DCC – Capítulo 35 – 3Lobos

DCC – Capítulo 35

Luta

 

Sem me demorar demais, eu girei o corpo, e atirei com força moderada a cabeça até pouco mais de oito metros à minha frente. Como havia previsto, dois autômatos armados com varas surgiram do chão e começaram a investir rapidamente contra mim.

Eu deixei minha mente esvaziar e deixei que a Sabedoria respondesse os movimentos corretos que eu deveria seguir. Então o autômato mais próximo levantou o bastão sobre a cabeça, saltou e começou a descrever um arco de descida veloz na minha direção. O segundo ainda vinha adiantando-se logo atrás por baixo e girando a própria vara horripilante.

Os autômatos das varas tinham muita força durante o ataque. Um único acerto deles havia quebrado a coluna de alguns corredores anteriores. Mas diferentemente dos demais autômatos que eu havia acabado de destruir, esses eram muito lentos na hora de se recuperar de um ataque para preparar o ataque seguinte ou mudar de direção.

Então eu fiz uma das coisas que Marco havia usado na minha frente. A Relíquia havia me “contado” o que era e como fazer. Era uma espécie de truque mágico. Havia sempre uma barreira ao redor dele, que impediria que qualquer coisa que ele não quisesse entrasse em contato com ele.

A minha barreira, porém, ainda seria muito mais fraca do que a de Marco. A solução seria utilizar o poder dela em uma pequena área ou ponto específico por um curto período de tempo. A brecha era curta, e a oportunidade era única. Uma falha e eles me acertariam em cheio. Eu não poderia parar os dois ao mesmo tempo.

Eu mirei um golpe no autômato que saltava e vinha atacando por cima. Poderia evitar um deles, mas teria que encarar o outro de frente. No último segundo saltei pouco antes da vara do atacante de baixo passar zunindo por baixo dos meus pés e levei a mão direita com os dedos alongados em direção a vara daquele que vinha atacando por cima.

Como planejado, a barreira fez a vara deslizar pelo lado de fora da minha mão, desviando o ataque, e com toda força, levei a mão esquerda para o pescoço do autômato, quebrando-o. Na descida do salto, eu caí atrás do segundo robô, que estava no chão se recompondo para um segundo ataque e antes que ele terminasse de se virar para mim, eu agarrei a sua cabeça por trás, consegui içá-lo e exatamente como tinha feito com o primeiro, arranquei sua cabeça.

Sem fôlego, eu ajoelhei com uma das pernas no chão, mas me mantive alerta pronta para correr, caso aparecesse alguma coisa desconhecida. A Relíquia da Sabedoria tinha acesso a todos os tipos de armas, equipamentos e autômatos dessa pista. Nada me pegaria de surpresa, desde que eu não baixasse a guarda. Mesmo tendo visto pessoalmente apenas até os mini canhões que ficavam na terceira linha de ataque, eu sabia que não era apenas isso.

Meu corpo doía um pouco agora. Apesar de eu não ter sido diretamente atingida nenhuma vez, a repercussão dos impactos dos vários ataques me deixaram abalada. Fora que intencionalmente usar a energia da Criação para congelar os robôs me deixava com a pele dormente. Estava sendo uma faca de dois gumes, já que era uma coisa que eu não dominava. Essa era a primeira vez que eu estava realmente tentando usar a Relíquia da Criação, então tinha cometido um erro. Não consegui controlar ao mesmo tempo o escudo e a saída de energia. Então por ter dado preferência ao escudo, acertei com força a mão diretamente no corpo duro do autômato.

À medida que tentava me aquecer, muito lentamente uma dor crescia entre a dormência e o frio. Nos treinos, só havia aprendido realmente um golpe de luta ou outro. Não tinha aumentado tanto assim a minha força física e não sabia usar magia além do que já estava usando.

Mesmo sem considerar impactos diretos, se mais alguma coisa me acertasse, eu talvez caísse. E se eu caísse, eles me pegariam. Apertei o pulso esquerdo com força com a mão direita e senti a dor pulsar. Ainda era suportável. Então apesar de forte, provavelmente tinha sido apenas uma contusão.

Quando recuperei o fôlego, levantei e comecei a tentar quebrar o braço de um dos autômatos que tinha acabado de derrotar. Queria arrancar o que segurava a vara, para utilizá-la eu mesma. Ao que tinha aprendido, os canhões reagiam a movimentos e depois para discernimento, atiravam na fonte de maior calor. Será que eu teria alguma vantagem ali?

Eu sabia que se demorasse demais, eles mandariam algo me atacar. Então precisava ir rápido. Arranquei a cabeça do autômato que ainda estava comigo e, com a vara e mais duas cabeças, fui até a marca onde tinha atirado a primeira para chamar a atenção da segunda linha de ataque. Pouco antes de chegar a marca dos vinte metros, respirei fundo e atirei a primeira cabeça em diagonal. Ela foi rolando por vários metros e enquanto rolava, como previsto, os canhões surgiram do chão e atiraram naquela direção. Eu aproveitei para correr no outro sentido tomando cuidado para não ultrapassar a marca da cabeça assim que ia parando de rodar, eu também ia parando de correr e me preparando para arremessar a próxima cabeça.

A segunda cabeça aterrissou e rolou pouco a frente da primeira, e eu adiantei o passo cada vez mais em direção a ponta oposta da linha de canhões. Quando a terceira cabeça bateu no chão, porém, eu já estava perto o suficiente para não enganar mais os canhões do lado que eu estava.

Primeiro um, depois dois viraram-se para mim e começaram a atirar. Enquanto a maioria ainda estava distraída com a isca, eu me armei com a vara e comecei a correr em paralelo com a linha de tiro, destruindo os canhões um a um.

Quando os sensores deles se davam conta da minha presença já era tarde, porém, a distância dos disparos era tão curta que era impossível desviar, então uma enxurrada de pesadas balas emborrachadas começou a bater na direção das minhas pernas. Eu me concentrei em tentar deixar o escudo revestindo o máximo que podia da perna esquerda e comecei a avançar de lado. Três ou quatro ainda passaram de raspão pela perna esquerda e quase me desequilibraram, mas eu tentava acima disso sustentar meu peso com o poder de flutuar, mesmo sem tirar os pés do chão. Finalmente, furiosamente desci a vara no último canhão. O suor escorria pelas mechas do meu cabelo completamente desarrumado, encharcando meu corpo. E eu travei os dentes ao respirar com força tentando recuperar o oxigênio no sangue.

Senti um sorriso triste e irônico por sentir que estava suando e congelando ao mesmo tempo. Estava exausta. Manter a concentração para usar a Sabedoria era mais cansativo do que se eu estivesse fazendo isso sozinha. Mas se eu estivesse me baseando em meu próprio julgamento para lutar, eu já teria sido nocauteada sem nem passar da primeira linha de ataque.

Meu pulso esquerdo latejava com mais força ainda e agora o direito queixava-se do esforço exagerado que tinha feito sozinho. Eu olhei para o fim da pista. Faltavam vinte metros até lá. Não haviam mais armadilhas. Outra coisa estava à minha espera. Um renascido. Ele usava o mesmo tipo de roupa que eu, com o adicional de um capacete, que lhe cobria o rosto. Ele caminhou lentamente em minha direção e antes que eu pudesse recuperar completamente, se colocou em posição de luta e atacou.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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