DCC – Capítulo 32 – 3Lobos

DCC – Capítulo 32

Demetre Laplantine

 

Demetre Laplantine:


Eu sempre me considerei um homem excêntrico e de gostos excêntricos. Eu nunca fiz segredo disso. Atualmente tenho vivido em uma pequena lua terraformada orbitando um planeta desabitado em um sistema estelar supostamente desabitado. Em minha lua, eu sou o rei. Eu administrava um grande e riquíssimo resort, batizado com meu próprio nome: Demetre Laplantine, onde pessoas excêntricas de gostos excêntricos se hospedavam para se divertir em segredo.

Meu resort poderia concorrer com o palácio real do imperador da galáxia como a maior fortaleza de segurança tecnológica, apesar de estar oficialmente fora dos limites do Império. As pessoas que frequentavam esse lugar pagavam, além de descanso e diversão discreta, por segurança, e pela garantia de que ninguém de fora descobrisse que estavam por aqui e nem o que estariam fazendo.

Como a lua era pequena e privativa, toda a terra estava sob minhas ordens e controle dos meus guardas, todo o espaço aéreo era minuciosamente vasculhado e inspecionado atrás de qualquer vestígio de invasores, bisbilhoteiros ou penetras, além de uma vasta rede de alarmes circulando toda a orla desse sistema estelar. Uma tentativa de aproximação não autorizada era punível sem aviso. Destruição sumária da nave.

E esse era um dia especial. Eu iria receber finalmente uma carga preciosa que havia adquirido recentemente no mercado de renascidos. Ela vinha transportada para esse lugar dentro de um container transparente de retenção eletromagnética, que criava barreiras invisíveis artificialmente capazes de conter um míssil de destruição planetária.

Era um exagero, é claro, mas pelo que havia investido nela, era necessário. Haviam muitos rivais que tinham ouvido falar da minha nova aquisição que tinha sido feita da melhor qualidade possível. “Feita…”

Uma das revoluções da Bioengenharia tinha sido a reanimação de corpos mortos, que eram utilizados principalmente por legistas e criminalistas, para resgatar a memória da pessoa como testemunha de casos complexos.

A pessoa tinha o corpo preservado para que fosse reanimada temporariamente, e assim pudesse responder questionamentos policiais. Depois, o corpo era devolvido à família. Seria como se o morto voltasse a vida, não fosse a falta de personalidade. As almas dos renascidos já haviam deixado seus corpos.

Porém durante muito tempo, apesar do esclarecimento da falta de alma nos corpos, sendo que esses corpos reanimados, chamados de renascidos, só serviriam como fonte de pesquisa das memórias da pessoa que tinha sido em vida, as pessoas de suas famílias, muito apegadas a seus entes, começaram a querer manter os renascidos perto de si.

Houve toda uma pesquisa então para criar chips de personalidade dotados com inteligência artificial, para ser inseridos nessas pessoas e para que assim elas assumissem um papel como se ainda tivessem realmente vida.

Em poucos anos, o Imperador Gabriel Gionardi, antecessor de Marco, havia baixado um decreto que proibia a criação de novos renascidos de uso privado com chips de personalidade. Estava havendo um crescente aumento nos números de transtornos psicológicos causados pela dependência física dos póstumos, e depois de um tempo, muita gente acabava se tocando da personalidade falsa que colocavam dentro deles e os jogava fora.

Os renascidos que eram abandonados, acabavam se tornando também um sério problema de saúde pública, pois eles tinham uma validade determinada sem manutenção, e necessitavam ingerir nutrientes da mesma forma que os vivos. Porém, antes que o Império precisasse intervir nisso, de alguma forma, a quantidade deles nas ruas foi diminuindo até se tornar imperceptível e desaparecer.

Um mercado negro havia se criado em cima disso. Muitas pessoas abastadas desesperadas com suas perdas solicitavam junto às autoridades que reanimassem seus entes, como forma de fazer perguntas sobre bens e questões econômicas das famílias. Mas assim que o corpo era entregue para os responsáveis como um renascido, eles simulavam uma cerimônia de desativação e de cremação, e passavam a sustentar seus reparos, e viver com eles como se fossem vivos, enquanto ainda fosse possível.

Esta havia se tornado uma prática velada, mas assustadoramente frequente. E ladrões especializados em reconhecer renascidos haviam se espalhado por todos os lados, dando início a um novo tipo de tráfico de pessoas. Afinal, reparar e manter um renascido era um negócio muito mais em conta do que fazer um do zero com cadáveres por aí.

As famílias roubadas não teriam como acionar a polícia, pois em primeira ocasião, já estavam descumprindo a lei, por terem um renascido em casa. Então os renascidos roubados eram reformados e revendidos para casas de prostituição, empresas clandestinas que necessitavam de cobaias para testes de produtos diversos, e os de maior qualidade eram destinados para ringues de apostas.

Eu fui o primeiro a perceber que os ringues de apostas eram um negócio espantosamente lucrativo. Os renascidos eram “reformados”, tenho suas cordas vocais retiradas, e chips de personalidade formatados para se tornarem máquinas de combate, onde seriam jogados em arenas para “lutar até a morte”, pelo entretenimento de uma plateia que encarava isso como um grande espetáculo.

A primeira característica marcante para reconhecer um renascido era um aspecto singular: os olhos prateados. Para confirmar se essas pessoas eram realmente renascidos, ou apenas cegos que receberam próteses em algum momento de suas vidas, era necessário apenas sujeitá-los a um breve escaneamento.

Assim que confirmavam que o corpo do ser havia sido alterado, então havia noventa e nove por cento de chances de ser um renascido. Os contrabandistas teriam certeza ou não quando vasculhassem pelos dados em um rastreador de DNA. Mas essa garota era interessante. O DNA dela não pôde ser encontrado. Não existia nenhum registro. Ela basicamente não existia. Seja lá quem foi que a fez, também teve o cuidado de apagar os registros originais dela.

Como ela era excepcionalmente bem feita, exigi que fizessem buscas de novo e de novo atrás de possíveis rastreadores. A pulseira em seu pulso me preocupou bastante no começo por se tratar de um material desconhecido e que ninguém conseguiu remover. Ainda pensei em cortar fora a mão dela para remover o item, mas como ele não emitia sinal nenhum, apenas mandei revestirem com um emissor de pulso eletromagnético, para impedir de ligar se fosse realmente algo, o que eu duvidava.

Depois de todos esses dias, se ninguém havia aparecido, então ninguém apareceria e mesmo numa possibilidade extrema desse alguém também ter acesso a um rastreador de DNA com os dados dela, o resort ficava estrategicamente em uma zona fantasma fora do Império. Era impossível rastrearem até aqui.

Então eu estava muito feliz pela nova compra, e fui acompanhar pessoalmente o descarregamento no galpão de treinamento. Ela tinha uma expressão assustada no rosto, mas se mantinha firme. Eu não iria jogá-la de cara em uma dessas arenas. Primeiro iria ter que prepará-la, ensiná-la a lutar. Desde que ela pudesse lidar com isso, ela valeria a pena. E se não valesse, ela era potencialmente um excelente material para se tornar minha escrava pessoal. As que tinham uma personalidade assustada ou as bravinhas eram as mais divertidas de abusar.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: