DCC – Capítulo 30 – 3Lobos

DCC – Capítulo 30

Fuga do Palácio

 

Dessa vez eu senti o sangue fugir do meu rosto, e Henry enrijecer do meu lado. Os murmúrios paralelos cresceram ao redor da mesa. Todos comentavam as palavras de Marco.

— Senhores, por favor… vamos nos acalmar e manter a ordem — Iago pediu quase em súplica.

— Eu vejo o que está acontecendo aqui — Marco levantou a voz também, ainda encarando Henry — E vocês sabem, que independente de minha opinião pessoal sobre seja lá o que for, eu só verei a verdade e direi a verdade por trás de tudo… Ele — Marco ergueu o dedo e esticou com o braço inteiro na direção de Henry, e continuou o tom de acusação — ama essa garota! Ele mesmo reconhece isso como uma verdade completa — Henry tornou a se levantar. O rosto contorcido — e ele mesmo admite para si mesmo que não está emocionalmente preparado para amar alguém de novo!

Todos pararam de respirar de novo enquanto ouviam Marco falar. Mas não houve mais a dança de cabeças. Todos olhavam constrangidos apenas para Henry. Como eles duvidariam das palavras que acabaram de ouvir? E ainda por cima, todos viram como Henry me segurou em seus braços enquanto eu dormia…. como EU duvidaria do que acabei de ouvir?

— A minha vida pessoal não está em discussão aqui! — Henry sibilou entre dentes. Parecia estar usando todo seu esforço para manter-se parado.

— Não estaria, se você não estivesse fora de seu juízo perfeito… — Marco continuou — eu não acredito que você vá ser capaz de lidar com outro relacionamento falho… eu posso ver isso, apesar de ainda nem ter começado. Ela — e Marco girou o seu dedo acusador em minha direção — não te ama!

Eu senti meu coração afundar até o estômago. Quando realmente essa reunião tinha virado uma discussão sobre amor? Ainda mais sobre o MEU amor? Que diabos isso tinha a ver com qualquer outra coisa sobre as Relíquias? Mas acho que mesmo assim, Marco deveria ter um objetivo, e provavelmente tinha alcançado ele. Eu senti o aperto de Henry fraquejar contra a minha mão. Marco havia dito na frente de todos que Henry me amava… então isso queria dizer… que era a verdade? E Marco também escancarou para todos que eu não o correspondia. Mas como poderia ser? O tempo que passei com Henry havia sido muito, muito menor do que o tempo que ele passou comigo, se for levar em consideração o tempo que passei inconsciente. Como eu poderia ter tempo de ter desenvolvido um sentimento tão forte por ele?

— Não se meta… — Henry sussurrou para Marco. Havia perigo em sua voz — … não se meta na minha vida de novo!

— Como não fazer isso? Eu estou aqui, parte desse grupo! E aqui estou eu, vendo você querer depositar suas esperanças românticas nela! Quando ela te recusar, você vai fazer o que dessa vez? Se matar?

— COMO PODE SER TÃO CRUEL??? — Eu gritei, deixando todos sobressaltados — COMO PODE FALAR COM TANTA CERTEZA DE COISAS QUE NÃO ACONTECERAM?

Marco levantou-se também colocando uma expressão zangada no rosto. Ele não levantou o tom de voz, mas parecia muito mais perigoso do que Henry. Então ele me encarou fortemente por alguns segundos, eu não me deixei fraquejar, e ele falou:

— Eu estou sendo cruel? Foi você quem decidiu sozinha por me roubar um beijo no final da tarde de ontem! E ainda quer dar a ele mais esperanças? Não acha que é você quem será a cruel assim? E você mesma quis manter segredo disso em seu próprio favor, não é?

Eu deixei o queixo cair, e senti o coração despencar do estômago para os pés. Todos exclamaram sonoramente e me olhavam com olhos julgadores. E Marco, que me encarava, invadia meus pensamentos e colocava em minha mente as perspectivas que tinham me sobrado.

Eu poderia dizer que tinha feito isso em nome de um acordo, e colocá-lo como vilão, então ter esse acordo cancelado, e passaria a viver sob a guarda dele, ou, eu poderia manter o acordo e a liberdade de escolha sobre meu direito de ir e vir, mas Henry nunca me perdoaria. De qualquer forma, Marco não havia dito nada sobre ELE comentar nada sobre o beijo. O tempo todo ele disse que eu quem deveria ficar calada. E independente do que, Henry sairia magoado por eu ter beijado a pessoa que ele mais odiava na galáxia inteira.

O rosto de Henry por sua vez, se desmanchou da expressão de fúria para uma expressão vazia. Deixou os braços caírem moles ao lado do corpo, e sua voz saiu fraca e sussurrante.

— Você está omitindo alguma coisa… você deve ter manipulado ela de alguma forma! — parecia que ele estava falando mais para si mesmo do que para Marco. Os demais pareciam petrificados assistindo à um espetáculo de horror.

— Por mais que você me odeie agora, você sabe que eu não minto — Marco respondeu, tornando a se sentar. — Eu mesmo a repreendi depois da ousadia que ela teve… essa menina foi escolhida pela Relíquia, então eu presumo que ela seja de confiança para ser guardiã, mas ela tem poderes latentes muito poderosos. Ela conseguiu me pegar de surpresa! E não apenas uma, mas duas vezes… E devo dizer que ela até que beija bem!

Então Henry soltou minha mão. agarrou as taças que estavam a seu alcance, e as atirou com uma força estrondosa contra Marco. Mas as taças apenas assustaram as pessoas que estavam mais próximas. Elas bateram no nada e se espatifaram em milhares de pedacinhos brilhantes. Bateram na tal barreira que Marco tinha ao redor de si mesmo, e não tiveram efeito nenhum nele. Afinal esse era o poder de alguém que não poderia ser tocado contra sua própria vontade.

Quando não haviam mais taças, Henry virou para os lados, parecendo procurar mais alguma coisa para atirar completamente enfurecido, e enfim encontrou com o meu olhar. Henry vacilou por um momento, e eu percebi que deveria estar mostrando uma expressão assustada. Eu por minha vez, abri a boca para falar uma, duas, três vezes, mas não encontrei as palavras que queria dizer ou sequer poderia dizer.

O rosto dele se contorceu de raiva novamente, mas ele deu meia volta e correu, saiu pelo portal do salão e sumiu de vista me deixando para trás completamente em choque. Mas me recuperei do choque rapidamente e também corri atrás dele. Parei apenas ao terminar de dar a volta na mesa. E encarar profundamente os olhos profundos de Marco, sem nada mais além de nojo, dei o segundo tapa na cara dele, com toda a força que havia conseguido reunir.

— Que se dane, essa tal barreira! — gritei e corri, deixando para trás um grupo estarrecido e um Marco abismado. Eu pela terceira vez havia penetrado pela barreira dele. Henry ainda não estava longe. Ainda podia sentir o calor de sua proximidade, e deixei que o instinto me levasse até ele… até onde estava mais quente.

Mas e depois, o que diabos eu iria fazer? O que diabos eu iria dizer? Marco iria saber com certeza se eu contasse qualquer coisa, e então quebrasse o acordo. Mas também não poderia me perdoar por deixar Henry magoado. Ainda mais sabendo o quanto ele já havia sofrido nas mãos de Marco. Afinal o que havia acontecido entre eles para resultar nessa confusão imperdoável? No começo de tudo, eles não eram amigos?

E sobre eu amar Henry? Eu não conseguia pensar em amor. Sequer pensar sobre esse sentimento tinha me ocorrido em qualquer momento antes de hoje. Durante o tempo que estive com Henry. Me lembrei dos momentos em que me senti tímida próxima a ele, mas sempre pensei nisso como inevitabilidade de estar em contato tão íntimo com alguém que conhecia a pouco tempo… mas e agora que Marco havia forçado essa situação? O que eu deveria pensar? Seria mesmo o melhor continuar com Henry sabendo o que ele sentia? A única coisa que eu poderia fazer agora era tentar alcançá-lo. Então nesse momento eu só poderia dar graças por estar no palácio, sob o qual havia um campo protetor especial que impedia que pessoas entrassem e saíssem voando. Eu ainda tinha uma chance, se o alcançasse antes de ele atravessar completamente jardins, agora sendo esvaziados.

Porém, também haviam ainda muitos convidados da festa se deslocando preguiçosamente pelo jardim em direção à saída. Acabei perdendo um tempo precioso tendo que esbarrar e desviar de um ou outro todas as vezes que eles andavam em grupos na minha frente. Ouvia reclamações de pessoas autoritárias exigindo respeito e desculpas quando dava um encontrão sem querer. Eu estava simplesmente empurrando pessoas do topo de todos os mundos, mas não poderia parar. O calor de Henry me dizia que ele estava logo à frente. Ele deveria estar voltando para onde estava a nave.

Pouco depois da metade do percurso, a quantidade de pessoas foi aumentando consideravelmente.  Todos estavam se deslocando para as saídas. Praguejei após esbarrar e quase cair em um senhor gordo, que aparentemente se achava importante demais para ser tocado por estranhos. Então eu tirei meus saltos para correr: “Mais rápido, mais rápido! ” eu repetia a cada passo.

Então eu estava correndo tão rápido quanto se era possível no meio de todas aquelas pessoas. Quando finalmente alcancei a escadaria lotada, não consegui mais correr. Avistei Henry quarenta metros à frente forçando passagem e empurrando todos os que estavam no seu caminho.

Eu tentei o mesmo, mas era muito pequena, comparada às outras pessoas ao meu redor. Quando a multidão permitiu, apressei o passo atrás de Henry. Mas ele já estava alcançando a nave. Então comecei a gritar por ele, mas ele não me ouviu. Ou não quis parar.

Então ele abriu a porta, entrou, deu a partida e decolou no meio das naves que também partiam para longe.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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