DCC – Capítulo 25 – 3Lobos

DCC – Capítulo 25

A Relíquia da Sabedoria

 

Eu tinha certeza que se estivesse bebendo alguma coisa, eu teria me engasgado de novo. Mas que merda estava acontecendo com toda essa confusão afinal? Esposa de Marco? As relações ali estavam ficando cada vez mais confusas, e eu não sabia como começar a entender tudo isso.

— Nádia Maram… ela era muito simpática. A primeira Brard a ser escolhia guardiã de uma relíquia. Henry se dedicou muito em ajudá-la a viver, e quando conseguiu, eles estavam em um relacionamento apaixonado. — Marco voltou a assumir a expressão apática e entediada e enquanto falava, olhava para o lado de fora pela janela — Até aquele tempo, eu ainda não tinha assumido o Império, e eu e Henry éramos amigos… os melhores que haviam, — então ele se tornou pensativo — realmente é algo predestinado… — e riu ao dizer isso. — Então quando eu virei o Imperador, eu roubei a amada dele quando ela estava esperando por um filho dele, a fiz se casar comigo, registrei o menino com meu, e proibi Henry de se reaproximar dela.

Afinal, que merda era essa que ele estava me dizendo? Eu fiquei completamente horrorizada. E ele falou aquilo tão casualmente como se não fosse nada demais. Como se tivesse pregado uma peça infantil em um colega qualquer.

— Nádia adoeceu na gravidez. O corpo dela rejeitou as mudanças, mas ela persistiu em dar a luz e depois que o menino nasceu, ela não permitiu ser tratada para continuar a viver — talvez agora ele tivesse demonstrando uma pitada de sentimento, mas era raiva e não tristeza. Essa conversa estava se tornando algo muito surreal. — Ela ainda viveu bastante… mais de seis anos convalescendo. E quando chegou o dia em que ela morreu… Henry simplesmente entrou em colapso, e você nasceu!

Eu senti nojo de Marco nesse momento, ao ouvir a história dele.

— O que você quer me contando isso? Que eu tivesse certeza que “Vossa Majestade” não presta? Você acaba de confessar que arruinou a felicidade e a família do seu melhor amigo! — Eu não sabia como expressar minha repugnância crescente por ele em palavras, mas tinha certeza que ele saberia o que eu estava sentindo, — Por que você fez isso? Você pelo visto nem sequer amava ela! Parece que tudo o que fez foi apenas por ter inveja de Henry…

Eu perguntei por uma razão mas acho que não queria realmente saber uma resposta. Estava ficando enjoada.

— Inveja, hum? Realmente, pode-se dizer que sim… — Marco se inclinou para frente em sua cadeira, e parecia bem perigoso agora — mas por que eu fiz isso, e se eu a amava ou não, isso não vem ao caso, e nem é uma informação pertinente agora. Não viemos aqui tricotar sobre a vida trágica dos guardiões dessa geração. Faltam vinte minutos para a décima quinta hora do dia terminar e eu terei de sair… só voltarei depois da passagem do ano novo e não terei tempo de falar com você pessoalmente antes da reunião com os demais ali fora.

— Então diga o que quer afinal! — insisti. Sentia as profundezas das minhas entranhas revirarem ao conversar com ele. Queria sair dali o mais rápido possível.

— Desde que Nádia morreu, e Henry se tornou emocionalmente inapto a lidar com a responsabilidade de guardião, eu tomei pra mim a guarda das Relíquias da Criação e da Sabedoria. Nunca tive pretensão de me tornar guardião delas, mesmo por que como viu, a Relíquia da Criação estava esperando por você. Na reunião que virá, quero que você vote a favor que eu continue a guardar a Relíquia da Sabedoria.

Marco foi objetivo e direto ao ponto dessa vez. Porém, o pedido dele me pegou completamente de surpresa.

— Teoricamente a existência das Relíquias deveria ser um segredo dos líderes, e você quer ficar como guardião de uma delas?

— Não. — Marco se levantou, foi até o armário próximo e tirou de lá um relicário semelhante ao que tinha guardado a Relíquia da Criação quando ele a forçou pra mim — Você ficará com ela. Já inclusive a entregarei a você! — Eu senti o corpo retesar de medo, imaginando os efeitos colaterais que sofreria por ter mais uma dessas coisas comigo. — Abra quando estiver sozinha, ou dê para Henry, tanto faz… o que interessa é que a informação que saia seja a de que vai continuar comigo.

— Mas por que? — eu sem me conter, estiquei a mão para receber o relicário.

— Apenas um pressentimento que eu tenho de que isso será melhor para a segurança de vocês, e eu mesmo não posso contar uma mentira… Essa Relíquia, sob certas circunstâncias, nas mãos de alguém ambicioso e maligno, é a mais perigosa. Enquanto a Criação produz matéria e absorve calor, e a Transformação manipula a luz e altera as formas, a relíquia da Sabedoria cria a gravidade e acumula todo o conhecimento produzido. Todo ele, em todo o espaço tempo até agora. É como uma grande biblioteca, onde tudo o que um dia foi dito, escrito, produzido e ensinado ficou armazenado.

— Não entendo como pode ser a mais perigosa… — eu expressei, girando o relicário entre os meus dedos tentando sentir o objeto do lado de dentro. Não parecia ser um poder tão ofensivo.

— Claro que você não entende, você ainda é muito trivial — ele replicou sério. — O conhecimento é inútil nas mãos de quem não quer ou não sabe como usá-lo… mas um gênio psicopata colocando as mãos na fonte de todo o saber do universo… o que ele não poderia fazer? Ter acesso a tudo o que já foi dito sobre a vida, sua família, seu passado, e de todas as outras pessoas… tudo sobre tudo!

— Você é muito ofensivo para quem está pedindo um favor… — retruquei ofendida com o “trivial”, mas entendi o que ele quis dizer.

— Então não encare como um favor para mim. Encare como uma ordem! — ele replicou — De uma coisa você pode ter certeza: irá se arrepender se não fizer isso.

Ele me encarou profundamente, e eu sabia que tudo o que ele havia dito tinha que ser verdade, inclusive as ameaças, mas o fato de ele estar querendo se passar por um embuste me pegou completamente de surpresa. Então só pude suspirar vencida e prender o relicário escondido do lado de dentro do meu decote. Marco levantou uma sobrancelha, mas me observou calado enquanto eu terminava.

— Próxima coisa que eu quero, é que deixe a casa de Henry o mais rápido possível, se não imediatamente — ele falou com a expressão muito séria, como se o fato de eu estar hospedada na casa de Henry fosse muito mais grave do que a possibilidade da segurança de uma das Relíquias estar em risco.

— Posso saber o porquê? Não era teoricamente para os guardiões das Relíquias trabalharem juntos?

— Pelo que andei vendo na sua cabeça, você está se agarrando a ele por que acha que está sozinha nesse mundo — Marco disse diretamente. — Você acha que não tem parentes aqui, e que não tem mais ninguém com quem possa se dar bem, interagir ou manter uma amizade sincera… ainda mais com as limitações de idioma e de pessoas com quem você poderia se relacionar.

— E o que eu deveria fazer? Vir para o palácio ficar sob suas asas e ter todos os meus passos vigiados por você? — eu ironizei. Eu não podia fazer nada quanto a limitação de idiomas, apesar de achar bastante estranho que, em uma reunião com pessoas de diversas nacionalidades, nenhum deles usasse ponto tradutor, mas não iria usar isso como desculpa pra me impedir de interagir com os outros.

— Eu não diria que essa não é a melhor opção — ele respondeu. — Eu ainda não confio na sanidade de Henry. Ele ainda está muito desequilibrado. Pode se tornar uma presa fácil para qualquer inimigo.

— Mas que inimigos são esses? Quem são essas pessoas que querem pôr as mãos nas Relíquias e fazer uso delas de forma perversa? Não era para elas serem secretas? — eu disparei irritada.

Marco não respondeu. Passou um minuto inteiro olhando para as próprias unhas, parecendo decidir o que fazer, até que finalmente disse:

— Esses inimigos… a parte mais perigosa neles, é que eu não sei quem eles são… — Ele se voltou para a janela e olhou o lado de fora. O sol já estava quase se pondo — É alguém que sabe que eu, o Imperador, conheço o segredo das Relíquias, e intencionalmente se esconde de mim… — ele agora estava muito irritado ao falar isso. — Agora… como ele consegue fazer isso??

Eu imaginei que deveria ser impossível sequer pousar no planeta com intenções ruins sem que Marco ficasse sabendo, tendo ele controlado o poder da onisciência.

— Foram eles que causaram as guerras xenofóbicas! — eu disse recordando de repente, de uma lembrança que tinha brotado em minha cabeça e que tinha causado minha suspensão da escola, e senti-me impotente contra esse inimigo invisível que era capaz de manipular o povo a entrar em guerra.

— Interessante como sua mente funciona… você tem acessos remotos das memórias de Nádia… — Isso pareceu ser uma informação bem interessante para ele. — Então eu já sei como vou lhe cobrar pelo tapa que me deu.

Marco mostrou um sorriso sádico e cruel. Eu esperei com receio pelo que ele iria falar:

— Eu quero um beijo seu!

 


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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