DCC – Capítulo 28 – 3Lobos

DCC – Capítulo 28

Ano novo

 

Eu não entendi a surpresa dele, mas a ficha caiu logo depois que Isaac falou:

— Eu pensei que você não falasse nosso idioma! — disse ele encantado — Papai até 00tinha proibido a entrada de convidados com pontos tradutores, para impedir que alguém detectasse seu idioma natal e pudesse limitar ao máximo o número de pessoas que saibam qual seu planeta de origem… nem mesmo eu pude saber.

Dessa vez quem estava surpresa era eu mesma! Afinal que diabos estava acontecendo? Como assim eu simplesmente comecei a falar em outro idioma sem nem sequer perceber?

— Você abriu aquela coisa que está guardando? — Henry perguntou contrafeito.

Parecia que eu tinha quebrado algum conceito que ele tinha sobre o que era normal ou não. Eu sacudi a cabeça energicamente negando, e ele continuou:

— É interessante como você faz essas coisas extraordinárias do nada… — ele continuou sorridente — mas agora que venho reparar, as memórias estranhas que você dizia ter, talvez sejam um acesso mágico que você tem ao conhecimento de suas vidas passadas.

Eu fiquei aturdida com essa teoria. Isso era uma boa explicação para as coisas que lembrava, sentia e sonhava. Mas nunca tinha me sentido uma pessoa tão extraordinária ao ponto de “lembrar” um idioma inteiro que eu nunca tinha estudado. Eu tinha aprendido duas ou três frases feitas, mas isso não era todo um vocabulário fluente. Eu também nunca tinha sido excepcional nos estudos. Tinha minhas ambições, é claro, e tinha minha própria estima, mas nunca pensei que fosse pender para essas coisas mágicas. Porém, aquela sensação estranha de ser comparada com a Nádia me preencheu o peito de novo.

— Certo, eu posso ter, como você disse, acesso ao conhecimento de minhas vidas passadas… mas eu não sou a Nádia.

Henry fez uma careta, ele não esperava ouvir algo assim.

— Claro que não é! As pessoas nesse universo são únicas, e mesmo quando se tratam de reencarnações, elas dificilmente têm a mesma personalidade, sequer os mesmos pensamentos sobre o mundo. Quando uma pessoa morre, a alma dela vira um tipo único de energia que pode ser impregnada a outro ser vivo. E quem é mais sensível, consegue decifrar o rastro da energia acumulada pelas várias vidas anteriores e ter acesso às memórias e conhecimentos adquiridos… é como se…. — ele parou para pensar em algo que pudesse comparar — é como se você tivesse um acervo de tudo o que essas pessoas foram antes de você, e pudesse ler e pesquisar a vontade. Mas todo bom livro não transforma os leitores em seus personagens, apenas os faz aprender mais.

— Hum…

Eu nunca tinha tido acesso a esse tipo de informação sobre almas ou qualquer coisa relacionada a magia antes. Mesmo por que, magia era uma coisa muito… Jomon. Os humanos começaram a descobrir como manipular esses poderes quando passaram a viver tempo suficiente para isso. E apesar de ser recorrente entre os Brards há milênios… havia ainda um certo estigma contra a magia entre nós. Minha mãe com certeza teria sido veementemente contra, sempre dizendo que não havia nada em magia que a tecnologia não pudesse suprir. Mesmo eu nunca havia tido motivos para discordar.

Além disso, fazia um bom tempo que eu não me sentia animada em conversar ou participar de conversas. Poder falar e ser entendida por outras pessoas era um alívio.

[…]

A contagem do tempo era diferente em Keret, e mesmo que não fosse, a noite era muito longa. Então quando terminou a segunda hora, eu já estava exausta. Um novo dia só passava a ser contado quando o sol nascia na capital. Um dia tinha trinta horas: as quinze do dia, e as quinze da noite. Quando o relógio marcasse quinze horas da noite, seria finalmente o nascer do sol, e o dia primeiro do primeiro mês do ano novo começaria.

Então a tal reunião com as pessoas que conheciam o segredo das Relíquias só seria realizada depois do discurso de Marco. A última tinha sido realizada, segundo eles, há quase oito anos imperiais, assim que Nádia morreu.

Antes que pudesse me conter, e sem nenhum pudor, eu simplesmente me recostei na poltrona que estava ao lado Henry e Isaac quando terminamos de conversar e dormi, encolhida. Coloquei os pés sobre o assento e abracei minhas pernas. Ainda não tinha me acostumado com esse ritmo tão longo de um único dia, afinal era quase o dobro do tempo que tinha um dia em meu planeta.

Na sétima hora da noite, todos os convidados do salão haviam saído para a varanda de novo, para ver o tradicional show de luzes do céu. Uma infindável coleção de canhões de luz, lasers, refletores e geradores de hologramas, criavam desenhos e imagens por todo o céu, exibindo formas espetaculares, coloridas e diversas, inspiradas numa retrospectiva do ano.

Eu acordei com o barulho de exaltação da multidão do lado de fora. Vi um pedaço da apresentação da varanda, mas ainda tinha sono demais para conseguir me interessar o suficiente para assistir de perto. Henry era o único que ainda estava dentro do salão ao meu lado.

— Por que você não foi pra lá com todos? — perguntei sonolenta.

— Eu não tenho interesse por essas coisas… — disse ele visivelmente entediado — e pelo visto nem você.

— Ah… é por que as festas que eu… eu… — tive que parar para escapar um grande bocejo — que eu gostava de ir, eram dançantes. A música daqui é bonita, mas não é para divertir… e mesmo que fosse, que propósito eu teria pra dançar aqui?

Henry sorriu compreensivo, e eu me arrependi quase imediatamente de ter falado aquilo. Parecia que eu estava tentando ganhar um pouco de simpatia ou pena. Estremeci um pouco com a ideia. Ainda me sentia instável.

— Você quer ir embora? — ele sussurrou, como se estivesse planejando uma grande travessura — nós já viemos a festa, e depois… essa reunião era apenas para apresentar você a eles, e se eles já te conhecem, não temos motivos reais para continuar aqui… todo o resto pode ser resolvido depois.

Eu demorei um pouco pra absorver realmente o que ele estava dizendo.

— Não vamos procurar mais problemas desnecessários com ele… — eu disse com a voz arrastada — eu estou bem, e do jeito que Marco é, ele pode vir nos criar  problemas. Você não sabe quando terá outra oportunidade de conversar com Isaac.

Henry soltou um meio riso, meio suspiro — Então foi isso que ele te disse… — Henry sussurrou, e para minha surpresa, ele puxou minha mão e me aninhou firmemente em seus braços quentes e me prendeu em um abraço — … devo ser mesmo patético… — depois de um tempo, eu reparei que ele não me soltava. Tentei forçar me afastar dele, mas o que era minha força perto de alguém capaz de quebrar uma pesadíssima mesa de pedra com um único soco? Se ele não quisesse me soltar, então eu não teria como evitar.

O sono acabou sendo mais forte, ainda mais contando o quão confortável era o contato com o corpo de Henry, acabei adormecendo o resto da noite entre os braços dele, e quando finalmente abri os olhos, o sol já brilhava do lado de fora.

— Ela já acordou! — exclamou o senhor Iago Kairoh do outro lado de uma enorme mesa com cadeira para todos, que tinha sido colocada enquanto eu dormia.

— Então podemos começar? — Marco perguntou impaciente, sentando-se em uma das pontas.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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