DCC – Capítulo 26 – 3Lobos

DCC – Capítulo 26

Tomando uma decisão

 

Eu não sei o que diabos se passou na mente desse homem para ele conseguir criar tal ideia. De repente senti meu rosto se tornar muito, muito quente. Como um homem pode ser tão cretino, mesmo sendo alguém tão importante? Ou melhor… PRINCIPALMENTE SENDO ALGUÉM TÃO IMPORTANTE???

Qualquer bom pensamento que pudesse vir a ter por ele haver remotamente se preocupado com a minha segurança e a de Henry ao tentar fazer um embuste para a Relíquia da Sabedoria foi varrida da minha mente. Era óbvio que, como Henry havia dito, os únicos hobbies dele eram brincar com os sentimentos alheios, e nos usar como peões para seus próprios planos. Acho que nesse momento nunca senti tanto desprezo por alguém.

— Eu lhe proponho um acordo… — ele continuou sorridente e voltou a se sentar, cruzando as pernas, e pousou elegantemente com as mãos entrelaçadas sobre o joelho, fazendo questão de “não perceber” minha repulsa, — Eu lhe concedo o perdão sobre o ataque que me fez e ao mesmo tempo um favor imperial, e você me dá um beijo que seja satisfatório, que me diz? — Ele sorriu como se a oferta fosse imperdível e irrecusável.

Eu ri.

— Qual o sentido disso? O que eu poderia querer de você? — eu ironizei.

É interessante pensar que ele estava simplesmente me oferecendo um favor imperial sem razão nenhuma. Um pedido que o Imperador em pessoa estava prometendo! Que espécie de brincadeira era essa? Antes, quando eu tinha uma vida normal de garota normal, eu talvez nem sequer pensaria duas vezes sobre aceitar… afinal o que era um reles beijo? Mas isso era numa condição onde eu não o conhecia, e nem estava tendo isso tirado de mim como uma chantagem. Isso era tão imoral que eu sequer consegui levar a sério.

— Tantas coisas são possíveis com o aval do imperador, minha cara, que um acordo desses é mais valioso do que muitos planetas inteiros. — Então ele se inclinou para frente sinuosamente em minha direção, e eu senti novamente a pressão angustiante que aquele olhar misterioso dele possuía, me prender ao ponto de eu não conseguir me mover — Fora que mesmo que não queira nada para você, o que a impediria de pedir qualquer coisa pelos outros? Não seria uma pena se a breve felicidade de Henry ali fora nunca mais se repetisse? Posso sentir a emoção dele tomando forma daqui… — eu comecei a tremer e forçar meu corpo a se soltar daquela aura perversa dele. Ele falava como se fosse um demônio da tentação — Ou talvez, seria uma pena se, por acaso, houvesse uma queda nos investimentos direcionados para Sátie… as pessoas de lá sofreriam tanto com uma recessão repentina.

— Você é um covarde… me deixe ir! — eu rangi os dentes para falar.

— Deixarei… — ele se levantou e deu a volta por mim, e se colocou na saída da sala. Eu não estava mais em contato visual direto com ele, mas ainda sentia a pressão esmagadora que o olhar dele causava, sem conseguir fugir, sem conseguir sequer respirar direito — Eu sou bastante razoável… basta que concorde comigo e faça o seu pedido… não é muita coisa que eu quero em troca.

— Mas você obviamente quer condicionar o meu pedido para algo que você quer que eu peça… você está me obrigando a ficar aqui! — Eu estava cada vez mais nervosa — e por que iria um beijo meu? Não é como se eu fosse grande coisa para você!

— Com certeza você não é grande coisa — ele concordou como se eu tivesse comentado algo ridiculamente óbvio — Você é simplória e sem grandes atrativos. Então eu pensei… que tipo de ponto fraco pode ter alguém tão simplória como você? —  A malicia na voz dele mesclava-se com uma sombra de perigo. — Eu não vou deixar por menos o que você fez, nem que para isso o único que tenha que sofrer seja o seu precioso e querido porto seguro Henry… afinal, desde o começo você ficou aqui achando que, se me distraísse, poderia conseguir comprar mais tempo entre ele e Isaac…

Eu já estava começando a me sentir tonta e assustada. Ele não era realmente alguém com quem se podia brincar. Desde o começo ele estava controlando a situação. Ele tinha lido qualquer ideia e pensamento e memória que tinha passado por minha mente, voluntária ou involuntariamente. E com esse poder inconveniente dele, ele também estava me esmagando com a pressão horripilante que o olhar dele causava. Só conseguiria sair daqui dando a ele o que ele queria, ou esperando que alguém aparecesse para intervir.

Alguém aparecer para intervir? Que piada… quem desafiaria o imperador? Todos baixavam a cabeça e ficavam submissos perante ele.

— Você só está querendo dizer que vai me dar o direito de escolher entre sofrer alguma condenação absurda ou ser perdoada em troca de um beijo… não tem como ser só isso… — argumentei tentando não expressar o pânico na minha voz enquanto forçava cada célula do meu corpo a se livrar daquele travamento.

Marco parou na minha frente, a menos de um passo de distância e inclinou-se até ficar cara a cara comigo, quase mostrando um sorriso amistoso.

— Claro que não é só isso… mas isso ainda não é da sua conta. Então, sua resposta?

— Por que? — eu gemi tremendo, sem conseguir sair do lugar — O que você quer de mim?

Um beijo não seria nada demais. Eu já havia beijado outras pessoas antes, mas mesmo assim… eu estava sentindo aquela sensação de perigo revirando nas profundezas da minha alma. E o que poderia ser mais perigoso do que estar indefesa em uma sala trancada com alguém que não poderia ser parado? Eu estava nesse mundo há pouco tempo para ser capaz de desejar qualquer coisa que viesse a ser útil, ou que no mínimo não fosse imprudente… mas o que eu mais temia, é que ele deliberadamente estava me forçando a desejar alguma coisa. Isso era descaradamente uma forma de fazer minha “escolha” se voltar contra mim um dia.

Era uma armadilha. Era mais do que óbvio que era uma armadilha. O problema não era o beijo. O beijo nada mais era que um selo para um contrato malígno. O problema era esse contrato. E essa maldita pressão me impedindo de raciocinar direito, tendo que fitar aqueles olhos lilases enquanto sabia que ele estava ciente de tudo o que estava em meus pensamentos.

E afinal, que resposta eu poderia dar então? Se ele realmente cumprisse esse tal desejo, haveria sempre a possibilidade de ser pelos termos dele. Então eu nunca teria nenhuma vantagem nisso. E escolher por não pedir nada? Ele poderia muito bem alegar alguma das chantagens anteriores dele para me forçar a pedir algo que ele quisesse que eu pedisse.

Marco assistia meu debate silencioso sem se mover, mas começou a imitar um metrônomo como se medisse uma contagem regressiva “tic-tac, tic-tac…”. Ele estava deliberadamente querendo desequilibrar minha mente e enevoar meu julgamento.

A raiva então cresceu mais forte e sólida dentro de mim, e controlou meus pensamentos. Belisquei minha própria pele, tentando distrair meus sentidos daquela pressão que me impedia de me mexer e movida pela impulsividade, despejei em cima dele a primeira coisa que saiu da minha boca.

— Eu quero o direito de tomar as decisões sobre a minha própria vida, sem que você se meta! — eu respondi urgente.

Marco levantou uma sobrancelha e o sorriso vacilou por uma fração de segundo. Depois ele se levantou e rebateu com o tom de voz zombeteiro:

— Que espécie de pedido é esse? Como se você tivesse maturidade ou mesmo a capacidade de decidir alguma coisa sobre qualquer coisa. Se eu achar que devo me meter, em que, neste universo eu não intervi… — mas ele não chegou a terminar a frase. Eu saltei sobre ele do lugar onde estava assim que, de alguma forma, recobrei meus movimentos.

Eu envolvi meus braços furiosamente ao redor do pescoço dele, e colei meu corpo ao dele. Antes que ele pudesse reagir propriamente, já estávamos com os lábios entrelaçados dançando entre um e outro. Ele a princípio petrificou. As mãos rígidas seguraram com força os meus braços tentando me afastar, mas a resistência dele logo parou e aos poucos, suas mãos se moveram ao meu redor puxando minha cintura e me apertando mais ainda contra ele… então ele vacilou completamente e correspondeu ao beijo com intensidade.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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