DCC – Capítulo 24 – 3Lobos

DCC – Capítulo 24

Interações

 

— #@$%&#!  — se eu não estivesse bebericando a bebida quando ouvi, eu com certeza teria chamado menos atenção. A palavra “filho”, assim que saiu da boca da Cásira, entalou assim como o líquido na minha garganta. Eu tossi bastante e precisei de umas palmadinhas leves nas costas até me recompor.

— Issac é seu filho? — eu sussurrei rouca. Mas que merda de confusão é essa afinal?

Eu olhei pra o menino dos olhos amendoados e para seus cabelos que pareciam nuvens pretas. Agora que Cásira tinha falado, parecia que era uma informação óbvia. O menino era uma cópia mais nova de Henry. Uma ou outra diferença, mas definitivamente era como se fosse um irmão mais novo. Mas filho?

— Vá falar com ele! — Cásira insistiu puxando Henry pela mão — Aproveite que não terá ninguém aqui para te impedir ou te deixar nervoso pelas próximas várias horas.

Henry parecia completamente assustado agora.

— E… e… e o que eu digo para ele? — Ele olhou suplicante para a mulher — ele deve me achar um lixo… Marco deve ter virado a cabeça dele completamente contra mim!

Cásira respirou impaciente e se sentou ao lado de Henry, segurando o rosto dele entre suas mãos.

— Você sabe que nosso jovem imperador não pode contar mentira nenhuma para manter o poder dele no máximo. Ele não iria perder sua soberania apenas para manter o príncipe contra você. E você também sabe que, mesmo que ele se esforce, nosso jovem imperador não tem realmente nada a dizer contra você.

Henry baixou a cabeça e ficou olhando os próprios joelhos por um tempo. Eu o achei muito mais novo e frágil agora do que ele jamais tinha se mostrado para mim, com os cabelos amarrados deixando aquela expressão de quem não sabia o que fazer no rosto dele.

— Comece se apresentando… — eu sugeri sem saber o que mais dizer. Estava perdida naquela situação.

Cásira franziu as sobrancelhas. É claro que ela não conseguia entender uma palavra do que eu dizia, mas Henry me escutou e sorriu. Achei que ele iria falar que era uma sugestão ridícula, mas ele me surpreendeu:

— Tem razão — e se levantou. — Obrigado, meninas. Eu vou lá…

E foi. Os demais convidados de repente pareceram ter percebido o movimento e pareciam estar esperando por isso. Ninguém o interrompeu ou o chamou. Porém, Henry parecia um garotinho indo assumir alguma encrenca. Chegou até Isaac de ombros e cabeça baixa e apertava os dedos de uma mão contra a outra.

Depois eu sou a criança — não pude deixar de pensar. Isaac por outro lado, recolocou no rosto a expressão curiosa e foi bem receptivo e altivo. Ele realmente parecia estar esperando por algum movimento de Henry, e em poucos minutos os dois estavam sentados conversando.

Cásira então deu um sorriso educado para mim e se retirou para perto do pai. Todos conversavam animadamente com alguém, então eu fui me servir novamente na mesa de frios, e fiquei um tempo olhando o enorme jardim lotado à frente do palácio, por trás do vidro da varanda. O sol preparava-se para se pôr em breve.

Depois de um tempo parada olhando para a diversão alheia, reparei que um dos pajens que havia me recepcionado no saguão de entrada estava ao meu lado fazendo uma reverência exagerada.

— A senhorita poderia me acompanhar por um momento?

Ele apontava para a porta de acesso próxima de onde nós estávamos. Eu olhei ao redor e todos estavam entretidos em seus próprios negócios que não me cabiam. Henry no extremo oposto do salão ouvia com os olhos brilhantes uma história empolgada que Isaac contava. Não adiantava nada eu perguntar o que o pajem queria, porque ele provavelmente não iria me entender, então resolvi segui-lo. Era óbvio que ele tinha sido enviado para me chamar por outra pessoa, e era óbvio quem essa pessoa seria.

Marco estava em pé num pequeno altar sendo vestido com uma beca azul marinho por quatro camareiras. Eu encostei-me no portal da entrada da sala e cruzei os braços esperando. Marco era realmente muito bonito. Era um desperdício ser tão intragável. Assim que as camareiras terminaram, elas se retiraram e nos deixaram a sós.

— Você é uma garota muito rude… — disse ele avaliando-se no espelho. — Não deveria pensar tão mal dos outros antes de conhecê-los.

Eu acabei me esquecendo de novo da capacidade dele de saber o que os outros estão pensando e sentindo. Não haviam segredos para ele.

— Qualquer julgamento que fiz foi com base no que já vi de você pessoalmente.

Ele sorriu pelo canto da boca, saltou do altar, e sentou-se em uma das poltronas ao lado de uma janela, indicando para mim a outra em frente à ele.

— Tem algo que queira comigo? — perguntei aproximando-me, mas sem me sentar.

— Você é realmente uma aquisição bem selvagem… — Mas ele não estava mais com a expressão maldosa e de zombaria de sempre. Marco olhava para o lado de fora com o queixo apoiado no dorso da mão, como se tudo fosse extremamente tedioso e maçante.

— Se você não tem nada a dizer, eu vou voltar para a festa.

— E vai fazer o que lá? — ele perguntou — Você estava se cobrindo de auto piedade lá fora. Você parecia estar gritando em seus pensamentos tolos. Está se sentindo tão solitária assim?

— Eu não creio que isso seja da sua conta — disparei surpresa. Era realmente perturbador conversar com ele, como se sacudisse algo nas profundezas da minha alma.

— Acho que você está confundindo algumas coisas, menina… — Ele levantou o rosto e colocou de volta aquela expressão egocêntrica de superioridade indubitável. — Eu sou a pessoa mais importante que existe! Sequer pensar mal de mim é crime passível de condenação máxima. O que te faz pensar que você está acima das minhas leis? — A voz dele parecia não ter nada além de desprezo, — A necessidade de ter você como guardiã não exige necessariamente que você precise fazer uso de alguma liberdade para isso.

Eu encarei aqueles olhos profundos, e senti a pressão esmagadora me arrastando pela alma para dentro dos limites do poder dele, me prendendo no chão sem que eu pudesse me mover.

— Eu não sei se eu estou ou não acima das suas leis — mordi a língua tentando me concentrar e me manter forte — Você sempre aparece com esse poder como se estivesse sugando a minha alma, e invade meus pensamentos. Isso só me deixa com mais raiva e inquieta. Que você ganha me atacando assim? — Eu tentei me virar para sair, mas ainda não conseguia sequer dar um passo ou desviar dos olhos dele. — Agora me deixe voltar. Prefiro ficar solitária no meio daqueles estranhos, do que ficar aqui com você. Quem me colocou nessa situação foi você para começo de conversa… você… você me jogou nisso e sequer perguntou a minha opinião! Imagino o que de pior fez para Henry odiá-lo tanto… então se quiser mandar me prender, que mande.

Marco suspirou e me libertou de seu olhar.

— Sente-se — ele indicou novamente a cadeira.

— Eu vou voltar para a festa — disse trêmula, já dando meia volta para me retirar.

— Henry está tão feliz e animado lá fora conversando com Isaac. Seria uma pena se alguém aparecesse para chamar o garoto agora. Não acho que ele teria outra oportunidade tão boa para eles se verem tão cedo.

Eu parei. Mas que filho da…

— Não acha que deveria usar algo relacionado a mim para fazer uma chantagem?

— Eu até faria isso, mas creio que trazer Daril até aqui demoraria um pouco mais do que separar Henry de Isaac.

Eu me virei pra ele novamente, furiosa. Ele exibia uma expressão cansada de vitória.

— Muito bem, o que você quer? — mal consegui separar os dentes para falar.

— Para começar… quando for se referir a mim, não use nada menos que “Majestade” — pela expressão dele, ele falava sério —, a minha autoridade não pode ser contestada ou desafiada por ninguém.

Eu resmunguei em concordância e ele continuou:

— A outra coisa, como bem deve ter adivinhado, é a facilidade de te manipular pelos seus laços familiares. Mais alguém além de nós dois e Henry sabe de suas origens?

— Não… — respondi aborrecida.

— Todos lá fora são de confiança, mas seria prudente deixar essa informação indisponível para eles. Tivemos problemas com Nádia por causa disso… o planeta inteiro dela sofreu durante as guerras. Devido a isso, ninguém perto de você tem autorização de usar pontos tradutores, assim ninguém vai ter o registro do seu idioma.

Marco acabou capturando minha atenção dessa vez ao mencionar o nome de Nádia, e ele percebeu meu interesse, é claro.

— Então você já sabe sobre ela, não?

— Sim…

— O quanto você sabe? — ele perguntou curioso.

Acho que nem precisei responder, a expressão de compreensão passou pelo rosto dele enquanto ele escaneava minhas memórias que foram induzidas pela pergunta. Mas eu também não sabia muito. Apenas que ela era a antiga guardiã da Relíquia da Criação, ex-namorada de Henry e que morreu cedo…

— Não me surpreende que ele não tenha lhe contado toda a história… ela, a Nádia, era a minha esposa!

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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