DCC – Capítulo 23 – 3Lobos

DCC – Capítulo 23

Isaac

 

Eu acabei me assustando. Minha reação não passou despercebida quando virei minha cabeça para trás, olhando na direção de onde senti que vinha a voz incorpórea em meus pensamentos. Henry parecia ter pleno conhecimento do que tinha acontecido.

— Não deixe ele te perturbar… ele vem vindo ai! — Henry apontou para a entrada do salão.

Marco vinha entrando no salão, trajando uma versão mais elegante de suas roupas largadas de sempre. Usava uma calça creme com uma longa bata branca, cheia de incrustações e bordados, e uma coroa que consistia de uma argola branca na cabeça.

E ele vinha de mãos dadas com um menino de olhos amendoados muito vivos e cabelos negros que lembravam nuvens fofas.

O cerimonialista anunciou os dois com uma pomposa reverência.

— Vossa majestade, Quinto regente da dinastia Gionardi, o grande imperador Marco Gionardi e seu filho, o grande príncipe Isaac Gionardi.

Eu senti o queixo cair. O menino, se fosse da mesma raça que eu, teria uns doze anos no mínimo. Porém, ele estava sendo anunciado como filho de um Jomon, o que dizia que ele deveria ser pelo menos dez vezes mais velho do que isso. Ocorre que Marco não parecia ter idade suficiente para ter um filho daquela idade. Ele mesmo mal parecia ter vinte e três ou vinte e quatro anos em comparação.

O ambiente ao redor dos convidados se tornou repentinamente tenso. Todos fizeram suas reverências solenes ao imperador e seu filho e voltaram a atenção temerosos para Henry. Marco, que obviamente deveria ter sentido essa tensão, graças aos seus poderes, fez a ‘delicadeza’ de a ignorar.

Ele caminhou calmamente entre os convidados, encorajando Isaac a conversar e interagir com todos, mesmo assim, mantendo sempre sua postura egocêntrica. Quando finalmente se aproximou de Henry e de mim, com um sorriso cheio de dentes e uma animação completamente regulada, ou seja, uma perfeita cara de pau, falou:

— Vocês ainda não devem conhecer o MEU filho, Isaac… — disse com um olhar insistente e cruel para Henry. Eu percebi pelo tom de voz dele, que ele deveria estar tentando fazer algum tipo de provocação infantil. O aperto da mão de Henry ficou mais forte, como se ele estivesse tentando se conter — Mesmo tendo morado no palácio, você passou todo o tempo trancado sentindo pena de si mesmo e não chegou a conhecê-lo, não é mesmo?

Eu ainda não entendia muito bem como funcionavam as trocas de energia entre as relíquias, mas sabia dizer que Henry estava completamente furioso nesse momento. Ele apertou a minha mão com mais força ainda, como se esperasse que eu o segurasse. O calor que irradiava dele estava se tornando quase palpável ao nosso redor, como a parede de calor que o fogo forma quando começa a esquentar.

Algumas pessoas mais próximas chegaram a recuar, outras mantiveram-se a postos, apreensivas, e todos pararam de conversar para nos observar. Eu olhei para Isaac, quietamente parado ao lado do pai, e ele olhava Henry com curiosidade e timidez. Parecia ter o nariz tão empinado quanto o de Marco, mas pelo menos não estava tentando nos ofender. Então Marco olhou para mim.

— E veja que a selvagem está até que ajeitada hoje…

Eu previ o movimento antes que ele acontecesse, e me adiantei. Henry havia se insinuado perigosamente para Marco, e ainda chegou a estender o punho, furioso, mas eu me joguei no meio entre os dois e Henry se viu obrigado a parar. Mantendo-me o mais altiva que consegui, sem baixar a cabeça, ceder a postura, ou desviar o olhar penetrante dele, respondi a Marco, com uma frase decorada que eu tinha aprendido mais cedo.

— Obrigada pelo elogio majestade! — E sabendo que apenas ele e Henry entenderiam, pois provavelmente mais ninguém ali falava meu idioma eu complementei — Eu lhe faria um também, mas eu sei que não posso mentir em sua presença.

Então finalmente lhe fiz uma leve reverência delicada, girei o corpo e virei-me puxando Henry pra longe.

Eu o sentei em um elegante divã e busquei uma taça de vinho para ele. Henry praticamente a virou em um gole só, então eu voltei para buscar mais. Ele ainda estava irradiando muito calor, e tremia de raiva. Os demais convidados murmuravam uns com os outros, e faziam expressões submissas sempre que Marco se aproximava.

— Ele vai aproveitar cada momento da noite para me atormentar… eu sei que vai — disse Henry casualmente, acompanhando Marco com um olhar semicerrado, como se estivesse calculando qual seria o próximo movimento.

— Não ligue pra ele… ele é um idiota insensível! — Eu comentei. Ainda não entendia que ódio imenso era esse que Henry sentia por Marco, mas deveria ser realmente algo muito doloroso.

— Você também deveria ignorá-lo. Ele está escutando nossa conversa agora, mesmo que não pareça… ele não gosta que pessoas expressem suas opiniões negativas contra ele, mesmo sendo a verdade…

Eu imaginei que Henry estivesse falando isso para Marco, e não para mim. Henry levantou a cabeça e fixou seu olhar na direção onde ele estava. Por um momento achei que ele realmente ainda estava encarando Marco, mas na verdade seu olhar se dirigia para Isaac, que andava muito bem comportado ao lado do pai, quase uma miniatura da opulência.

— Por que… —  eu comecei sem saber o que ou como perguntar exatamente o que eu queria saber realmente — …o menino, ele lhe incomoda também?

O que? — Henry pareceu perdido com a pergunta — Isaac? — e voltou a contemplar o garoto — Não, não… não…

Mas Henry olhava o garoto, como se tentasse reconhecer alguma coisa. E permaneceu assim um bom tempo até finalmente conseguir se acalmar. Quando o relógio marcou a décima quarta hora do dia, Marco deixou Isaac no salão, e saiu para se preparar para o festival do ano novo. A festa ainda duraria pelas quinze horas da noite, quando finalmente o sol raiasse marcando o início do ano novo. Como até a marcação das horas e dos minutos era diferente, apenas a noite durava quase a quantidade de tempo que durava um dia inteiro em Sátie. Seria exaustivo.

Marco deveria passar esse tempo em um trono alocado às margens da grande fonte do jardim, cumprimentando, um a um, todos os representantes de todos os planetas e quadrantes que faziam parte da aliança imperial que haviam comparecido para a ocasião.

— Ele cresceu rápido, não é? — Cásira falou para Henry, surgindo ao nosso lado, depois de um bom tempo. Eu a olhei de perto pela primeira vez esta noite. Ela era de fato uma mulher de curvas deslumbrantes. Parecia uma sereia, com o longo vestido vinho, que seria incrivelmente comportado com suas mangas compridas, não fosse o decote fenomenal que descia até o umbigo e a fenda na saia exibindo uma de suas longas pernas. Acho que realmente comecei a me sentir uma criancinha ao lado dela.

Henry a olhou, distraído, e perguntou confuso:

— Como?

— Isaac… — ela sorriu, olhando para o garoto sentado sozinho numa poltrona balançando os pés, que não chegavam a tocar o chão.

— Ah… sim… — Henry confirmou vagamente voltando o olhar para o menino. Eu não entendi por que Cásira estava vindo falar de Isaac para Henry. Talvez estivesse querendo arrumar algum assunto para puxar conversa com ele.

— Você deveria ir falar com ele, tenho certeza de que ele esteja até mesmo esperando — ela insistiu.

— Você acha que ele… sabe? — Henry perguntou sem desviar o olhar do menino.

Eu estava cada vez mais confusa e me sentido excluída. Afinal do que estavam falando?

— Eu acho que a única pessoa nessa sala que não sabe, é Alésia — disse Cásira virando-se para mim, como se eu tivesse deixado transparecer a minha curiosidade —, mas Isaac, ele com certeza sabe que ele é seu filho.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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