DCC – Capítulo 19 – 3Lobos

DCC – Capítulo 19

Visitas (1)

 

Com certeza agora eu me senti muito desconfortável. Assim que Henry soltou a informação de que eu seria a encarnação de sua antiga namorada, a quem ele teria amado ao ponto de perder a sanidade e não querer mais contato com o mundo, eu não consegui mais saber como agir normalmente perto dele.

Ele porém agia da mesma forma de sempre. Então depois do terceiro dia de alta, algumas pessoas começaram a aparecer. Dois colegas com quem ele estudou antes de “desaparecer” convidando-o a voltar a um grupo de estudos… funcionários a serviço trazendo relatórios sobre o andamento dos centros de pesquisa depois de todos esses anos… mas para a minha grande surpresa, as últimas visitas do dia foram de Cásira, a tal ex-namorada e do pai dela, o simpático senhor Iago Kairoh.

Eles dois faziam parte do tal seleto grupo de Jomons que tinha conhecimento da existência das relíquias e ficaram sabendo do fim da reclusão de Henry pelo casal Sruar, que também fazia parte da guarda desse segredo.

Henry pareceu tão animado em vê-los quanto demonstrou ao ver Lobrë, como se não soubesse onde enfiar a cara, mas os recebeu bem, e passou um longo tempo conversando com o senhor Kairoh, com quem se dava bem, apesar de ter dispensado mais rapidamente todos os outros visitantes. Cásira também parecia se dar muito bem com Henry e demonstrava muita simpatia, mas também demonstrava estar tão deslocada e sem jeito quanto qualquer ex-namorada que ainda demonstrava algum sentimento.

Ela já aparentava ser alguns anos mais velha que ele, mas eu registrei mentalmente que eles provavelmente tivessem a mesma idade. Ela era muito bonita e sensual, e lhe caia muito bem o vestido justo que usava e os longos cabelos castanhos que desciam muito lisos, emoldurando seu rosto e contrastando divinamente com os olhos rosas.

O senhor Kairoh sentou-se no sofá da sala e passou um bom tempo persuadindo Henry a voltar a estudar, viajar e aproveitar a vida. Dizia que não era todo mundo que tinha o privilégio de manter a juventude eterna, apesar de muitos até conseguirem retardar a velhice.

— Sabe que apesar de não ter dado certo entre você e minha Cásira, ainda considero você como da minha família — disse ele sinceramente preocupado.

— Pai! — Cásira ralhou ruborizada.

— Mas é a verdade! — ele insistiu, — Mas vamos indo, não adianta ficar falando aqui de coisas que ele já sabe.

Henry acompanhou os Kairoh até a porta. Iago ainda lhe dando palmadinhas nos ombros e Cásira logo atrás olhando ainda muito corada para os próprios pés.

— Vamos marcar uma reunião para apresentar a garota! — ele disse ainda antes de sair. — Eu estou realmente surpreso. O jovem mestre não falou nada. Ninguém estava sabendo de uma nova escolhida.

— Tudo bem… quando for a hora, eu mesmo marco com todos — Henry respondeu no que eu imaginei ser uma atuação muito forçada de simpatia. — Ela ainda não fala nosso idioma, e precisa ser educada sobre certas coisas antes de poder mostrá-la.

Assim que saíram, Henry trancou a porta e sentou-se recostado na cadeira e cobrindo os olhos com as mãos, evidentemente cansado. Reparei que estava sendo extremamente exaustivo para ele dar atenção para outras pessoas.

— Ainda não consegue interagir livremente com todos? — deixei escapar.

— Hum… — ele gemeu — mesmo que eu consiga, todos virão aqui para falar que eu estou “me desperdiçando”, que deveria esquecer o passado, seguir em frente… essas coisas… eles não entendem. — Henry recostou-se, jogou a cabeça para trás e encarou o teto enquanto cruzava os braços, — Eu sei que eles se importam comigo e que querem meu bem, mas mesmo assim…

Ele não terminou de falar. Permaneceu lá parado por um bom tempo, como se tivesse travado de novo. Suspirei resignada. Quando ele entrava nesse “transe”, demorava bastante para sair. Naquele dia, só me restou preparar alguns sanduíches para jantar, e quando desisti de esperar ele acordar, subi ao meu próprio quarto e dormi. Nos dias seguintes não houveram visitas. Talvez tão rápido quanto a notícia de que Henry tinha voltado se espalhou, a notícia de que ele não estava realmente sociável também tinha se espalhado.

Então ele passou a me colocar na nave e me levar para um magnífico campo de bétulas num planalto elevadíssimo cercado de serras nevoentas. O lugar era lindo e provavelmente não haveria uma pessoa sequer a dezenas ou mesmo centenas de quilômetros.

— Ainda estamos em Keret? — perguntei levemente confusa.

— Não. Estamos em um planeta reserva na fronteira do Quadrante Cepheus. É o mesmo quadrante de Keret, mas fica em um sistema estelar diferente. O acesso aqui é fechado para o público em geral nessa época do ano, então achei que era um bom lugar.

— Um bom lugar pra quê? — questionei nervosa, sentindo a curiosidade crescer.

— Para praticar! — Henry sorriu. — Você tem que liberar a energia excedente que esteve acumulada por mais de dezenove dos seus anos… Isso é, quase oito anos no calendário oficial de Keret. É bastante tempo.

— Dezenove anos? — Eu senti meu queixo cair — Mas… quanto tempo passamos no seu laboratório afinal?

— Quando entramos, acho que era a última semana do terceiro mês e agora estamos no 36º dia do décimo mês… — ele comentou casualmente — isso dá… quase… um ano e oito meses no seu planeta.

Eu senti meu queixo cair. Tinha passado dois aniversários sendo operada inconsciente. É claro que eu tinha imaginado que havia se passado um bom tempo, mas não tanto. Afinal para mim, aquela nova realidade ainda se resumia a poucas semanas, considerando apenas o tempo que eu passei consciente, então até esse momento isso não tinha me preocupado tanto.

— Mas… e meu pai? — me lembrei com urgência. Para ele deveriam ter sido anos amargos esperando.

— Eu mantive contato com ele, não se preocupe… — Henry explicou, — ele está aguardando a nossa visita para antes do ano novo.

Eu registrei mentalmente que ele deveria estar se referindo ao ano novo imperial. Eu já sabia que o Conglomerado era um conjunto de planetas e satélites terraformados e constituídos artificialmente, onde até o tempo de rotação e translação era controlado e padronizado. Os anos imperiais tinham exatamente quinhentos dias de trinta horas divididos igualmente em dez meses. Cada mês era dividido em cinco semanas e cada hora tinha cinquenta minutos de cem segundos. Então faltava uma semana e meia para o ano novo.

Isso queria dizer que em poucos dias, eu estaria voltando a Sátie. E sinceramente não sabia como reagir a isso. Mas não tive tempo para pensar no assunto de novo. A tal prática que Henry falou não era nada agradável.

Como ele havia prometido, havia uma parcela considerável de dor, e sempre haveria, desde que eu fizesse isso com os pés no chão. O procedimento consistia em liberar a energia acumulada, e isso se voltava contra mim pois a diferença elétrica que eu causava ao ambiente me daria choques. Mas desde que eu estivesse completamente isolada de qualquer coisa outra que não fosse o ar, isso diminuiria os choques.

Então, uma das coisas que eu precisava fazer era aprender a voar. Essa parte pelo menos me deixou bastante animada, mas logo descobri que não era tão fácil. O treinamento para voar, de acordo com Henry, levava vinte anos imperiais. Isso é, esse era o mínimo de tempo para quem tinha talento e dedicação.

Então, a solução provisória seria eu me acostumar a me descarregar no chão firme até que conseguisse aprender a voar. Pelo menos, o processo de descarga era até bastante simples. Como Henry bem apontou, eu estava me segurando inconscientemente.

A energia da Relíquia estaria sempre querendo sair, e a única coisa que impediria isso era a tensão. Eu apenas precisaria relaxar o corpo, e a energia sairia livremente. Mas o receio de me machucar também me amarrava bastante. Foi só no terceiro dia de prática que eu consegui algum resultado controlado. A energia saiu tímida por entre meus dedos e eu pude sentir meus membros vibrarem. A intensidade aumentava a cada segundo, até se tornar visível. A energia saia em pequenos raios azuis queimando o chão e as bétulas ao nosso redor.

A parte interessante era que essa energia liberada poderia ser controlada e canalizada, dependendo da capacidade do meu controle. Mas quanto mais forte fosse a descarga, mais difícil seria. Foi quando, do nada, como um cano que rachou por causa de uma forte pressão, a “porta” de saída da energia simplesmente se rompeu, e ela começou a vasar indiscriminadamente. Eu cerrei os dentes e me forcei na tentativa de retomar o controle, mas não foi de muita ajuda.

Não sabia como parar.

E a energia excedente explodiu tão intensa que clareou o planalto inteiro, deixando tudo com nuances pálidas de azul. Durou alguns segundos e quando acabou, eu senti o calor de Siever ao meu lado me segurando antes que eu caísse no chão inconsciente.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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