DCC – Capítulo 29 – 3Lobos

DCC – Capítulo 29

A reunião

 

Eu esfreguei os olhos espantada. Todos na sala olhavam para mim, ainda aninhada nos braços de Henry. Senti minhas bochechas corarem violentamente, e me coloquei de pé em um salto. Todos ali pareciam cansados, mas ninguém definitivamente tinha ido dormir, e pelo visto estavam todos me esperando, me olhando com simpatia enquanto esperavam eu ir ao meu lugar.

Henry me levou a um lugar vago no outro lado da mesa, onde a gente não tivesse que ficar olhando diretamente para Marco, que parecia ter posto a cara mais irada e cansada possível para a ocasião, e estava pessoalmente medonho com profundas olheiras na cara usual de tédio.

Entregaram para mim um tradutor, que pudesse me permitir me comunicar. Acho que ninguém mais estava sabendo que eu magicamente comecei a falar o idioma de Keret. Quando todos sentaram-se, Iago começou a falar. Aparentemente era ele quem iria presidir a reunião.

— Então podemos finalmente dizer bom dia e feliz Ano Novo formalmente. Estamos nos reunindo aqui por causa das Relíquias, pela primeira vez em mais de sete anos. Como todos já sabem, aconteceu de nossa jovem amiga Alésia ser convocada pela própria Relíquia da Criação para ser a nova guardiã. E pela segunda vez na história, e segunda vez seguida, temos uma Brard como a escolhida.

Murmúrios de concordância se espalharam pela sala.

— As guerras xenofóbicas nos afetaram muito de várias formas — ele continuou — mas na minha opinião, a Relíquia ter escolhido deliberadamente uma Brard duas vezes seguidas é uma forma de nos mostrar que os Jomons não são tão soberanos quanto pensam. É uma forma de nos ensinar humildade, e nos preparar melhor para defender a guardiã e seu povo desses que tentam usufruir de seu poder.

Mais murmúrios entre os ouvintes.

— Por isso, eu peço a todos que tratem bem a nossa jovem guardiã, com bem mais cuidado do que foi dedicado a… bem, vamos nos esforçar para deixar o mais confortável possível essa tarefa difícil dela. Então… — ele pegou uma tela na mesa e procurou por alguma nota — então… ah, aqui está… a pauta que levantei esta noite para a reunião.

Ele ativou uma imagem digital que foi exibida no centro da mesa, mostrando a todos uma pequena lista de palavras que pareciam flutuar no ar.

— O primeiro tópico, é a identidade nova para ela. É bom que ela tenha uma nova identidade Jomon, para que possa andar livremente e não tenha que recorrer a subterfúgios sempre que se deparar com alguma necessidade. Segundamente, seria, com a graça do jovem mestre, a concessão para ela de um selo imperial, no nome dessa identidade. Isso facilitará quaisquer eventualidades que possam lhe ocorrer no futuro. O terceiro tópico é a passagem da Relíquia da Sabedoria. Creio que seria este um bom momento para passá-la adiante, já que apenas a Relíquia da Criação tenha passado de mãos. Foram esses os pontos indicados pelos presentes. Alguém tem mais algum a acrescentar?

O interessante é que todos se entreolharam, mas por fim todos os olhares pararam sobre Marco, como se esperassem a aprovação dele. Então ele suspirou profundamente e falou, como se fosse algo óbvio.

— Eu tenho um tópico a acrescentar! — ele disse e a atmosfera pesou por um momento de antecipação, então ele cruzou as mãos sob o queixo e se apoiou sobre a mesa, mas ainda exibindo uma postura majestosa e orgulhosa. — Eu gostaria de colocar em pauta a interdição de Henry Siever.

Eu prendi a respiração ao ouvir as palavras de Marco, e pude sentir Henry retesar ao meu lado. Quando virei para olhá-lo, pude sentir um instinto furioso cintilando em seus olhos.

— !!! — o Senhor Iago permaneceu calado por um momento com a boca aberta antes de enfim conseguir continuar lentamente, como se não tivesse certeza sobre o que deveria fazer — cer…to. Adicionado. Já podemos começar.

A primeira pauta demorou para ser decidida. A minha identidade deveria ser baseada em minha aparência física. Apesar de minha raça ser bem genérica e comum, ainda era um pouco difícil de me alocar como algum Jomon. Principalmente porque nenhum deles sabia exatamente qual era a minha subespécie, e nem deveriam saber, para manter o segredo do meu planeta de origem mais protegido ainda, e evitar outra tragédia como a das grandes guerras xenofóbicas. Então, contanto que ninguém tivesse acesso ao meu sangue e fizesse uma busca genética, essa parte estaria segura.

Finalmente, decidiram pela proposta de criar um registo de imigrante Brard a partir de um orfanato interplanetário que surgiu logo após o fim da guerra para acolher crianças refugiadas, no qual um dos membros da banca, um senhor chamado Elias, tinha contato. Eu teria o registro com a data de nascimento desconhecida. Assim, desde que não escancarasse a minha idade, eu não deveria chamar atenção mesmo que tivesse uma longevidade superior.

A segunda pauta foi apenas mencionada. Assim que Iago acabou de relê-la, todos viraram-se para Marco, e ele retirou arrastado um pequeno objeto do bolso, e o atirou para Elias, sem dizer nada. Tomando o assunto por encerrado, Iago deu prosseguimento à reunião. Então veio o terceiro tópico. Eu senti a aura do poder de Marco circular ao redor da minha mente me relembrando do que eu deveria fazer.

— Então sobre a passagem da Relíquia da Sabedoria, há de se decidir quem dos dois deverá ficar com a posse prioritária dela, mas creio que todos concordem aqui que o responsável principal deva ser Henry, pela sua maior experiência.

Murmúrios de concordância ecoaram pela sala. Eu não pude deixar de imaginar que, por “experiência”, eles queriam dizer “por que ele é Jomon”. Assim que todos mostraram concordância, Iago continuou:

— Então, como é unanimidade, poderia o jovem mestre…

— Desculpem, mas eu não concordo… — eu disse de meu lugar, e todas as cabeças se viraram pra mim. Inclusive a de Henry. Eu apertei a mão dele por baixo da mesa, e esperei que ele não me contrariasse no que eu fosse falar. — Eu gostaria que a Relíquia da Sabedoria continuasse mais tempo com Marco.

Henry deixou o queixo cair. Ele sabia que eu estava mentindo. E apesar da minha má fama em meu planeta, essa foi a primeira vez que eu realmente mentia, ainda mais na frente de tantas pessoas sobre um assunto tão importante.

Agora as cabeças giravam freneticamente de mim para Marco e de Marco para mim. Todos esperavam que eu falasse mais. Ao que se sabia, a opinião do Imperador era a mais valiosa de toda a galáxia, e o que ele falava sempre acontecia de ser o certo a se seguir, por casa de seus poderes milagrosos.

— Mas… me desculpe Alésia, você não deve saber, mas o jovem mestre só ficou responsável pelas Relíquias após a morte da guardiã anterior, por se tratar da esposa dele, e por ele possuir a melhor segurança que existe, para protegê-la na ausência de um guardião — Iago falou de forma tão suave, que eu senti como se ele estivesse com medo de falar algo que pudesse ofender Marco.

— Eu sei disso… — tentei continuar.

— E depois, é um acordo entre todos, do qual o jovem mestre também consente, que as Relíquias devem ser mantidas longe de pessoas que estejam ligados a governos — Iago interrompeu.

— Eu sei disso mas… — eu não sabia como rebater. E não me esforcei além disso. Já havia feito o que Marco havia pedido. Havia mentido dizendo que achava que a Relíquia deveria ficar com ele.

Mas Marco foi mais rápido:

— Então acho que deveríamos decidir a última pauta da reunião antes dessa — ele disse mansamente, ainda sem levantar os olhos da mesa. — Como conferir dois dos objetos mais importantes da galáxia para alguém emocionalmente instável como Henry?

— Como se atreve? — Henry chegou a se levantar da cadeira. Eu apertei com força a mão dele tentando impedi-lo de se descontrolar.

— Não dê a ele motivos para ele dizer que está certo! — eu sussurrei para Heny assim que consegui fazê-lo se sentar.

— Todos aqui estão cientes de que Henry passou quase sete anos isolado do mundo por vontade própria, em razão de um quadro depressivo intenso — Marco começou a falar — Ele não demonstrou realmente qualquer interesse em manter o status de guardião, ao ponto de que eu duvidei que ele pudesse manter a segurança de sua própria vida. Até onde se sabe, ele não falou com ninguém, por momento algum sequer durante esse tempo e meus guardas sempre relatavam momentos de tensão ao ouvir os gritos e a destruição que ele causava dentro do apartamento em que ele mesmo se confinou. A única razão dele ter saído foi a nossa jovem aqui ter conseguido, por alguma razão inexplicável, quebrar a barreira que ele estabeleceu na porta do apartamento em que ele residia, e tirá-lo de lá.

— Mas… — Cásira interrompeu Marco, mas ruborizou intensamente assim que fez contato visual com ele desviando imediatamente o olhar — Henry saiu! É uma melhora! Ele sofreu muito com o luto dele. Temos que dar a ele uma oportunidade de recomeçar a vida.

— Então até que ele me prove que está emocionalmente apto a viver por si só e não ser uma ameaça para si mesmo, ou para a nova guardiã de quem ele tem a guarda, ou mesmo para os civis que por ventura cruzarem seu caminho, eu serei a favor de pedir que ele seja interditado e mantido sob vigilância constante.

— Você não pode fazer isso! Você é quem mais faz mal a ele! — Eu urrei de minha cadeira sentindo a raiva contra Marco crescer novamente.

Henry não disse nada. Estava completamente furioso e encarava Marco com intensidade e destemor, que até o momento não havia movido nada além da boca para falar. Mas todos pareciam parar de respirar ao me ouvir gritar com o imperador. Tipo assim: Gritar. Com. O. Imperador!

— Eu também não considero que seja sensato manter a guarda da garota sob a tutela de Henry neste momento. — Marco completou.

Eu senti a minha boca abrir em choque! Porém, dessa vez foi Henry quem levantou a voz irado:

— Qual o seu problema comigo afinal? Por que dedica seu tempo a fazer da minha existência um inferno? Afinal só falta tomar de mim a minha vida, não é mesmo? Todo o resto que você conseguiu, você roubou.

Marco suspirou, levantou os olhos da mesa e encarou Henry com um sorriso cruel.

— É você mesmo quem faz isso consigo e essa sua mente fraca. Veja um exemplo: é só você conviver mais tempo com essa mulher que estará completamente apaixonado.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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