DCC – Capítulo 2 – 3Lobos

DCC – Capítulo 2

O outro lado da porta

 

Acordei completamente desorientada. Demorei um pouco a lembrar o que tinha acontecido. Meus ouvidos zumbiam, mas pelo menos não estava mais fazendo aquele frio irreal e insuportável. Tive medo de abrir os olhos e encarar o que viesse pela frente agora. Me virei na cama e a sensação do tato me devolveu a coragem. Eu não estava na cama. Estava deitada no chão em um gramado verdíssimo, abaixo de um céu impossivelmente lilás com nuvens incrivelmente brancas.

Eu nunca tinha visto um céu lilás ou sequer conheci alguém rico o suficiente para ter visitado algum planeta em que o céu fosse lilás. Planetas cuja atmosfera deixava o céu lilás eram todos dos Jomons. Como eu poderia estar em outro planeta? Essa devia ser mais uma das memórias loucas que vinham do nada para mim sobre lugares onde nunca estive. Porém, agora, eu estava vivendo a memória ao mesmo tempo em que ela era “criada” e não fazia ideia de que lugar seria esse.

Seria esse finalmente meu primeiro delírio consciente? Eu nem sabia que isso era possível. Porém, olhar para aquele céu era maravilhoso. Então, simplesmente esvaziei minha mente por um tempo e fiquei olhando as nuvens passarem, esperando acordar dessa loucura cercada de gente pronta para ralhar comigo por ter explodido, sei lá como, os cômodos do hospital.

Mas não acordei. Vários minutos se passaram e nenhuma mudança além da brisa suave e das nuvens preguiçosas. Sem vontade, levantei da grama macia e olhei onde estava. O gramado continuava esplêndido em frente por centenas de metros até um muro alvo que parecia circundar toda a propriedade. Em espaços ordenados, haviam magníficos canteiros circulares com flores que nunca conheci antes. Segui o muro com os olhos até perder seu fim de vista e poder ver o que estava atrás de mim.

Um magnífico e imenso palácio se estendia até onde minha visão alcançava. Simplesmente não entendi como não tinha reparado naquele prédio enorme logo de cara. As paredes eram de mármore branco, o chão era inteiro de um material negro espelhado e as portas e janelas pareciam que eram de… madeira? Madeira! Quem é que consegue ter qualquer coisa que seja de madeira? É simplesmente caríssimo! Provavelmente a mais simples cadeira de madeira valia o preço de cinquenta casas iguais a minha.

Ardendo de curiosidade, eu me aproximei. Demorei quase dez minutos para alcançar uma escadaria de acesso para a varanda e poder tocar em uma das portas. Estava trancada. Não que eu tivesse intenção de entrar realmente, mas não havia ninguém em lugar nenhum à vista. Senti o tato que era tocar nas fibras da porta. Eu não saberia dizer se era madeira de verdade, mas parecia muito com as imagens que apareciam em documentários sobre a história dos primórdios humanos, e aqueles de decoração de gente rica.

Segui por um corredor próximo, fascinada com o local. Além de serem de madeira, muitas das portas eram ricamente entalhadas com esculturas de auto e baixo relevo mostrando um dia a dia de nobres, festas e riquezas. E todas trancadas. Mas afinal, em que lugar eu vim parar? Os corredores continuavam por bifurcações sem fim. Depois de um tempo eu já nem lembrava mais qual foi o lado que eu tinha vindo.

Porém uma necessidade urgente de seguir andando me empurrava cada vez mais para fundo do palácio. Eu sentia que não estava andando em círculos, como se meus pés soubessem para onde estavam me levando e qual o lugar certo que eu deveria ir, apesar de todos os corredores serem praticamente iguais. Eu apenas sentia que devia continuar em frente.

Então, finalmente avistei um imenso portal azul, ao fim de um corredor. Em frente a ele, haviam dois guardas conversando entediados. Me aproximei observando atentamente os dois. Definitivamente não eram nativos do meu planeta e eram definitivamente Jomons!!! Os membros deles eram um pouco mais longos e finos do que eu estava acostumada para uma Brard como eu. Os rostos ovais de queixos pontudos eram realmente exóticos. E os olhos… os olhos que me encararam perplexos assim que me notaram, eram olhos impossíveis para um Brard, de um violeta intenso e bonito.

Eu teria continuado até eles e me apresentado, não fosse a reação deles. Eu ainda estava a uns trinta metros de distância quando eles me notaram e começaram a correr em minha direção com ar ofensivo e sacando as armas. Eu tive discernimento suficiente apenas para avaliar rapidamente que as armas eram não letais, mas em pânico, não quis esperar para ver se eles as usariam ou não.

Dei meia volta e corri desesperada pelos corredores. Meus pés pareciam saber quais curvas tomar, mas apesar de eu até ser uma boa corredora, e de ter tido uma certa vantagem. Eles estavam me alcançando rápido, gritando para mim em um idioma que eu não conhecia. Um instinto avassalador de perigo me engolia a cada passo, e eu só pude continuar fugindo aterrorizada.

Aos tropeços dei de cara com um corredor sem outra saída além de uma porta ao fundo. Corri para lá pensando em como iria começar a implorar clemência assim que tentasse abrir a porta e ela estivesse trancada como todas as outras estavam, mas para minha surpresa, a maçaneta cedeu ao meu toque. Os guardas estavam quase me alcançando quando atravessei o portal, o medo e a sensação de perigo cada vez mais fortes.

Antes que eu pudesse terminar de entrar, um deles alcançou as pontas de meu cabelo e sem atravessar o batente, tentou forçar a minha saída. Agradeci aos meus cabelos finos por terem escorregado dolorosamente pelos dedos ágeis do guarda, que continuou sem atravessar o portal, como se uma barreira invisível o impedisse.

Com uma expressão de imenso choque, um deles gritava para mim ordens incompreensíveis, enquanto o outro, falava ao Link com reforços que já vinham dobrando a curva do corredor. Dessa vez com o que potencialmente eram armamentos letais.

Aproveitando o momento de hesitação dos guardas, só pude pensar em fechar a porta. Então saltei sobre ela e a empurrei com força. O guarda tentou mantê-la aberta e brandiu um bastão pela fresta, o suficiente para roçar no meu braço. A dor foi instantânea, como se milhares de finíssimas agulhas me espetassem o corpo inteiro da forma mais impiedosa possível. Senti minhas pernas falharem e meu corpo sucumbir à gravidade sobre a porta, que não sei como, acabou fechando.

Cai no chão aos espasmos, sentindo meu corpo chacoalhar involuntariamente. Eu já estava desejando perder a consciência quando, simples como começou, a dor parou. Deixando apenas uma marca vermelha no local onde o bastão havia sido encostado e algo como um eco da dor latejando por minhas têmporas.

Definitivamente esse não era o meu dia. Cansada, sem fôlego e sentindo meus músculos aos frangalhos, apenas me recostei na parede e esperei que os guardas entrassem e acabassem comigo. Respirei fundo várias vezes esperando… e esperando…. e esperando… até que tive que me convencer de que eles não viriam. Isso deveria ser alguma pegadinha de toda essa ilusão. Eu sequer escutava mais os gritos deles do lado de fora, como se não houvesse ninguém lá.

Mas a sensação de perigo e urgência ainda me rondava com força. Era uma incrível vontade de sair daquele quarto e procurar outro lugar para me esconder. Mas também tive medo de que eles estivessem quietos do outro lado, apenas me esperando sair.

O apartamento em que eu estava era simplesmente o lugar mais luxuoso e ao mesmo tempo destruído em que eu já tinha estado em toda minha vida. Móveis de madeira, opulentos, de veludo e jacquards riquíssimos bordados a ouro, tapeçarias, almofadas e cortinas. Todos destruídos, virados ou rasgados.

O mais exótico eram os livros. Dezenas de livros, feitos de papel, espalhados pelo chão, amassados e rasgados. O mais próximo sequer estava escrito com o mesmo alfabeto usado em Sátie. Devo dar o braço a torcer para minha imaginação por ter pensado em tudo isso. Eu nunca havia visto nada remotamente igual para me basear, mesmo em filmes.

A sensação de perigo era cada vez maior. O que diabos havia feito toda essa bagunça? Imagino se teria sido por medo do que estaria trancado aqui dentro que os guardas não entraram.

Já estava me decidindo retornar para a porta e sair, quando parei por um momento e pude ouvir, baixinho, vindo do outro lado de uma entrada meio escondida pelos móveis destroçados, que levava a um outro cômodo daquele apartamento. Era o som da respiração pesada de alguém ou alguma coisa dormindo.

O medo me acusava em emergência. Eu realmente quis sair dali naquele momento mas uma curiosidade imprudente empurrou meus pés, passo ante passo, até o cômodo seguinte. Igualmente destruído, mas muito menos iluminado pela luz do dia, graças às cortinas grossas que estavam fechadas e menos rasgadas, o cômodo seguinte parecia ter apenas papel no chão. Centenas de folhas de papel espalhadas escritas a mão com o tal alfabeto alienígena e ao fundo, encolhido ao canto de uma cama quase escondida pela penumbra estava um homem.

Ele era tão jovem quanto eu, pelo menos eu pensei de início, até perceber que ele provavelmente era um Jomon também. Tinha longos cabelos pretos que se desgrenhavam como nuvens cobrindo seu rosto redondo e infantil. Ele usava uma regata preta, amassada e suja, e calções folgados, que ressaltaram o corpo magro e alto dele. Estava deitado de bruços e dormia pesadamente com o rosto colado em um caderno, onde, pelo lápis que ainda pendia dos dedos frouxos, provavelmente estava escrevendo antes de dormir.

A sensação urgente de perigo flutuou de algum lugar da minha mente para o esquecimento quando percebi a expressão cansada e de sofrimento no rosto dele, como se dormir fosse terrivelmente doloroso. Por um momento louco me senti responsável, como se esse sofrimento de alguma forma fosse culpa minha. Me aproximei, preocupada. Pelo ambiente devastado, qualquer um pensaria, pelo quarto em que ele estava, que ele devia ser desequilibrado e perigoso. Mas não pude deixar de imaginar que ele talvez estivesse preso ali, e que não tivesse tido muitas opções além de descontar a própria raiva nas coisas que tinha.

Quando estava próxima o suficiente para tocá-lo, parei para pensar finalmente no que iria fazer… O que eu poderia falar? Era evidente que ele também não falava o mesmo idioma que eu, então como poderíamos nos comunicar? Como eu poderia pedir informação ou ajuda?

Mas antes que eu pudesse decidir, ele decidiu por mim. Ele acordou e muito mais veloz que os guardas que haviam me deixado escapar, sentou-se e entrelaçou os dedos longos e incrivelmente quentes ao redor do meu pescoço, me prendendo ao mesmo tempo que me sufocava. Senti minha jugular protestar contra a pele pressionada do pescoço. Levantei as mãos para tentar me soltar, mas percebi tarde demais que o toque do bastão havia me tirado qualquer força pra resistir.

Não havia o que fazer. Senti apenas o peso de meus braços puxá-los inertes para os lados do meu corpo, balançando molemente enquanto registrava em algum lugar da mente a voz do homem falando comigo, pronunciando palavras que eu não entendia. Senti cada célula do meu corpo protestar pedindo oxigênio, sentindo cada vez mais a pressão esmagadora em minha traqueia, e antes de enfim perder a consciência, a única coisa que pensei, foi em como ele era triste, com seus olhos prateados contemplando um vazio como se ainda dormisse.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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