DCC – Capítulo 34 – 3Lobos

DCC – Capítulo 34

O percurso de Alésia

 

O mais ao longe que qualquer um dos renascidos conseguiu chegar nessa pista foi por volta dos trinta metros. O sexto a descer havia conseguido resistir a maior parte dos tiros feitos pelos canhões, mas quando se aproximou mais, um deles acabou atingindo sua perna, fazendo-o tropeçar, e ele continuou a ser alvejado até estar inconsciente.

O oitavo havia talvez chegado à conclusão de que pudesse burlar a pista de alguma forma. Ele desceu os degraus da arquibancada. E ao colocar o primeiro pé pista, jogou-se ao chão. Por um momento eu ri achando que era uma excelente ideia. Os autômatos paravam de atacar quando o renascido já estava no chão, então começar no chão já seria uma fuga.

Porém, a gargalhada que um dos treinadores deu me deu fortes calafrios. Pelo visto não seria tão fácil assim. Os autômatos brotaram do chão assim mesmo, e apenas dois da primeira linha foram necessários para cobrir o renascido no chão em um linchamento.

Eu comecei a me questionar por que diabos eu estava assistindo aquela cena. Mas não conseguia desviar os olhos. Era preciso aprender, ou seria eu a sofrer daquela forma. O renascido foi cercado pelos autômatos. Dois deles se ocuparam se agarrá-lo bem, prendendo suas mãos e pés, e os demais começaram a pisá-lo.

Não eram chutes, eram realmente várias pisadas violentas. Eu tenho certeza que ouvi daqui três ou quatro costelas se partirem, e o rapaz já estava cuspindo sangue, com a caixa torácica seriamente deformada quando eles pararam.

Então, o limite não era a queda. Era o abatimento. Independentemente do que fizessem, ou onde chegassem, os autômatos não iriam parar até que seu alvo estivesse incondicionalmente incapacitado.

Entraram na pista fortes, rápidos, ágeis e bons lutadores. Eu reparei porém que não importava que qualidades se tinha, todas elas podiam ser facilmente derrotadas.

Eu precisava de um plano. Uma estratégia. E a ideia veio bem em cima da hora. A Relíquia que continha o conhecimento estava ali, como Marco bem havia dito “acessível para quem soubesse o que procurar”. Se eu não tinha nada específico em mente para pesquisar, então eu nunca acharia nada específico.

Vasculhei entre o conhecimento que me estava acessível até encontrar o que procurava. Havia visto duas coisas interessantes sobre magia no tempo que tinha passado em Keret. Que chances eu tinha de conseguir aprender? Mas não custava tentar. Tanis, o último renascido a descer para a arena, não havia conseguido alcançar os dez metros, mas havia garantido quinze segundos de resistência, se tornando o que mais durou funcionando em combate direto. Teria sido o bastante.

Tanis caiu no chão com os dois braços ensanguentados e uma perna dobrada em quatro ângulos estranhos. O droide apareceu, o recolheu, e no minuto seguinte a pista estava pronta. Então o meu treinador me empurrou para tomar o caminho de descida das escadarias.

Passo ante passo, eu desci lentamente cada degrau tentando terminar de formular os planos dentro da minha cabeça. Eu não tinha como fugir daqui ainda. Então eu teria que lutar, ou virar escrava sexual de um sádico nojento. E definitivamente não havia possibilidade de eu levar uma surra leve. Assim que eles me pegassem, eles me massacrariam.

Eu ouvi atrás de mim os outros treinadores caçoando. Era óbvio que eu estava transpirando pavor. Eu podia sentir isso visível em todo meu rosto. Além disso, eu também tremia bastante. Eu levantei então o pé do último degrau e fechei os olhos, respirei profundamente e saltei com os dois pés ao mesmo tempo para a pista. Eu não corri. Também não me joguei no chão. Eu não podia esperar por um milagre. Eu tinha que fazer meu próprio caminho aqui. Não haviam outras possibilidades por enquanto, ser estuprada por estranhos não era uma opção que eu poderia aceitar, então sobreviver a isso era minha prioridade. Então com os dois pés firmes sobre aquele chão, eu aguardei.

Como esperado os primeiros autômatos apareceram dois segundos depois. Os da linha de combate corpo a corpo, seguidos logo depois por uma segunda linha de ataque. Em vez de correr para frente, antes que o mais próximo deles me alcançasse, eu corri pela lateral até alcançar o canto da pista. Agora eram seis autômatos que vinham em minha direção, mas pelo menos os que usavam bastão ainda não haviam surgido como esperei.

Eu tinha aprendido bem o que haviam me ensinado nos treinos. Eu não queria apanhar. Eu não era um renascido. Eu não tinha morrido. Eu tinha minha alma. Henry havia garantido isso. A dor que viria de qualquer um dos ferimentos anteriores de qualquer um dos renascidos derrotados parecia ser excruciante, e não era algo que eu queria experimentar. E eu tinha dois trunfos na manga para usar. A minha inteligência não era artificial, e eu tinha duas armas extremamente poderosas para meu uso pessoal. Eu só precisava aprender a usá-las corretamente em combate.

Então eu esvaziei minha própria mente, e deixei o discernimento da Relíquia da Sabedoria decidir o que fazer por mim. O primeiro autômato que me alcançou já vinha com o braço direito retraído pronto para um de seus poderosos socos, mas eles sempre tinham dificuldade de se virar depois para o lado do braço que estavam usando. Então, eu esperei até o último instante e saltei para a direita, me posicionei atrás do autômato, agarrei a cabeça dele e a usei como apoio para me içar para cima.

Consegui colocar os joelhos sobre os ombros dele, enfiei a mão por baixo da armadura, e com um maravilhoso alívio, deixei uma modesta quantidade de energia da Relíquia da Criação escapar pelos meus dedos e congelar as juntas do pescoço do robô. Com um giro do corpo, pressionei o peso para trás e como havia esperado, o metal partiu e o primeiro autômato caiu decepado. Mas antes que eu alcançasse o chão, o segundo autômato já estava com o próprio ataque a caminho, então enquanto ainda segurava a cabeça com a mão, eu a levantei para frente de meu corpo e segurei com força, entre mim e o ataque. Consegui evitar o impacto direto, mas a força ainda me jogou para trás e eu usei minha fraca habilidade de flutuar que aprendi no pouco tempo que passei com Henry para frear e recuperar o equilíbrio, logo antes de me chocar contra a parede do canto da pista.  O autômato mais próximo aproveitou esse momento para se jogar sobre mim, mas eu girei para o lado e no momento em que ele se chocou contra a parede, eu enfiei a mão entre as pernas do robô na fenda da armadura da perna esquerda dele e novamente deixei a energia fluir. Como havia esperado, o terceiro autômato já estava logo atrás e já estava atacando também.

Então eu puxei com força a perna congelada do robô, a arrancando e trazendo o resto do corpo exatamente para o lugar onde o terceiro iria me atingir. Então, em vez de mim, ele acertou o robô sem a perna, destruindo seu corpo. Ainda aproveitando o embalo do puxão, eu dei uma cambalhota para trás e me recoloquei firme de pé, ainda segurando a perna que arranquei do robô, e saltei sobre o terceiro girando os ombros com força, utilizando a perna decepada como uma arma. O autômato atingido caiu desequilibrado sob o peso do ataque, com o pescoço quebrado, então eu soltei a perna e voltei para o que estava do lado, e o empurrei contra a parede, chocando com força a cabeça dele, ao mesmo tempo que o congelava e quebrava suas articulações.

Assim, todos os autômatos da primeira linha de ataque já tinham sido destruídos. Ao todo, poucos segundos haviam se passado. As pessoas na plateia olhavam para mim com as expressões animadas e surpresas. Alguns até mesmo tinham se levantado para torcer. Senti uma raiva crescer em meu peito. Então eu dobrei-me sobre meus joelhos, fechei os olhos e respirei fundo duas vezes antes de reabri-los e tentar recobrar o fôlego.

Eu não poderia perder a concentração um segundo sequer. Era meu corpo que se movia, mas eu seguia as instruções da Sabedoria. Qualquer distração seria a minha derrota.   Eu me recompus, agarrei a cabeça que havia arrancado do primeiro autômato que destruí e a perna de outro, e arrastei até o lugar onde a pista começava, andando em paralelo aos degraus por onde eu tinha descido. Ignorei completamente os treinadores que tinham zombado de mim no começo. Não importa se eles agora achavam que eu tinha alguma chance.

Eu realmente me sentia muito grata pela Relíquia da Sabedoria nesse momento. Magia era uma coisa completamente inédita e complexa para mim, assim como tudo o que estava fazendo parte da minha vida agora. Mas eu tinha que reconhecer que eu ao menos deveria ter talento para usar.

Eu utilizei o conhecimento ilimitado ao qual tinha acesso e havia procurado por três coisas específicas, que me mantivessem com todos os ossos inteiros nessa provação: como se dava a disposição dos autômatos durante a pista, quais eram os pontos fracos deles, e se e como poderia utilizar algum poder das Relíquias para lhes causar danos físicos, e ao mesmo tempo me proteger sem me expor. Não adiantaria correr às cegas para frente, e deixar para trás os autômatos intactos, que eventualmente me alcançariam. Era tudo uma questão de estratégia.

E eu agora tinha uma… eu acho…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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