DCC – Capítulo 3 – 3Lobos

DCC – Capítulo 3

As palavras que eu não entendi

 

O grito saiu de minha garganta antes que pudesse controlar, antes mesmo que me desse conta de que estava recobrando a consciência. Eu estava apavorada, o medo me ameaçando como uma cobra venenosa destilando veneno contra uma presa capturada. A memória do sufocamento ainda estava fresca, como se só agora eu estivesse conseguindo voltar a respirar.

Eu arquejava com força tentando captar o máximo de oxigênio possível, entre um forte soluço e outro, até finalmente me acalmar e reparar ao meu redor. Eu precisava registrar onde eu estava de novo. Parecia com um dos quartos do hospital. Um cômodo branco, uma mesinha ao lado da entrada, então comecei a imaginar que tudo não tinha passado de uma alucinação quando reparei que eu estava literalmente amarrada com finíssimas correntes branco-azuladas em uma maca reclinável.

Tentei não entrar em pânico e ordenar meus pensamentos. É claro que eles provavelmente acreditavam que eu deliberadamente destruí dois cômodos do hospital e agora me consideravam uma ameaça. A essa hora, meu psiquiatra já teria discutido com minha mãe sobre os resultados dos meus exames que provavelmente deram positivo para esquizofrenia. E a melhor opção era me deixar amarrada na maca, ou mesmo me entregar à justiça.

Reparei por alto que eu ainda não tinha sido tratada dos cortes e arranhões que tinham ocorrido por causa dos estilhaços. A minha calça e camiseta estavam aqui e ali salpicadas com gotas de sangue.

Provavelmente não deveria ter passado mais do que alguns minutos desde a segunda série de explosões. Mas as correntes que prendiam meus pulsos e tornozelos me incomodavam mais que os arranhões. Não apenas por machucarem ao menor movimento, mas por que eu não tinha certeza se era ético prender pacientes dessa forma.

Já estava me questionando se a ética era aplicada ao tratamento de pacientes considerados perigosos como eu, quando, para meu horror, dois seguranças se aproximaram da porta e postaram-se em guarda enquanto um terceiro homem entrava, todos vestindo uniformes semelhantes, mas enquanto o dos seguranças eram azuis escuros, quase pretos, o desse homem era um azul claro bem próximo ao cinza. Todos eles eram Jomons.

A única forma de eu ainda estar em um ambiente com Jomons era se eu ainda estivesse presa nas alucinações. O homem não mostrava uma cara simpática, e no momento em que falou, também não foi cordial. Ele socou o apoio de braço da maca e gritou uma pergunta incompreensível e exigente no tal idioma que eu não conhecia.

— Eu não entendo! — gritei de volta desesperada — Não sei o que está dizendo! Isso é alguma forma de castigo pelo que aconteceu? Me desculpa, mas eu juro que não fiz…

O homem não se convenceu, e sequer pareceu compreender o que eu estava dizendo, mas girou a mão e deu um tapa forte e eficiente em meu rosto, gesticulando de forma que até mesmo eu entendi, de que não deveria gritar. O gosto metálico de sangue escorreu pela minha boca recém cortada. O que eu poderia fazer? O que eu deveria fazer? Exausta, aterrorizada e dolorida simplesmente recostei vencida a cabeça na maca e esperei o que faria o inquisidor.

Ele removeu de um coldre interno do uniforme um bastão semelhante ao que o primeiro guarda havia encostado em mim antes, no quarto destruído. Senti meus músculos retesarem de antecipação e medo. Não importava o que eu falasse, ele não iria entender se não falávamos o mesmo idioma. Ou talvez ele entendesse sim, e tudo isso fosse realmente um castigo pelas explosões.

Ele colocou uma espécie de mordaça em minha boca. Ela mantinha meus dentes afastados, mas não me impediria realmente de falar aos balbucios. Não entendi.

Então ele ajustou a maca de forma que a minha cabeça ficasse mais baixa que os pés. O movimento forçou as correntes nos meus pulsos e tornozelos. Senti a pele arder, como se já estivesse cortando. Mas isso não foi nada. Quando estava sendo perseguida, o bastão do primeiro guarda tinha encostando de raspão no meu braço me dando aquela terrível sensação debilitante. Agora, esse homem de cinza simplesmente cravou com vontade a ponta do bastão na pele nua do meu pulso.

Não consegui protestar, não consegui gritar, não consegui sequer respirar. Parecia que centenas de facas eram cravadas insistentemente por todo o meu corpo ao mesmo tempo, com força, de novo e de novo e de novo. Meus músculos tremiam e convulsionavam em protesto. Meus dentes batiam com força contra a mordaça, que acabou por me impedir várias vezes de morder minha língua de forma fatal.

As convulsões se tornaram espasmos cada vez mais violentos e dolorosos, e meus músculos pareciam que iam se partir a qualquer momento. Quando finalmente estava achando que iria morrer sufocada de forma pior que o estrangulamento, o bastão foi retirado e finalmente consegui controle sobre minha respiração. A dor se foi tão rápido como começou e aos poucos as convulsões foram cessando.

Para meu desespero maior, ele sequer fez outra pergunta antes de continuar. Vez por vez, ele pressionou a ponta do bastão na minha pele, dando-me apenas tempo o suficiente para respirar. A exaustão já me consumia mais do que a dor em si.

Ainda chorei no começo, e lágrimas ainda escorriam, mas sequer forças para suplicar eu tinha mais. Meus braços pareciam meros acessórios mortos ao meu lado. Tinha uma grande queimadura no meu pulso direito, onde ele continuamente empurrava a ponta do bastão e sangue escorria fluidamente pelo meu corpo dos meus pulsos e tornozelos cortados pelas correntes.

Eu sentia dificuldade de continuar respirando. Parecia simplesmente muito difícil fazer isso. Sentia dificuldade de me manter consciente, apesar de que para a minha infelicidade, eu também não conseguia desmaiar. Tinha uma sensação de que pelo menos na cabeça eu tinha bastante oxigênio já que estava virada para baixo. Provavelmente foi por isso que ele me colocou assim para começo de conversa. Não teria sentido me torturar se eu não estivesse acordada.

Então ele parou sua angustiante sequência e exibiu a ponta do bastão bem próximo ao meu rosto. Com a expressão inquisitiva e impiedosa ele recitou o que parecia ser a mesma pergunta de antes num sussurro acusador e intimidante e puxou a mordaça para que eu pudesse falar.

— Eu não entendo…. — a minha voz quase não saiu. Igualmente sussurrante, mas por outro lado, era um choro… uma súplica.

Eu estava certa que ele iria reiniciar minha tortura, quando um guarda entrou e sussurrou algo para ele. Ele se mostrou extremamente surpreso com a informação que recebeu, mas ele se juntou aos outros, e se colocaram em linha do lado da porta. Minutos depois, enquanto todos olhavam na direção do corredor, outro homem apareceu. Destoando completamente, esse era muito mais jovem e bonito, mas de alguma forma definitivamente mais assustador. Os guardas viraram-se em uma reverência exagerada e extremamente submissa, e afastaram-se para dar lugar a ele.

Eu precisei me esforçar até para conseguir enxergar. Ele não parecia ter nenhuma intenção de ajudar, e pela forma como todos se comportavam, parecia que era ele quem mandava nesse inferno. Apesar do cabelo desgrenhado e de um visual largado (ele usava uma bata folgada e calças de moletom que de longe pareciam ser caríssimos além de qualquer coisa que eu já tivesse usado) tinha uma aparência extremamente elegante e decidida de quem nunca teve que ouvir um não na vida.

Apesar de não parecer oficial como os guardas de uniforme e de que, se eu fosse comparar ele à um Brard como eu, ele teria no máximo uns 25 anos, os outros se apressaram a fazer relatórios um a um, sem nunca sair da reverência, ou sequer levantar a cabeça, sempre olhando para baixo, parecendo aterrorizados em lhe dirigir a palavra, e enfim terminando com o relatório do homem de uniforme cinza.

O rapaz olhou para mim de cima a baixo (ou de baixo pra cima, já que eu estava deitada com o lado da cabeça pra baixo) com tédio e até desprezo, falou uma única palavra e todos eles se retiraram do quarto, nos deixando a sós.

Eu só podia esperar por algo muito pior por vir. Meu estado já era deplorável.

Sangue escorria dos meus tornozelos pelas minhas pernas e dos meus pulsos pelos braços por causa das correntes, e se misturava com suor, sem contar os vários pequenos arranhões. Isso era demais para ser apenas um delírio.

Fiquei pensando por um momento ridículo que confissões sob tortura deveriam ser bem frequentes. Eu estaria pronta para confessar que soltei bombas no hospital, ou até que tinha cometido assassinatos hediondos só pra me livrar disso e acabar com todo esse espetáculo.

— Eu não entendo o seu idioma… — comecei me justificando, mesmo sabendo que provavelmente seria inútil, e então fiz a única coisa que podia: Esperei. Ele então endireitou a maca de volta a posição normal até que eu ficasse quase sentada. Agora eu podia olhar melhor para ele, podia ver que ele era realmente muito bonito e jovem, me lembrava alguém famoso que eu não conseguia recordar agora quem seria.

Tinha os cabelos cor de palha encaracolados, o rosto fino e imberbe, mas acho que dificilmente alguém o acharia charmoso, pela expressão de profundo desdém que segurava. Mas quando parei para ver seus olhos, de um profundo lilás vivo e penetrante, senti-me sugada e invadida ao mesmo tempo pela intensidade deles, como se eles pudessem dizer mais sobre mim do que eu mesma, como se pudessem ler a minha alma.

E logo descobri que ele realmente estava fazendo isso, por que ele passou a sustentar o olhar com mais concentração, então de alguma forma, mesmo que eu quisesse, não conseguia desviar o olhar. A pressão era aterradora. Então com alguns minutos disso, ele finalmente falou:

— Então você vem do quadrante 87… que faremos com você?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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