DCC – Capítulo 22 – 3Lobos

DCC – Capítulo 22

Chegando no palácio

 

O vestido parecia uma ilusão. Se fosse levar em consideração o modelo, era bem simples e até vintage: um bustiê que realçava meu busto e marcava minha cintura, descendo em uma saia rodada até o joelho. Mas ele literalmente exibia constelações em movimento, como uma tela expondo as imagens de um telescópio colorido. Nebulosas brilhantes, às vezes um cometa, o desenho do disco central da galáxia e centenas de estrelas brilhando lindamente no halo às vezes escuro, às vezes iluminado, sempre mudando.

Os meus ombros de fora foram cobertos por um grandioso colar de brilhantes tão bonito quanto o vestido, combinando com um par de brincos que espiralavam cada um ao redor da orelha. O meu penteado por outro lado era bastante simples: meu cabelo foi amarrado lateralmente e descia pelo lado do meu busto, com cachos e pontos de luz que misturavam-se às estrelas do vestido.

Eu tentei imaginar se algum dia me veria tão bonita assim de novo. Não sabia sequer dizer se o look era exagerado ou se era ideal. Mesmo minha maquiagem parecia algo translúcido e que mudava de acordo com a iluminação.

Pouco depois, Henry também entrou na sala de preparação. Ele aparentemente também tinha recebido o tratamento do salão. Ele vestia um traje alinhado dantesco, azul marinho, quase preto, sem gravata. Suas nuvens de cabelos que também tinham crescido bastante durante o tempo de reclusão estavam amarradas em um rabo de cavalo baixo e amansado. Ele me lembrava um pirata, e eu não soube reagir, se agradecida, impressionada, ou envergonhada.

— Ótimo! Você está linda! — disse ele como se não fosse nada demais, — Algum problema?

— Eu não sei… nem parece comigo… parece muito irreal… — eu falei lentamente olhando para o espelho com uma timidez que eu não sabia de onde tinha vindo. Por que você sempre me dá todas essas coisas? Isso tudo deve ter custado uma fortuna!

Henry estranhou a pergunta, como se fosse algo retórico.

— Não sei… por que não? — Então ele sorriu, — Vamos, aparentemente você é a estrela da noite, e mesmo que a festa seja sob as asas daquele cretino, já é hora mesmo de você ser apresentada aos outros.

Eu não gostei. Só me senti mais nervosa. — Estrela da noite…. que conveniente, — pensei me olhando no espelho novamente. Henry me cobriu com uma longa e brilhante capa felpuda preta e fomos os dois para a nave, partindo em seguida para o palácio. O distrito central, onde o palácio ficava, era “perto” como disse Henry uma vez… vinte minutos de viagem, naquela nave assombrosa, e lá estávamos nós na entrada.

A festa, porém, não era nem de longe tão privada quanto eu imaginei que seria. Estava sendo realizada no jardim principal, que exibia a fachada do palácio iluminada por poderosos canhões de luz azul, e pelo menos dez mil pessoas já deviam estar lá, fora a comoção de pessoas do lado de fora.

A escadaria de acesso ao jardim estava cercada por duas filas de cem seguranças cada, utilizando uniformes de gala e conferindo a identidade dos recém chegados. Henry ofereceu o braço para mim e seguiu em frente sem se incomodar em parar ou se apresentar para ninguém. Henry não falou com os seguranças, e nenhum deles falou conosco, ou pediu nossos convites. Eu reparei que a medida que entrávamos, mais e mais pessoas viravam a cabeça em nossa direção e começavam a cochichar. Muitos nos encaravam abertamente e alguns até mesmo apontavam.

Logo eu reparei também que uma pessoa ou outra mais empolgada tentava se aproximar, mas era quase imediatamente redirecionado por outra pessoa aleatória que parava a sua frente e o levava para outro lugar.

— Seguranças à paisana… eu deveria ter imaginado — Henry comentou ao ver um casal ser afastado deles quase a força, por outro casal surgido do nada.

— Você é uma celebridade mesmo, não é? — perguntei impressionada.

— Sim! — ele respondeu prontamente como se estivesse comentando o tempo — Mas sempre um dos convidados vem com a ideia de tirar fotos dos notáveis, para vender para veículos de notícia o mesmo aumentar o próprio status… e eu estou aparecendo em público pela primeira vez em anos e dessa vez estou acompanhado. Isso é uma grande notícia. Mais do que eu, muitos aqui devem estar se perguntando quem é você. Mas Marco provavelmente não vai permitir nenhuma imagem sua vazar.

Eu acabei ficando mais nervosa ainda.

— Pensei que eu não deveria estar chamando atenção…

— Não se preocupe com isso. Contanto que não deixemos ninguém descobrir quem você é e quais são suas origens, ninguém nunca vai ser capaz de usar isso contra você — Henry suspirou aborrecido — mas eu realmente estou preocupado com as intenções de Marco em usar o festival do ano novo imperial como ocasião para a sua recepção de apresentação.

Eu olhei ao redor. Ainda não estávamos nem na metade do caminho entre a entrada e o palácio. Foi ficando cada vez mais difícil caminhar em linha reta, devido a densidade de pessoas que ia gradualmente aumentando. Às vezes precisávamos dar uma ou duas voltas para conseguir seguir em frente.

— Para onde estamos indo? — perguntei, depois de uma cena particularmente tensa onde um rapaz começou a gritar “Siever, ei Siever!!” que foi ignorado por Henry e em seguida silenciado pelos seguranças.

— Essa parte da festa é apenas uma mera formalidade política para reunir alianças e celebridades — Henry disse aborrecido —, sempre tem uma recepção dentro do palácio para os amigos pessoais e pessoas mais próximas ao Imperador.

— Você está na classe de amigo pessoal? — eu perguntei com ironia. Ele não respondeu a minha provocação.

Finalmente às portas do palácio, havia uma linha ainda mais impressionante de seguranças posicionados nas escadarias e acima do primeiro andar. Eles estavam ladeados quase ombro a ombro, formando uma corrente humana por todo o perímetro do prédio. No primeiro andar era possível ver que havia um enorme pátio decorado onde algumas pessoas conversavam. Mas o interessante era que, mesmo que eu me esforçasse, não conseguia focar no rosto ou na forma de nenhuma delas. Era impossível identificá-los.

Novamente Henry se aproximou das escadarias e atravessou sem se apresentar a ninguém. Os seguranças por outro lado, ao verem ele se aproximando, formaram uma passagem solene por onde pudemos subir as escadarias cercados por serviçais em reverência.

Do alto do saguão principal do palácio, eu pude ver toda a imensidão do jardim. Um mar crescente de cabeças. Deveriam ter muito mais pessoas ali agora do que quando tínhamos entrado. Dois pajens surgiram e fizeram reverências para nós. Um deles se ofereceu para guardar nossos casacos. Henry delicadamente me ajudou a retirar o meu, o que me deixou levemente sobressaltada com sua mudança de postura, cada vez mais sociável. Logo em seguida o segundo pajem se ofereceu para nos acompanhar aos nossos lugares no salão superior, onde os “convidados especiais” estavam sendo recebidos.

Eu me senti corar tremendamente quando Henry segurou minha mão de um jeito muito mais íntimo do que o usual, e subimos juntos de mãos dadas para o salão seguinte. Um cerimonialista nos recebeu e nos anunciou aos presentes, e todas as cabeças do salão viraram-se para nós assim que nos tornamos visíveis no portal de entrada.

Comparado à quantidade de pessoas que estavam do lado de fora, essa parte da recepção parecia vazia. Não eram sequer trinta pessoas perdidas em um enorme pátio ao ar livre, que nos permitia ver toda a extensão dos jardins.

Então todos os convidados ali se aglomeraram para vir falar conosco. Cumprimentaram Henry e se apresentaram para mim. Eram pessoas dos mais diferentes tipos. Mas pelo visto eram todos Jomons. Acabei reparando também que não eram as mesmas raças Jomons. Entre as quase trinta pessoas ali, haviam pelo menos vinte raças Jomons diferentes. Alguns bem mais baixos, outros bem mais altos. Um tinha o troco curto e o pescoço longo, outro tinha a cabeça e os olhos bem maiores do que a média geral, e assim por diante.

A parte mais impressionante é que eu realmente pude reconhecer de noticiários vários dos presentes como pessoas extremamente importantes. Esse era o pico do mundo. O lugar que reunia as pessoas mais importantes da raça humana num lugar só. E eu estava ali no meio.

O casal Sruar também estava lá conversando animadamente com a prima de Henry. Iago Kairoh conversava animado com um estranho, e Cásira sorria simpática ao lado dele. Aqueles que se aproximavam apresentavam-se, agradeciam pela minha coragem e elogiavam a minha beleza. Eu não soube o que dizer a todos. Lembrei mais uma vez que eu não tinha trazido o tradutor simultâneo, e apesar de entende-los, eles talvez não entenderiam o que eu estava falando. Comecei a me sentir deprimida de novo, como se estivesse ali apenas como um acessório de Henry para ser exibida. Uma boneca. Apenas um novo relicário para guardar a tão preciosa Criação desses estranhos e nada mais.

“Mas foi exatamente isso que você se tornou!” Uma voz incorpórea respondeu meus pensamentos.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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