DCC – Capítulo 31 – 3Lobos

DCC – Capítulo 31

Novas companhias

 

Eu fiquei parada ali por um bom tempo, sem saber o que fazer. Ele poderia não ter me ouvido, mas ele definitivamente haveria de ter sentido que eu o segui. Será que é por isso que ele correu tão rápido? Ele não queria mesmo ter que me encarar? Ele deve ter ficado terrivelmente ofendido…

Mas e agora, o que eu ia fazer? Era provável que ele estivesse pensando em me abandonar. Era possível que ele estivesse pensando que eu havia aceitado me sujeitar a Marco, e era possível que agora eu tivesse que fazer isso. Depois, com aquela reunião, e as coisas que ele havia dito, abusando de sua autoridade como Imperador… provavelmente decidiriam pela interdição de Henry.

Então depois de poucos minutos eu segui em frente. Ou melhor, não havia decidido realmente, mas não queria voltar. Recoloquei meus saltos e sai do estacionamento andando pelas ruas adjacentes ao palácio. As ruas estavam lotadas de pessoas contemplando os prédios e ainda brindando o ano novo. As lojas estavam sendo fechadas, mas todos apontavam felizes para os monumentos nos canteiros centrais da ruas e para a decoração comemorativa nas vitrines.

Depois de vinte minutos caminhando, eu achei um banco vazio em uma praça e me sentei. Não tinha ido muito longe, e logo os guardas de Marco me alcançariam, com certeza. Que mais me restava a fazer além de sentar e esperar? Eu olhei para o meu próprio vestido, que agora estava lilás claro cheio de nuvens fofas como o céu da manhã.

Mas depois de meia hora, ninguém apareceu. O fluxo de pessoas diminuiu até se tornar insignificante. Todos estavam cansados e caminhavam sonolentos, sempre vindo da direção do palácio. Eu me recostei no banco e um leve incomodo no seio me lembrou que o relicário com a relíquia ainda estava preso ao meu decote. Desde que eu tinha ido falar com Marco e recebido aquilo, eu me sentia como se algo estivesse errado. Como se eu carregasse o peso do universo dentro de mim.

Eu o retirei enraivecida, pensando por um momento no que aconteceria se eu simplesmente jogasse isso fora bem aqui. Mas suspirei e pensei melhor. Não poderia agir com raiva agora. Então olhei para o bonito relicário. Ele era brilhante, prateado, com adornos sinuosos. Então, por que não?

Eu o abri. Esperei ver outra luz intensa como a que havia visto no dia em que Marco forçou a Relíquia da Criação em mim, mas não houve nada muito assombroso. Uma esfera prateada saiu de dentro do relicário, flutuou por alguns minutos e se transformou como uma cobra, esgueirando-se pela minha mão até se tornar uma bela e finíssima pulseira prateada inteiriça.

Eu também comecei a esperar pelos efeitos colaterais, mas não veio nenhum. Nada como o frio terrível ou o calor escaldante. Já que essa era uma relíquia que gerava uma força da gravidade, então eu deveria ter algum controle sobre o peso… me sentir mais leve ou mais pesada… mas nem isso. Eu até pensei que aquela sensação estranha e nova fosse por que eu estava carregando isso. Mas nem mesmo isso se alterou.

Eu já havia perdido a noção do tempo quando algum sentido de alerta dentro de mim começou a me deixar assustada. Porém, já era tarde. Quatro homens grandes haviam me cercado e me olhavam cobiçosos, me avaliando de cima a baixo.

De primeira, eu pensei que poderia se tratar de guardas à paisana do palácio. Todos eles pareciam muito fortes e estavam vestidos com elegância. Entretanto, eles não se pareciam com os Jomons que habitavam Keret. Pareciam ser de outra sub-raça. Tinham olhos azuis e os narizes muito compridos, sem um pelo sequer na cabeça. Sem falar no cabelo, eles não tinham nem cílio nem sobrancelhas.

― O que querem? ― perguntei, mas quando minha voz saiu, a minha fala veio do meu idioma nativo. Eu esqueci que poderia ter falado com o idioma de Keret.

O homem mais próximo sorriu para os outros e disse:

― Ela é realmente estrangeira!

E sem aviso prévio, ele levantou um pequeno bastão, e pressionou a ponta com o polegar. Eu não tive sequer tempo de entender o que estava acontecendo. Um gás que saiu do bastão entrou em minhas narinas queimando a pele de dentro de meus pulmões e quase imediatamente desabei inconsciente.

― Então foi um dia produtivo, muito produtivo, conseguiram três exemplares… e essa aqui parece ser das boas… foi muito bem feita!

― Ela estava usando roupas de grife sob medida e jóias muito caras.

― E essa pulseira aqui?

― Não conseguimos tirar!

― É um rastreador?

― Não senhor, verificamos, não libera sinal nenhum! Ela tem um ponto tradutor na orelha, que não conseguimos tirar também.

― Ah, deixa ele aí… poupa o trabalho de ter que ensinar outro idioma. Conseguiram achar o chip de personalidade?

― Não senhor!

― O remédio para ela acordar já está terminando de fazer efeito, vamos ver se tem um!

Eu abri os olhos e avaliei onde estava. Me sentia enjoada e confusa. Era um pequeno galpão mal cheiroso, e minhas mãos estavam amarradas. Tinham retirado todas as minhas jóias e as roupas que eu estava usando.

― Que estão fazendo comigo? Por que me trouxeram aqui? ― comecei a exigir me debatendo na maca.

O homem que estava na minha frente, com grandes olhos azuis esbugalhados, sorriu doentiamente ao me ouvir. Pegou outro pequeno bastão e pressionou, deixando o gás sair. Eu me desesperei sabendo o que isso significava agora, mas novamente perdi a consciência resistindo o suficiente pra ouvir ele comentar para os companheiros:

― O chip dela também é bom, do tipo reativo, pelo menos não vamos ter que perder tempo procurando… vamos só remover as cordas vocais, colocar as….

Quando acordei novamente, estava mais zonza e mole do que nunca. Sentia um frio terrível em meu corpo. Tinham me colocado roupas novas. Eu estava usando agora um colam de corpo inteiro, pesado e duro. Parecia mais uma armadura do que uma roupa qualquer.

Então olhei ao meu redor e havia mais onze pessoas usando roupas iguais as minhas. E reparei alarmada que todos tinham olhos prateados ― essa não… quando eu saí do palácio… eu estava sem óculos!

Então, assustada, tentei chamar o rapaz que estava sentado mais próximo de mim, mas na primeira tentativa, senti algo errado. Minha voz não saiu. Levei instintivamente as mãos a garganta em pânico. Acenei para os outros com urgência, mas não tive resposta. Todos estavam parados, com o olhar vidrado para o nada.

O que significava aquilo? Eles roubaram a minha voz? Voltei a me sentar em um canto e abracei meus joelhos tentando me manter calma. Devia ter uma explicação para isso. Devia ser um pesadelo. Uma brincadeira de mau gosto de Marco. É isso… com certeza isso era alguma peça que ele estava tentando pregar pra me assustar. Passei algum tempo recitando esses pensamentos para mim mesma, quando finalmente apareceram dois homens e vieram em minha direção. Um deles era o Jomon careca dos grandes olhos azuis esbugalhados. O outro era um Jomon alto de olhos violeta.

― Tenho certeza que o senhor vai adorar, é simplesmente fantástica. Nunca vi uma mecânica tão boa em um renascido antes, foi feita sem poupar fundos com os melhores materiais, eu não quis mexer muito, porque ouso afirmar, que ela é avançada demais até para mim, sequer conseguimos localizar chip de personalidade, mas lhe garanto que o que está usando é bem interessante.

― Qual a causa da morte?

― Eu acredito que tenha sido eletrocutada. Mas não sei o que explica a ausência total de cicatrizes póstumas, e a pele gelada dela. Ela teve também um pulmão e o coração substituídos por órgãos sintéticos, além do sistema nervoso. E todas as partes do corpo dela estão isoladas por alotrópicos de carbono da maior qualidade. Ela pode até pegar uma anemia braba, mas de hemorragia ela não morre!

O homem falava muito rápido e com um tom de voz bajulador. Parecia estar vendendo um produto. Tive um péssimo pressentimento sobre o que se tratava esse lugar.

― Se ela é isso tudo, pagarei o que está me cobrando… mas apenas se ela puder aprender a lutar!

Eu encarei o homem dos olhos violeta. Isso não era uma brincadeira… Definitivamente eu estava sendo vendida!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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