DCC – Capítulo 33 – 3Lobos

DCC – Capítulo 33

A Pista

 

Alésia Latrell:


Mesmo que Henry houvesse ficado terrivelmente magoado com o beijo que eu havia dado em Marco, e mesmo que Marco possivelmente tivesse ficado mais furioso ainda comigo por ter mais uma vez quebrado seu escudo e lhe dado um belo tapa na frente de todos… mesmo assim…

Pelo menos eles tentariam recuperar as relíquias… E EU ESTAVA COM DUAS MALDITAS RELÍQUIAS!! Mas já havia se passado um mês desde que eu havia sido sequestrada por essas pessoas e ninguém havia aparecido.  

Como Marco havia falado antes pra mim, a Relíquia da Sabedoria era algo fantástico, que poderia ser comparada à uma biblioteca infinita. Os dias estavam se tornando cada vez mais desesperadores e encarar integralmente a realidade do Resort Laplantine era demais. E eu tinha cada vez mais aquela sensação horrível em minhas entranhas, como se de alguma forma eu estivesse carregando o peso de todo o universo.

Eu tinha um treinador, que me tratava pior do que uma pessoa que não gosta de cachorros trataria um cachorro sarnento. Eles consideravam que eu estava morta, e, como em um corpo sem alma, eu não passava de um brinquedo, cujas atitudes que eu tinha sobre qualquer coisa eram apenas reflexo de um chip de personalidade dotado de inteligência artificial. E logo eu também percebi que não adiantaria reclamar, mesmo porque haviam tirado minha voz de mim. Eu precisava sobreviver, e para isso, pelo visto, precisaria treinar. Eu já havia ouvido meu “dono” comentar nas alternativas caso eu não correspondesse. Eu não queria ter que encarar essas alternativas. Em pouco tempo eles me jogariam em alguma arena para lutar contra algum outro renascido, e todos ali esperavam uma luta até a destruição, e caso eu não vencesse, eu me tornaria o brinquedo sexual dele.

É claro que eu já havia brigado uma ou duas vezes na escola, mas nunca havia lutado de verdade. Nunca havia encarado a perspectiva de perder a vida com isso, ou de perder a dignidade como pessoa e mulher. Se bem que perder a vida parecia estar sendo realmente uma perspectiva insistente.

Então eu me dedicava aos treinamentos. Eles esperavam que, assim como se treina animais, as minhas ações se tornassem respostas a estímulos. Era assim que funcionavam as programações dos chips de personalidade com I.A. Treinos bem feitos rendiam bons estímulos. Treinos mal feitos rendiam dor. Toda vez que eu ou algum renascido errava uma sequência de movimentos, uma coleira em nossos pescoços era ligada e descarregava um choque forte o suficiente para derrubar qualquer um.

Pra mim não era grande coisa. Doía, mas nem tanto, já que meu corpo era especificamente preparado para resistir à eletricidade, mas eu que não iria deixar eles perceberem isso… Vai que eles decidem mudar pra um método de incentivo mais eficiente? Então se eu levava um choque, eu me jogava no chão e agia como todos os outros renascidos.

Quando me era permitido o tempo de descanso, eu deixava minha mente vagar por uma espécie de espaço ilusório que a Relíquia da Sabedoria me proporcionava, de onde eu poderia ver toda a história do universo. Usá-la estava sendo cada vez mais prático, apesar de eu não ter entendido de primeira como funcionava. Porém, não me servia realmente em nada além de uma distração. Como Marco havia dito, ter acesso a todo aquele conhecimento e não ter como usá-lo… usar as habilidades gravitacionais também pareciam estar fora de questão. O poder dela não era compulsório como o da Criação. E também parecia que tinha alguma coisa em mim travando o acesso ao poder dela. Eu podia sentir.

Quando amanheceu o dia, o sinal da academia tocou, e eu tinha que estar de pé e pronta para quando o treinador chegasse. Eu amarrei bem os meus longos cabelos em um coque apertado e sai do alojamento onde eu e mais outros dezessete renascidos passávamos as noites. Hoje iriam começar os treinos de percurso, para ajustar as habilidades de combate em situações reais. Cada renascido deveria atravessar uma pista de cinquenta metros com pequenos obstáculos, que tentariam nos derrubar. Era uma simulação. Até agora eles tinham trabalhado apenas em testar a nossa resistência, aumentar nossa força física, habilidades, conhecimento de combate corpo a corpo e velocidade de reação.

Havia uma grande possibilidade de ocorrerem incidentes, e algumas “peças” poderiam ser perdidas, mas pelo menos eles teriam uma prévia de que classificação poderiam atribuir a cada renascido, o que servia de base para as apostas futuras. A própria pista era assistida por apostadores.

O primeiro candidato que iria atravessar o percurso era um rapaz, que parecia ser um jovem adulto, e o chamavam de Ivan. Usava barba rente, e tinha ombros largos e um corpo magro. Ele sempre se saia bem nos treinos diários, e os treinadores tinham boas expectativas em relação a ele.

Todos os outros renascidos foram posicionados em linha na sequência em que entrariam, no topo de uma arquibancada, de onde podia ser visto todo o percurso. Eu seria a última a entrar no percurso pelo visto, de acordo com o lugar onde me colocaram. Então o teste do primeiro renascido começou.

Foi muito pior do que eu teria me atrevido a imaginar. Ivan correu bem na descida da arquibancada, é claro, e nos dez primeiros metros do percurso. Era um percurso que começava “simples” e subia a dificuldade. Onde o renascido caísse, seria o máximo de sua capacidade atual.

Não eram utilizadas armas letais, elas não permitiam que se apreciasse todos os pequenos… detalhes… de uma matança. A plateia gostava mais quando o sangue era tirado através de lâminas e punhos. Autômatos sem revestimento eram erguidos de alçapões no chão, e iniciavam ataques furiosos com os membros frios de metal. Ivan esquivou-se bem durante os sete primeiros metros, e conseguiu derrubar aos empurrões quatro autômatos diferentes, mas no oitavo metro, rápido como uma bala, surgiu um segundo tipo de autômato. Esses dessa vez carregavam varas.

Ivan esquivou-se do primeiro ataque, mas antes que pudesse recobrar o equilíbrio, um segundo autômato já estava girando furiosamente a vara na direção dele. O rapaz recuperou-se antes de ser atingido em cheio, mas o ataque acertou seu braço direito. A violência do golpe foi tremenda, e o braço dele partiu no meio. Era uma séria fratura exposta. Os ossos quebrados rasgaram a pele, e o membro rodou mole, ainda influenciado pelo impacto, ao redor do toco ligado ao cotovelo, lançando sangue ao redor.

Mas que merda foi essa?? Eu levei as mãos a boca em choque. Realmente haviam pessoas que pagavam caro só para ver humanos serem dilacerados? Então fiquei imaginando se os renascidos realmente não eram capazes de sentir dor ou mostrar emoções reais, porque o grito mudo de Ivan gelou as profundezas da minha alma mais do que o frio constante ao qual eu tinha que conviver. O grito mudo que escapou de sua garganta desfigurou seu rosto com uma careta de dor por menos de um segundo. O autômato da vara que acertou o ataque já havia recomeçado outro giro, e o momento em que Ivan parou para sofrer de dor foi o suficiente para fazer dele um alvo fácil.

A vara acertou o rapaz na lateral do joelho. Era obviamente um golpe manejado com a intenção de –retirar o movimento dos alvos. O barulho do joelho partindo-se misturou ao do braço que ainda ecoava, e mesmo antes que Ivan atingisse o chão, um dos primeiros autômatos que ainda não tinha sido derrotado já o havia alcançado e terminou de derrubá-lo com um soco fenomenal no meio das costas. No momento que Ivan atingiu o chão inconsciente, todos pararam de se mover, retornaram para o que parecia ser uma posição inicial, e afundaram no chão.

Toda a “luta” não durou sequer um minuto. Eu segurei minhas mãos contra meu rosto, e cobri minha boca… parecia que eu iria vomitar todas as minhas entranhas se eu me soltasse. Isso não era uma brincadeira. Um droide assistente entrou na pista e recolheu o que tinha sobrado de um Ivan encolhido, segurando o braço partido em meio a uma poça de sangue, e o levou para o centro de reparos.

Assim que saíram, a pista foi limpa, e o sangue que havia sido derramado desapareceu do chão. Parecia que nada havia acontecido. Alguns dos espectadores riam extasiados. Era a vez do segundo.

Anna era uma humana baixa e ágil.  Saia-se bem nos treinos de velocidade. Ela desceu os degraus da arquibancada, e assim que o primeiro pé tocou a superfície da pista, ela disparou.

Rápida, os autômatos da linha de frente mal conseguiram alcançá-la, e o mesmo aconteceu com os autômatos dos bastões. Quando alcançou os primeiros vinte metros porém, uma linha sólida de algo que eu só poderia comparar com carrinhos de controle remoto, ou miniaturas de canhões com rodas, brotou do chão na marca dos trinta e cinco metros. Anna hesitou o passo um instante, sem saber como proceder com esse novo tipo de autômato, mas no segundo que eles surgiram eles já estavam atirando.

Cada pequeno canhão lançava pesados projéteis. Pareciam bolas de tênis, não muito duras, nem muito pesadas, mas com a velocidade que eram lançadas, podiam facilmente derrubar alguém e quebrar seus ossos com o impacto. Os tiros não passavam de um metro de altura, mas já era o suficiente.

Anna não conseguiu esquivar-se de um tiro sequer. Agachou-se e tentou se proteger dos tiros com os braços, mas antes que pudessem acabar com ela, o autômato mais próximo dos que a tinham acompanhando já estava ao seu encalço, girando o corpo de metal e a atingindo com um pesado golpe da vara. O golpe atingiu a lateral do corpo de Anna, que tombou de lado com a coluna dobrada em uma posição estranha, e o percurso foi encerrado. Sequer havia durado dez segundos.

Eu comecei a hiperventilar. Isso não era qualquer joguinho. Isso não era de longe qualquer coisa que lembrava os treinos. Isso não era uma briguinha de escola. Eu era um investimento para entrar em lutas macabras. Eles definitivamente iriam me matar!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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