DCC – Capítulo 20 – 3Lobos

DCC – Capítulo 20

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Quando acordei, estava completamente enrolada nos cobertores da minha cama. Henry provavelmente deveria ter me trazido de volta depois que eu tinha ficado inconsciente. Definitivamente essa era uma experiência terrível. Era dolorosa: fazia os músculos vibrarem muito rápido, e a sensação de ter sido eletrocutada ainda sondava meu tato.

Porém, com certeza os efeitos também eram rápidos. Parecia que um mundo havia sido tirado dos meus ombros, e o melhor: o frio não era mais tão incômodo. Era quase um frescor agradável. Eu conseguia sentir as mudanças em cada parte do meu corpo e nos meus órgãos internos que, de alguma forma, tinham se tornado mais resistentes ainda. Então, depois de decidir que estava melhor, me desvencilhei das cobertas e troquei de roupa.Estava faminta.

Quando ia descendo os últimos lances da escada transparente, ouvi vozes que conversavam na cozinha. Achei que Henry estava recebendo visitas. Me aproximei até perceber de quem a visita se tratava: era Cásira.

Dessa vez ela tinha vindo sozinha, e olhava timidamente para o próprio copo de vinho, enquanto conversava com Henry.

— … desde então tem havido alguns conflitos já que esses chips de personalidade andam deixando os proprietários de psicológico mais fraco confusos, então muita gente ficou contra a linha de produção alegando que essas pessoas estavam precisando seguir adiante…

— Boa tarde, Alésia! — Henry me saudou assim que me viu, indicando a cadeira ao lado da dele. Eu me apressei a cumprimentar os dois. Ele me serviu uma taça também e voltou sua atenção para a conversa, — Me desculpe Cásira, que dizia?

Cásira sorriu elegantemente para o copo, parecendo ligeiramente decepcionada antes de voltar a falar:

— Ah, não vamos falar disso. Sua nova parceira não vai gostar de ter que ficar conversando sobre implicações éticas do uso de chips de personalidade.

— Não se preocupe com isso! — Henry rebateu.

Eu não soube se eu deveria argumentar. Não queria atrapalhar a conversa, mas senti como se ele estivesse presumindo minha opinião sem me perguntar. Deixei a taça intocada sobre a mesa e me apressei aos armários procurando algo para comer.

— Pena que vocês não parecem ter nada em comum. Ela é uma Brard tão jovem, não deve ter conhecimento de muita coisa ainda. Comparada com a gente, é como se ainda fosse uma criança.

Eu já estava começando a me acostumar com esses comentários racistas. Em contrapartida aos Jomons, pelo menos os Brards amadureciam bem mais rápido e não desperdiçavam seu tempo de vida… mas não tinha como eu falar isso ali… ela não iria entender meu idioma. Todos os dias eu esquecia de pedir para Henry me dar outro tradutor simultâneo para que eu pudesse falar com outras pessoas que não estivessem usando um ponto tradutor.

— Por enquanto, isso não passa de pequenos detalhes irrelevantes… — Henry comentou, — ela é uma boa menina, e me distrai bastante, então não vejo problema em mantê-la por perto. — Eu registrei mentalmente o “menina”… realmente eu não passava de uma criancinha para eles — Depois, com a reunião do pessoal, podemos decidir como ela vai poder levar a vida dela.

— Sim, claro! — Cásira desviou a atenção do próprio copo e me olhou, como se estivesse sentido pena de uma pobre coitada, — É bom que ela tenha uma ocupação. Não seria bom que ela tivesse o mesmo destino de Nádia…

Eu com certeza estava bastante incomodada agora com a forma como começaram a falar de mim, como se eu não estivesse presente ou não tivesse opinião. Eu também pude entender claramente o significado daquela conversa. Eu era apenas uma convidada na casa de Henry, logo, cedo ou tarde eu teria que sair dali. Um sentimento de vazio me devastou por dentro. Era óbvio o quão solitária eu também estava nessa nova vida.

— Não fale dela…

Henry reclamou logo após ouvir o nome de Nádia, e acabei me lembrando em como Henry deixou a entender como ela tinha morrido porque desistiu de viver. Parece que todos esperavam o mesmo de mim.

Nesse momento, a campainha da casa soou.

— Quem é? — Henry perguntou sem sair do lugar.

— Alguém importante — uma voz vinda do sistema interno da casa respondeu. Eu vagamente reconheci a voz de algum lugar, mas não conseguia lembrar imediatamente de onde. Porém, ao olhar a expressão enraivecida de Henry, comecei a ter uma ideia de quem era, — É melhor me deixar entrar, antes que eu invada…

Henry fez o gesto de autorização, que foi reconhecido pelo sistema interno, permitindo a entrada do visitante. Segundos depois, usando bermudas largas de de cor clara, postura elegante e olhos lilases espantosamente invasivos, Marco entrou na casa e caminhou até a cozinha onde apoiou-se na bancada de pedra.

Cásira e Henry se levantaram (obviamente por motivos diferentes), e sem saber o que fazer, eu fiquei parada no fundo da cozinha com um pacote de biscoitos na mão. Enquanto Henry ficou tenso e com a postura agressiva, Cásira moveu-se em uma belíssima reverência para Marco.

— É minha grande honra estar em sua presença, Majestade — ela recitou solenemente.

Marco ignorou completamente a existência de Cásira, olhou de relance para mim e depois fitou Henry. Henry não se moveu, sequer mostrou quaisquer sinais de que iria gastar alguma cerimônia sequer cumprimentando Marco. O seu olhar não expressava outro sentimento sequer raiva e nojo.

— Para que tanto ressentimento ainda, meu amigo, — Marco sorria maliciosamente, interpretando a expressão de Henry. — Já fazem quase oito anos, já passou da hora de superar…

— Fale a que veio, e depois saia! — Henry forçou as palavras entre os dentes trincados.

Marco deu a volta no balcão e se aproximou da mesa até estar em uma linha entre eu e Cásira, que ainda segurava a reverência sem se mover, e se aproximou mais de Henry.

— Vocês irão ao palácio para a festa de ano novo. Eu irei ministrar uma recepção em homenagem à nossa nova… — ele estendeu o braço e agarrou a minha mão, fazendo um gesto de que iria beijá-la, mas depois girou os olhos para mim e sorriu perversamente, — “aquisição”.

— Agora saia da minha casa. — Henry praticamente rosnou. Tinha se tornado completamente furioso agora. Cásira sutilmente começou a se afastar da cozinha, e eu tentei soltar minha mão da dele.

— Eu quero sua confirmação primeiro, ou vou precisar mandar alguém arrastar vocês até lá? — Marco cerrou os olhos enquanto me fitava. Eu senti o peso esmagador da sua aura me pressionando, enquanto eu me tornei completamente incapaz de me desvencilhar — Há muito o que se conversar, e já que…

— SAIA DAQUI! — Henry gritou olhando para as nossas mãos juntas e esmurrando a mesa, que ao toque de seu punho fechado, espatifou-se em cacos empoeirados de pedra.

Eu fiquei completamente assustada agora, e comecei a puxar com força a minha mão tentando me soltar. Marco, porém, não se mexeu um centímetro sequer, e nem sobressaltou-se com o barulho da mesa se partindo. Ele permaneceu parado, como se a minha resistência fosse insignificante e inútil.

— Quero a confirmação! — Marco insistiu, mas dessa vez desviou o olhar e começou a encarar Henry, — ou é melhor que eu a leve agora, como garantia?

Henry inclinou-se perigosamente na direção de Marco, mas antes que desse um passo, eu levantei minha mão livre e  girei veloz o pulso em um tapa ressoante no rosto de Marco.

Marco cambaleou um pouco para o lado, e afrouxou minha mão o suficiente para que eu pudesse me soltar, e ainda inclinada pelo balanço do tapa, levantei os braços e o empurrei com força. Marco pisou em um escombro do que sobrou da mesa, se desequilibrou e acabou caindo sentado em uma posição no mínimo muito vergonhosa.

Cásira levantou a mão a boca, abafando um gemido horrorizado. O olhar de todos se centrou em mim, completamente chocados e surpresos. Inclusive Marco, que deixou o queixo cair, e segurava com as pontas dos dedos a bochecha que eu atingi.

— Eu…. e-eu não gosto do jeito que falam comigo! — eu comecei a reclamar, um pouco insegura, mas ganhei fôlego assim que percebi que a pressão de Marco sobre mim tinha se esvaído completamente — Eu não sou uma coisa! Eu não sou uma propriedade para ser adquirida. Eu não sou uma criança indefesa que precisa ser cuidada, e nem preciso esperar que vocês decidam coisa alguma por mim. Você não me conhece, então não vá achando que pode me arrastar para o que bem entender sem perguntar a MINHA opinião! Quem foi que disse que eu sou de vocês para ser exibida e usada como quiserem?

Marco se levantou sério, e Henry ainda estava parado me olhando com a expressão chocada. Eu, por minha vez, estava tremendo perceptivelmente. Mas não sabia dizer se era medo ou raiva. E para deixar a situação mais tensa, Marco começou a gargalhar. Assim que parou, disse:

— Você parece não ter entendido o ponto aqui, criança insolente… — ele se realinhou e postou-se com uma expressão de divertimento e desprezo ao mesmo tempo. Ele fez questão de realçar a palavra “criança” quando falou para mim, — Há certas coisas que precisam ser feitas e ditas, e certas pessoas que devem te conhecer e você a elas. — Em seguida ele se virou sério para Henry, que ainda parecia que tinha se esquecido de como se mexer — Então não se enganem. Só por que não é do meu feitio usar minha autoridade de primeira para lidar com assuntos… “menores”… não quer dizer que não os farei acatarem o que eu digo, de uma forma ou de outra.

Marco deu meia volta, e antes de dobrar a quina da cozinha, virou-se e me encarou novamente. Eu senti a pressão do olhar dele me prender novamente, e só pude supor que realmente deveria ter uma magia muito poderosa praticada por ele.

— Eu me lembrarei disso. — Havia uma raiva nítida nos olhos dele. Ele sorriu malignamente ainda segurando a bochecha com as pontas dos dedos e saiu.

Foi só quando ouvimos a porta bater que todos voltaram a se mover normalmente. Cásira foi a primeira que tornou a falar.

— Você foi muito imprudente, menina! — ela reclamou, mas sua expressão estava dividida entre preocupação e admiração, — Cuidado, que há de ter volta. O que ela disse a ele? — Cásira não usava ponto tradutor nem entendia meu idioma, então essa pergunta ela fez voltada para Henry.

— Cásira! — Henry chamou, de repente lembrando de respirar assim que ela se dirigiu a ele, — Obrigado pela visita, mas acho que agora eu e Alésia precisamos conversar.

— Claro… — Cásira cruzou as mãos na frente do corpo e olhou para baixo. Ele havia ignorado completamente a pergunta dela.

Henry a acompanhou até a saída e depois voltou a cozinha para contemplar o próprio estrago.

— Me desculpe, eu não devia ter batido nele… — eu murmurei baixinho, ainda tremendo.

Henry riu tristemente, apanhou alguns pedaços da mesa destroçada e começou a tentar fazer malabarismos com eles.

— Não vai ser para mim que terá que se desculpar… Cásira tem razão. Você não deveria ter feito isso. Ele não vai deixar de graça.

Eu fiquei ainda mais nervosa com a repreensão de Henry. Afinal quem era aquele em quem eu tinha encostado a mão, se não o humano mais importante de toda a raça humana? Então Henry continuou:

— Mas se não tivesse sido você, eu mesmo teria tentado acertar ele, e então as consequências teriam sido muito piores.

Henry jogou as pedras contra o armário na parede oposta com força, ao ponto da porta do armário empenar. Esse nível de força… era simplesmente assustador demais. Onde diabos eu tinha me metido??


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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