DCC- Capítulo 27 – 3Lobos

DCC- Capítulo 27

Filho de dois pais

 

Depois de várias longas respirações ofegantes, Marco finalmente me afastou. Eu passei o dorso das mãos sobre meus lábios e os esfreguei com força, tentando demonstrar ao máximo o nojo que eu estava sentindo por ter feito isso com ele.

— O que esperava conseguir com isso? Que eu aprovasse o que me pediu? — Marco finalmente mostrou uma cara feia, irritado e ofendido. Quem em toda a história das raças humanas havia sequer chegado perto de surpreender um imperador onisciente?

Eu já esperava por isso, e cuspi a resposta pronta para rebater ele:

— Você disse que me daria o que eu pedisse em troca de um beijo satisfatório. Pela sua reação, você não pode mais dizer que não gostou.

— E daí? — ele retrucou furioso, mas parecia estar mais perdido do que eu estava quando estava presa sob o encanto dele — eu ainda não…

— Você, “majestade”…. me propôs um acordo! Eu cumpri a minha parte, e fiz meu pedido e paguei com o beijo. Se você não acatar, então não será como se tivesse mentido para mim? — Eu fiz questão de enfatizar cada uma das palavras. — E eu que pensei que o Imperador não poderia nunca mentir em hipótese alguma para ninguém, ou seus poderes fraquejariam… Eu já fiz o meu pedido, e paguei o preço. Não aceitar seria o mesmo que quebrar a sua promessa.

A fúria estava estampada em cada pequena linha de expressão no rosto de Marco. Então ele imitou o mesmo gesto que eu, esfregando com força o dorso da mão nos lábios, e se afastou. Ele olhou-se no grande espelho e arrumou suas vestes, que tinham ficado levemente amarrotadas.

— Você vai se arrepender disso ainda… — ele respondeu, com nada menos que desprezo em sua voz. — Eu aceitarei o que me pede por hora, mas você deve cumprir o que eu pedi sobre a Relíquia da Sabedoria e sob circunstância nenhuma deve comentar com qualquer pessoa que seja sobre o acordo que fizemos aqui, e sobre qualquer coisa que tenha sido feita por ele.

— Eu tenho a sua palavra? — eu insisti em busca de mais uma confirmação.

— Hmpf… como se eu precisasse reafirmar qualquer coisa que eu diga!

E sem esperar por mais nada, eu simplesmente dei meia volta e sai do camarim e corri direto para o lavabo mais próximo, deixando ninguém menos que o imperador com o orgulho despedaçado para trás.

Meu sangue estava vibrando em fúria. Minhas mãos tremiam e senti meu corpo convulsionar levemente, enquanto eu podia sentir os objetos ao meu redor tendo suas energias roubadas, e algumas luzes falharem e começarem a esmaecer, depois piscar até finalmente apagarem. Mesmo a temperatura despencou rapidamente, e cristais de gelo começaram a se formar em cima das superfícies.

Eu levei um bom tempo tentando me concentrar em estabilizar meu corpo e minha mente. De alguma forma eu estava sentindo meu corpo diferente agora. Quando finalmente minha respiração se uniformizou e eu pude controlar minha raiva, pude sentir as vibrações da energia da Criação se contorcendo e aos poucos diluírem até voltar a ficar estáveis no meu corpo. Parecia que a sensação que eu tinha de mim mesma tinha mudado completamente. Eu me senti… maior. Como se eu estivesse guardando algo grande demais dentro de mim que quisesse sair. Bom, eu estava fazendo isso mesmo… não estava? Acho que essa Relíquia da Sabedoria tinha mais impacto do que aparentava.

Em algum lugar do lado de fora, ou em todo lugar do palácio, ressoou um altíssimo som semelhante a um badalo. Pude ouvir a multidão do lado de fora exaltar-se em euforia. Estava acabando a última hora do dia. Faltavam as quinze horas da noite para o ano novo. Quando voltei para o salão, Henry ainda conversava animadamente com Isaac. Todos os outros tinham se adiantado para o beiral da varanda, e eu os segui. Henry recostou-se no batente ao meu lado, com Isaac o acompanhando.

Eu sorri para eles, e contemplei o mar de cabeças multicoloridas que se estendiam pelos enormes jardins do palácio e percebi que todos olhavam para várias direções específicas dessa vez.

— O imperador se posiciona em um trono preparado para ele na frente das fontes, e recepciona pessoalmente todos os representantes dos diversos quadrantes imperiais. Como é muita gente, ele sempre utiliza pelo menos trinta autômatos bio sensoriais. Então é como se ele estivesse em vários lugares ao mesmo tempo! — Isaac falou, olhando para mim — Pai Marco é incrível mesmo… uma pessoa normal consegue usar um, no máximo dois autômatos desse tipo, isso se não se mexer! Mas ele usar trinta, e está lá pessoalmente na fonte principal, veja!

— A festa de ano novo é simplesmente uma oportunidade para o imperador mostrar os alcances de seu poder para os afiliados ao império — disse Henry.

Eu senti novamente um leve desarranjo dentro de mim ao ter que ouvir falar de Marco novamente. Ainda mais tendo que ouvir sobre como ele era tão anormalmente poderoso.

— Alguém já conseguiu pegar algum imperador de surpresa? — perguntei vagamente interessada, tentando mover a conversa para um tom mais impessoal, e não especificamente sobre Marco.

Henry travou as sobrancelhas e me olhou com suspeita. É claro que ele deveria ter percebido as flutuações na minha energia, mas pensou seriamente sobre uma resposta:

— Tecnicamente é impossível… a pessoa deveria ser versada em um tipo de magia muito poderosa para conseguir se aproximar sem ter os pensamentos detectados, ou os movimentos bloqueados por um onisciente. E depois, aquele que assume o fardo de imperador sempre coloca sobre si mesmo uma barreira mágica invisível, impenetrável e inquebrável, que impede qualquer um de sequer tocar nele… — então Henry se aproximou mais de mim para que mais ninguém o ouvisse falar — … o que torna incrível o fato de alguém, por exemplo, conseguir dar um tapa no rosto dele ao ponto de fazê-lo perder o equilíbrio e cair.

Eu sorri sem jeito… nunca tinha imaginado que o que fiz foi algo “tão grande”… eu estava pensando sobre isso como no máximo desafiar uma autoridade.

— O que ele disse a você? — Henry perguntou depois de um tempo. Eu olhei para ele com uma expressão vazia e cansada. Como adivinhei, Henry tinha percebido que havia algo errado. Quem melhor que ele para perceber o desarranjo de minha energia interna enquanto estivesse por perto?

Mas eu não soube o que responder. Eu não queria explicar que Marco havia determinado que eu não deveria contar nada a ninguém, mas eu também não queria falar sobre. Também não tinha como transmitir a Henry qualquer informação sobre o plano da Relíquia da Sabedoria, sem chamar a atenção dos outros. Mas se eu não falasse nada… Henry passaria o restante da noite imaginando o que diabos Marco haveria de ter feito comigo.

Então eu o puxei para um canto da varanda, e sem dizer nada, apontei discretamente para o interior do decote de meu vestido. Henry levantou a sobrancelha confuso. Eu insisti, e ele se aproximou para olhar. Então disfarçadamente mostrei o relicário preso entre meus seios.

— Ah! — ele exclamou e uma luz de compreensão brilhou em seus olhos. Então ele passou o braço sobre meus ombros e se abaixou até estar com a boca ao lado da minha orelha. Senti meu rosto esquentar tremendamente com a proximidade, mas tive quase certeza que foi por causa da vergonha. A aproximação dele me fez relembrar o beijo. Henry apenas tinha se aproximado para sussurrar em meu ouvido — Eu fiquei preocupado imaginando o que ele estaria fazendo para implicar com você. Não deixe ele te perturbar quando ele vier falar contigo, ou ele vai usar qualquer coisa que esteja ao alcance dele para te magoar de alguma forma.

— Não sou tão frágil assim… — eu reclamei afastando o braço dele e virando o rosto para o outro lado. Não queria ter que encará-lo, — Não fui eu quem saiu perdendo no nosso pequeno “encontro” de hoje…

Henry não fez mais perguntas. É claro que ele entendeu que algo tinha acontecido, mas ele também podia sentir que ali não era o momento para conversar sobre o assunto.

— Esqueça sobre isso! — ele disse tornando a me puxar pela mão para o divã onde ele estava conversando com Isaac anteriormente, junto com o garoto. O menino era muito simpático, a despeito de quem o havia criado. Como eu suspeitei ele era muito mais velho do que eu. Tinha quase quinze anos imperiais, o que o deixava com quase o dobro da minha idade atual, mas era definitivamente um pré-adolescente em sua aparência e modo de falar.

Pelo que eu entendi, ele crescia muito rápido para uma criança Jomon. Como a mãe dele havia sido uma Brard, ele era mestiço e cresceria mais rápido que o normal para um Jomon de raça pura. Porém, ao contrário do que eu poderia esperar, Isaac explicou que quando o corpo dele atingisse a maturidade, seria mais semelhante a um Jomon do que um Brard, inclusive na longevidade.

— Eu sempre soube que Henry também era meu pai. Pai Marco sempre me explicou que o motivo pelo qual não pudemos ficar juntos nenhuma vez antes, foi porque pai Henry estava muito doente do coração, e quando estivesse bom de novo, nós poderíamos nos encontrar — Isaac começou a explicar para mim a sua história familiar. Henry olhava para o garoto com uma expressão pensativa. Isaac evidentemente gostava e respeitava muito Marco — Ao contrário do que muita gente pensa, pai Marco sempre me deu muita atenção mesmo estando sempre ocupado. Ele me tratou muito bem, como se eu fosse seu próprio sangue. Ele sempre me deixa por perto quando pode, e quando não pode, ele ativa um autômato para me fazer companhia. Ele inclusive me ensina sobre a onisciência pessoalmente, mesmo sendo tão ocupado.

Eu olhei para Henry imaginando se ele teria alguma reação sobre essas palavras. Mas o menino também era um fã irreparável do trabalho de Henry. Quando não dedicava seu tempo estudando Onisciência, lia tudo o que conseguia sobre Bioengenharia Médica, principalmente sobre os trabalhos de Henry.

Eu escutei quietamente, enquanto Isaac parecia estar se gabando alegremente de ter dois homens fantásticos como pais. Homens inteligentes e poderosos além de qualquer outro. Ele estava realmente bastante orgulhoso. Será se ele sabia como eram as personalidades desses dois enquanto ele não estava por perto… ou mesmo a história da sua família, e da mãe dele?

Eu ainda não havia falado uma palavra, quando Isaac começou a querer conversar sobre as Relíquias. Ele tinha bastante curiosidade e começou a me perguntar sobre os efeitos colaterais da Relíquia da Criação.

— Foi bem difícil no começo, mas agora acho que vai dar pra suportar… — eu respondi a Isaac, esperando que Henry traduzisse meu idioma.

Porém, Henry não traduziu. Olhava para mim de queixo caído, completamente surpreso.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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