DCC – Capítulo 21 – 3Lobos

DCC – Capítulo 21

Preparação

 

Nos dias seguintes, Henry continuou me levando para praticar. A primeira explosão tinha deixado um raio de destruição de mais de cem metros ao redor do lugar onde eu tinha estado. As pobres bétulas infelizmente não haviam resistido e tombaram quebradas e queimadas.

— É bom que você veja isso, para entender por que é importante se manter sobre controle — disse Henry ao ver minha expressão de choque —, mas não se preocupe… o raio de destruição vai eventualmente estar ao seu controle, uma vez que você aprenda a usar. Então não deverá mais sequer perder a consciência.

No quinto dia de prática, Henry deu-se por satisfeito, e considerou um sucesso todo o treinamento que eu estava fazendo. Então, começamos a nos preparar para voltar para Sátie. Eu estava muito nervosa em voltar para casa. Não tinha mais amigos na escola, e de acordo com Henry, eu estava terminantemente proibida de expor o fato de que eu ainda estava viva. A única pessoa que estávamos indo ver era Daril, meu pai.

Nós deveríamos realmente ter que comparecer a tal festa de ano novo no palácio para consultar os guardiões mais velhos do segredo. Porém, Henry estava muito preocupado com isso. Ele havia planejado marcar ele mesmo uma reunião com todos, assim que eu estivesse pronta para voltar a viver normalmente. Ele me advertia vez ou outra para tomar cuidado com as intenções de Marco, que com certeza estava planejando alguma coisa.

— Ele com certeza tomou a iniciativa de marcar o encontro porque está tramando algo — Henry repetia uma vez ou outra.

Ao chegarmos em Sátie, Henry entrou clandestinamente na atmosfera de novo. Eu fazia notas mentais para apreciar como isso parecia fácil para ele. Então ele me levou até o endereço da casa de Daril, estacionou a nave, e ficamos esperando pela volta de meu pai do trabalho numa praça próxima.

O dia estava nublado e tranquilo. Porém, como Henry havia recomendado uma vez, nós não saímos em público com os olhos à mostra. Os óculos que estávamos usando eram especialmente feitos para disfarçar a cor prateada dos nossos olhos, que não eram mais naturais, e sim próteses sintéticas. Não que isso fosse realmente um problema, mas atrairia atenção desnecessária, e normalmente pessoas sem identificação de retina de nascença tinham que apresentar outras formas de identificação. Coisa que eu, como uma pessoa legalmente morta, ainda não tinha.

— A identificação civil é feita através do reconhecimento de retina e a tecnologia não é muito funcional através de lentes de contato coloridas, já que ninguém usa esse tipo de prótese há séculos, então sempre que você for olhar nos olhos de alguém, é certo que você vai ver a cor original — ele me explicava — e a tecnologia utilizada hoje em dia para olhos artificiais ainda não permite outra cor além do prateado.

Daril chegou pouco antes do anoitecer. Assim que desceu do próprio veículo e olhou a nave descaradamente cara de Henry estacionada na frente de sua garagem, ele virou-se e esquadrinhou a rua à procura de nós. Eu fiquei imediatamente animada e corri emocionada para os braços dele, e nós dois entramos. Henry ficou esperando do lado de fora. Não quis se meter no nosso momento familiar.

— Não posso expressar o quanto estou aliviado em ver você de novo, minha querida — Daril exclamou servindo um pouco de refresco com bolinhos para nós dois. — Siever manteve contato comigo durante esse tempo, mas puxa vida… dois anos! Você ainda parece a mesma menina, menos esses cabelos longos e os olhos.

— É… eu nem sequer vi o tempo passar… na verdade, se eu for contar, parece que se passaram algumas semanas somente — Eu então comecei a explicar para ele o que tinha visto e entendido de todas as operações que Henry havia me submetido — … e agora pelo menos não sinto tanto frio, mas ainda é algo incômodo.

Nós dois conversamos ainda por mais algumas horas. Papai contou sobre tudo o que tinha acontecido depois da minha “morte”. Alya havia se casado de novo, e Alan havia se mudado para outro distrito, para frequentar a universidade. Tinha escolhido cursar mecânica espacial e de vácuo.

— Mas e você, o que vai fazer agora? Não está parecendo que ele vai te devolver ou sequer que vão se demorar — Daril perguntou.

Eu respirei fundo, e ainda tentei pensar em algo melhor para dizer, mas essa era enfim a única oportunidade que eu teria para desabafar.

— Sinceramente não sei. Henry é legal, me trata bem e está sendo um bom amigo, mas… mas eles são Jomons… a própria forma de pensar deles sobre as coisas é diferente. Eles me tratam como um bebê no meio deles. Tenho medo de fazer mais besteiras… — eu segurei as mãos de meu pai e as puxei para minhas bochechas, como se esperasse que ele pudesse segurar o peso da minha alma, ao segurar o meu rosto — Sei que não vai faltar nada para mim enquanto eu estiver lá, mas dá medo… parece que não tenho mais perspectivas pessoais, ou objetivos próprios a alcançar.

— Não se preocupe, minha querida… tenho certeza de que você irá se sair bem em tudo o que tentar. Você é obstinada — Daril me animou —, se você quiser algo de verdade, não haverá ninguém para te impedir.

Eu deixei escapar um leve gemido ao lembrar de Marco, tentando decidir se deveria ou não mencionar sobre ele para Daril.

— Obrigada pai… só acho que eu fiz inimigos desnecessários…

— Como assim? — ele perguntou confuso e preocupado.

— Eu dei um tapa na cara do Imperador!

Daril ficou ainda mais chocado do que Henry e Cásira haviam ficado. Mas ao ouvir os detalhes da história, também me deu uma repreensão, dividido entre o choque e a admiração. Apesar de enfatizar que era uma coisa que eu não deveria fazer de novo, ele riu e concordou por eu ter feito uma vez.

Então começamos a conversar sobre coisas aleatórias, sobre como era a aparência de Keret e as coisas que tinha visto e gostado. As comidas diferentes e os belíssimos penhascos e vales nas beiradas do planalto de bétulas — eu com certeza lembrei de não dizer para ele o que eu estava fazendo lá.

Tarde da noite, Henry bateu na porta, e disse que iria dar uma volta. Na tarde do dia seguinte estaria de volta para me buscar. Como era fim de semana, papai e eu poderíamos passar o dia juntos. No dia seguinte, fizemos apenas as coisas que eu gostava. Daril fez um pedido da minha comida preferida em um restaurante que eu adorava, vimos filmes e jogamos um pouco. Demos uma volta no distrito vizinho, e passeamos bastante. Muita coisa tinha mudado, e muita coisa ainda permanecia a mesma.

Aos poucos eu fui notando a ausência de Henry. Essa era a primeira vez que estaríamos separados desde que ele me levou embora para Keret. Eu podia inclusive estimar que ele não estaria no alcance em que nossos núcleos reagiam um ao outro, e o frio era bem maior que o costumeiro. Mas não era intolerável. Me senti estranha andando agasalhada num lugar de clima tão ameno. De fato, essa a minha segunda vez andando em público, vestindo as roupas que havia comprado junto com Henry, que eram de longe, de uma qualidade completamente superior as vendidas em qualquer super marca de Sátie.

À tarde, Daril me levou de volta para casa, e encontramos Henry escorado distraidamente em sua nave estacionada na frente do apartamento. Ele aguardou que terminássemos de nos despedir e despediu-se também. Nós dois entramos na nave e partimos de Sátie de volta para Keret. No dia seguinte seria o tão falado Ano Novo Imperial, e deveríamos ir a tal recepção que Marco iria preparar no palácio.

A perspectiva de voltar a ver Marco após ter atentado contra ele não me animou nem um pouco. Assim que voltamos a Keret, sequer paramos na casa de Henry. Ele me levou direto ao Largo Kalanit, que fervilhava de turistas, e fomos para um salão luxuoso e abarrotado de clientes alvoroçadas.

— Boa tarde! — a recepcionista cumprimentou mostrando um sorriso cheio de dentes — Em nome de quem foi feita a reserva?

— Sem reversa. Chegamos agora. Gostaria de contratar um pacote para ela…

A atendente lançou um olhar de esguelha para mim depois de ouvir Henry. Tive certeza de que o sorriso dela vacilou levemente.

— Desculpe senhor, não temos vagas disponíveis até o dia dez do primeiro mês, em virtude do festival do Ano Novo Imperial. Mas se quiser deixar um horário agendado, podemos providenciar uma vaga para… — Henry suspirou, e tirou do bolso algo que eu não consegui identificar o que era, mas para a atendente deve ter feito sentido, pois ela arregalou os olhos e parou de falar na hora.

— Será que você não pode conferir de novo? — Henry disse.

Surpreendentemente, a atendente se desculpou, fez uma reverência a nós dois, e nos encaminhou em epifania à uma sala aconchegante separada do salão de atendimento convencional, e nos deixou lá. Pouco depois, três mulheres utilizando um belíssimo uniforme verde escuro entraram já de cabeças abaixadas e cumprimentaram solenes.

Henry conversou rapidamente com elas, e eu quase não consegui acompanhar as instruções. Ao que parecia, ele solicitava um atendimento completo de beleza para mim, e falou que traria um vestido em breve para que elas combinassem um penteado e a maquiagem, que tudo deveria estar pronto até a décima primeira hora do dia, e se preparou para sair.

— Ah! — ele exclamou, sobressaltando às funcionárias sorridentes, — Nenhuma de vocês tem permissão de usar ponto tradutor perto dela. Ela não fala nosso idioma, mas consegue entender o que falarem, basta perguntar se sim ou se não, que ela pode responder.

— Henry, espere! — eu chamei aturdida, mas ele já saiu batendo a porta.

Eu imaginei se teria algum problema retirar os óculos escuros aqui dentro, mas logo reparei que ninguém realmente olhava diretamente para mim. Todos pareciam muito respeitosos, distantes e eufóricos ao mesmo tempo na minha presença. Comecei a imaginar o que teria sido o objeto que Henry havia mostrado para a atendente, pois seja lá o que fosse, estava sendo bem efetivo.

Nesse mundo, as portas com certeza se abriam para quem tinha mais poder, e como eu esperei, o atendimento no salão não era nada parecido com qualquer um que tivesse em Sátie. As atendentes me levaram primeiro para um banho de imersão, onde eu fiquei completamente submersa do pescoço para baixo por um líquido que lembrava muito mingau de leite coalhado, mas com um excelente aroma floral, e me deixaram ali por meia hora.

Eu estava bastante nervosa no começo. Era a primeira vez que Henry me deixava sozinha aqui desde que me trouxe para esse planeta, mas logo consegui relaxar e aproveitar. Quando saí da banheira, minha pele reluzia lindamente, macia, perfumada, uniforme e sem pelos. Até mesmo a minha cor ficou levemente mais acentuada, quase chegando a um cobre suave. Em seguida, me levaram para preparar meu rosto. Colocaram em mim máscaras e mais máscaras de diferentes cores e texturas, enquanto quatro pessoas diferentes preparavam minhas unhas, e outras duas pessoas começaram a aplicar cremes em meus cabelos.

As máscaras pinicavam ocasionalmente e quando terminaram de retirar a última, as minhas unhas já estavam prontas. Uma breve diminuição do frio que eu sentia me deixou saber que Henry havia voltado, e que deveria estar esperando em algum outro lugar por perto.

O meu cabelo ainda demorou um pouco mais. Pelo visto já haviam visto o tal vestido que Henry iria trazer para inspirar o penteado e a maquiagem, então elas vieram oferecer várias opções diferentes para que eu pudesse escolher, variando entre forma, textura, cortes e pinturas das mais recentes tendências de moda, que fossem adequados à ocasião que eu teria que comparecer. Eu estava para dizer que iria preferir apenas aparar as pontas e usá-lo solto, mas uma das atendentes chegou avisando que Henry havia sugerido um penteado, e perguntou se eu aceitaria executá-lo, mas não me permitiram ver o que era.

Eu aceitei, sem saber o que mais dizer, e todas as moças me preparam delicadamente, mas com muita eficiência. Pintaram a maquiagem e me vestiram. Pontualmente na décima primeira hora do dia, eu estava pronta, admirando-me no espelho do provador. Eu, no mínimo… parecia uma constelação.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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