco ar que tinha conseguido recuperar fugiu dos meus pulmões, o que fez com que minha concentração oscilasse.

Eu percebi tarde demais que tinha sido um erro expor minha nuca ao inimigo. Ele juntou as mãos e desceu os pulsos entrelaçados com força nas minhas costas, e eu desabei no chão de bruços, deixando um grito mudo escapar de minha garganta sem voz e sem ar. Meus olhos turvaram em lágrimas, mas mesmo já estando no chão, ele não havia terminado, Começou a chutar minha lateral com força, vez por vez, até virar o meu corpo para cima. Eu estava completamente envergada. Só queria que isso acabasse logo. Pelo menos imaginava que não poderia ser pior do que os autômatos que haviam quebrado colunas como se fossem palitos de dentes.

O renascido, porém, estava se esforçando para tirar de mim essa ideia. Ele agarrou minha perna e meu braço esquerdo, içou meu corpo até acima dos ombros e, com um giro, me arremessou de volta ao chão e então também se jogou sobre mim com o cotovelo estrategicamente posicionado para o impacto.

Eu senti ânsias violentas, tossi e arquejei. Ouvia um zumbido forte de todo o meu corpo, que ainda vibrava com a queda. Então ele levantou-se e foi até a vara que eu havia usado. Eu quase não conseguia mover meu corpo livremente de dor agora. Ele iria me matar com certeza. Danos infligidos aos renascidos não eram um problema desde que não fossem na cabeça, então não importa quantas vezes eles fossem danificados, desde que ainda tivesse chance de reparo, poderiam morrer de novo e de novo indefinidamente.

Merda. Daril vai ficar muito chateado com Henry. E Marco, aquele idiota vai rir dos meus restos no dia que me encontrarem. Será que ele vai achar que foi um fim merecido para quem desafiava o imperador? Afinal, por que eu iria querer sobreviver tanto assim?

Enquanto o renascido se reaproximava, eu lembrei da discussão que havia tido no palácio. Tanto Marco quanto Henry haviam ficado furiosos comigo. Eu havia sido manipulada o tempo todo por todos e mesmo assim ainda era a vilã naquele cenário. Estava recebendo o castigo por ter ferido os sentimentos de Henry… justo ele quem estava sendo meu único amigo, e também por ter desafiado a autoridade do grande Imperador.

Por que me esforçar tanto para viver? O que de bom vai me esperar mesmo que eu saia daqui? Eu comecei a repetir essas perguntas várias e várias vezes enquanto o renascido parecia se aproximar em câmera lenta, passo por passo. Por que sobreviver se só haveria dor de agora em diante… dor e mais nada?

Ouvi dentro da minha memória o sorriso provocador de Henry me chamando de patética, e depois imaginei o olhar profundo de Marco sendo maldoso como sempre, rindo do meu fracasso.

O renascido parou ao meu lado, levantou a vara sobre a cabeça e preparou-se para o golpe. Alguns desses certamente me matariam. Então não importaria mais se eu sentiria dor ou não. A minha alma não estaria mais nesse corpo para senti-la.

Eu imagino que devia ser essa a sensação que a loucura dá quando o anjo da morte começa a flertar conosco. Eu comecei a rir e ao mesmo tempo arquejar de dor sentindo a insanidade daquele momento. Tinha passado os últimos tempos com minha família sendo rechaçada e chamada de louca. Tinha perdido o meu único amigo que tinha conseguido fazer porque ele também era um louco. Amor? Que piada.

Que amor tinha a ver com esse dia de dor? O que eu queria desde o começo era poder fazer a minhas próprias escolhas, e aqui estava eu, deixando um cadáver ambulante decidir por mim se vivia ou se morria. As coisas não teriam dado tão errado se as pessoas não decidissem minha vida por mim. Olhei de novo para o renascido, e ele agora descia velozmente a vara contra mim. Mas em vez de enxergar o capacete lustroso que protegia a cabeça dele, vi o rosto de Marco contorcido em escárnio, e senti aquele incômodo pesado dentro de mim me perturbando.

― Que se dane o imperador… eu não vou deixar que decida minha vida por mim! — minha boca se moveu deixando as palavras mudas saírem.

A vara chocou-se ferozmente ao ponto de envergar. Mas não contra mim. Uma pequena barreira foi conjurada no lugar certo, e assim que fez contato, eu levantei o braço e agarrei a ponta da vara. Uma corrente de raios saiu de meus dedos, com alívio e intensidade. Não era a técnica de gelo que tinha usado contra os primeiros autômatos. Era eletricidade pura e feroz. O metal a conduziu com eficiência até o renascido que convulsionou descontroladamente por um segundo antes de ser arremessado para longe, fumegando. A dor era enlouquecedora, mas eu me lembrei da tortura que tinha sofrido no palácio no dia que tinha sido obrigada a entrar nesse novo mundo. Aquilo ainda não era nada. Eu tinha certeza que um dia seria muito pior. Mais dor viria, desde que eu continuasse viva.

Que se dane se eu vou morrer hoje ou daqui a cem ou mil anos. Não importa essa merda. Apenas um sentimento preenchia a minha cabeça. Raiva. Eu queria o sangue daquele infeliz! A magia corria por minhas veias e eu podia sentir, podia usá-la. A Sabedoria para fazer isso estava literalmente comigo, sussurrando técnicas e encantos que eu nunca havia sonhado que sequer existissem.

Então eu fiz meu próprio corpo flutuar, e me recoloquei de pé. Assim que me equilibrei, senti as pontadas de cada golpe que tinha recebido. Cada chute, cada cotovelada, cada joelhada. Eu estava mais consciente de cada célula do meu próprio corpo e da dor que sentia agora do que jamais pude desejar estar. Eu estava mais consciente de que estava viva agora do que jamais estive.

E isso também não importava mais. Passo a passo, caminhei vacilante na direção do renascido arremessado, que ainda convulsionava um pouco por causa da eletricidade, ao mesmo tempo que ele também se levantava tremendo. A raiva enevoou meus olhos e o poder esvaia-se sem limites pelas pontas dos meus dedos. O adversário recolocou-se em posição de combate, mas não era necessário. Eu ergui a mão na direção dele e agarrei o vazio. O renascido magicamente foi erguido pelo menos dois palmos do chão, braços e pernas abertas visivelmente contorcendo-se na tentativa de se livrar. No mesmo segundo, eu voei ao encontro dele, e cruzei minhas pernas em seu busto, ignorando completamente a gravidade.

Um riso mudo que nem eu reconhecia estava saindo da minha boca. Ele era meu agora! Eu fechei os punhos e um após o outro, comecei a desferir socos no meu adversário. Nada menos que sede de sangue em minha mente. Eu. Só. Quero. Quebrar. TUDO!

… de novo

… de novo

… de novo

… de novo

… DE NOVO!!!

Eu queria poder gritar, mas o som não saia da minha garganta. Eu continuei a agredir cada vez mais o renascido capturado. O capacete já estava destruído, e as luvas do meu traje já tinham se rasgado há muito, junto com a pele por baixo e o sangue de meus dedos cortados já tinha se misturado com o sangue dele e salpicando nossos corpos, até estarmos completamente tingidos de vermelhos.

Eu me sentia completamente fora de mim. Quando finalmente me acalmei o suficiente para interromper a chuva de socos, liberei o feitiço que nos permitia flutuar, e caímos no chão. Eu tremia, arquejava. Olhava ao redor, e não sabia o que via. Eu ouvia vagamente os murmúrios distantes da plateia que eu não conseguia ver, mas também não conseguia distinguir o que diziam. Só consegui sentir a dor latejante e o frio consumindo meu corpo, que não parecia mais ser o meu. No meio da minha respiração pesada, senti o gosto e o cheiro do sangue, mas também não pareciam ser reais. Meus cabelos tinham se soltado completamente agora, e estavam encharcados com uma mistura de suor e sangue, que deu uma aparência bem nojenta e macabra.

De repente uma ardência em particular começou a incomodar no meu braço. Um sensação de “nada” parecia vir dali. Como se fosse irreal, tentei virar meus olhos e girar o pescoço para olhar meu braço ― ou isso, ou o mundo estava querendo girar ao meu redor, mas isso parecia menos lógico ― e percebi que não tinha mais equilíbrio. Eu cambaleei dois passos antes de conseguir me firmar. Quando finalmente consegui girar a cabeça e ver qual era o problema. Um pequeno dardo branco cravado profundamente em minha pele estava lá, deixando mais sangue escorrer como uma nova ferida.

De algum lugar distante em minha mente, senti a relíquia da sabedoria me contar que era um poderoso dardo tranquilizante. Então algo me atingiu por trás na altura do ombro direito… outro dardo. E o nada foi aumentando até que um último impacto na coxa direita finalmente me derrubou.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: