DCC – Capítulo 17 – 3Lobos

DCC – Capítulo 17

O passeio pela cidade

 

Mesmo sem sono, acabei dormindo encolhida na varanda. Ainda voltei, nervosa, mais uma vez ao quarto para pegar ao menos uns cobertores da cama, já que Siever não usava nenhum. O frio agora não era tão intenso e mortal como era no começo, mas era persistente. Era uma coisa com a qual eu deveria me acostumar.

Eu acordei com os sussurros que vinham da entrada da varanda. Um casal com uniformes pretos estava ali parado, me observando. Eu acabei me levantando rápido, nervosa.

— Ah… oi?

O casal pareceu confuso. Eu vim a entender o porquê quando lembrei-me que utilizava o ponto do tradutor universal para conversar com Henry, mas eles provavelmente não tinham um receptor para esse equipamento, e nem eu andava com um tradutor simultâneo. Eu conseguia entender o que eles diziam, mas eles não entenderiam nada do que eu falasse.

Comecei a ficar mais nervosa ainda. Eu ainda me lembrava com calafrios da última “recepção” que tive ao encontrar pessoas de Keret que não me compreendiam, mas para meu alívio Henry apareceu logo depois, sonolento e amassado.

— Que está havendo com essa reunião em minha varanda? — Ele perguntou distraído, esfregando o rosto.

Os dois pareceram tão surpresos de ver Henry quanto estavam por me ver. Eles desculparam-se pela indelicadeza de terem sido vistos, não queriam ter interrompido nada, e que já haviam abastecido e preparado a casa como Henry havia instruído. O que me surpreendeu mais ainda foi a expressão de horror e decepção nos rostos do casal.

— Que foi? — Henry perguntou depois de reparar na minha expressão quando os dois saíram.

— Por que eles estavam assustados com você? — perguntei, sentindo minha própria surpresa.

— Hum… eles? Eles não estavam com medo. Aqui em Keret, é costume que os trabalhadores sejam invisíveis durante o trabalho. Principalmente para os funcionários domésticos. É um cargo de muita honra e confiança, então quanto mais invisível for esse funcionário, melhor ele é considerado. — Ele virou o olhar por cima do ombro, observando o caminho por onde eles tinham saído — Faz uns bons anos que não os via pessoalmente… devem ter ficado constrangidos.

— Isso não é muito impessoal e cruel? — eu perguntei. Tratar alguém como invisível no meu planeta era com certeza considerado algo cruel.

Henry por um momento pareceu não entender a pergunta, mas respondeu logo depois:

— Na verdade, seria se o trabalho deles não fosse apreciado e eu não os considerasse como pessoas. Que eu saiba, ninguém gosta realmente de ser visto trabalhando, não importa a área. É uma coisa muito íntima… desde que os resultados sejam alcançados de forma digna, não tem por que ser visível. Nesse planeta as coisas são tratadas como estando em polos diferentes. O eu profissional é diferente do eu pessoal, e os dois devem ser avaliados e percebidos de formas diferentes… As pessoas não são o trabalho que fazem, mas sim o que fazem fora desse trabalho — ele explicou, mas então parou surpreso ao me olhar diretamente pela primeira vez, — Alésia, que é isso que está usando? É uma camisa minha? — Ele sorriu abertamente e realmente parecia estar se divertindo com isso.

— Algum problema? Não tinha outra coisa para usar… — me expliquei constrangida, me olhando naquele camisão.

— Problema algum… até que ficou bom em você — ele disse com cortesia, — Então, vamos sair?

Eu me surpreendi com o convite.

— Sair? Sair para onde? Quer dizer, não que eu esteja reclamando — falei animada.

— Não sei, sair e deixar o senhor e a senhora Sruar trabalhar em paz, ou eles vão me dar uma bronca. Podemos ir ver a cidade, comprar algumas roupas novas, comer comida de verdade… esse tipo de coisa.

Meu estômago embrulhou ansioso ao ouvir ele falar de comida. Vinte minutos depois, Henry deixou mais algumas ordens com os Sruar, tomou um banho rápido e embarcamos na nave, rumo ao centro da cidade. Henry também havia pegado dois pares de óculos para nós, e recomendou que eu não os removesse em situação nenhuma.

A cidade era bem “perto”. Levou pouco mais de quinze minutos para chegarmos lá. Isso considerando a velocidade da nave, e por que ele respeitou as leis de trânsito. A primeira parada foi na Sue Delicatéssen, e nos acomodamos na varanda aproveitando o sol matinal. Eu não tive pudor em pedir mais e mais iguarias diferentes, de tortas salgadas a doces finos, até não aguentar mais comer. Henry, por educação, ou talvez estivesse tão faminto quanto eu, me acompanhou em todos os pratos.

Em seguida, fomos até o Largo Kalanit, onde havia uma concentração impressionante de boutiques e pessoas carregadas de compras. Eu não soube para onde ir primeiro. Havia cada vitrine mais linda que a outra, todas mostrando cenas e alegorias fantásticas, onde os manequins moviam-se encenando situações diversas, dançando e mostrando as roupas que vendiam.

Henry me levou para cada uma das lojas e me deixou escolher o que eu quisesse comprar, apenas recomendando que seria melhor para mim usar apenas roupas quentes agora. Não daria para simplesmente carregar tantas coisas, ele mesmo parecia estar renovando todo o seu guarda-roupas, então em cada uma das lojas ele deixou o endereço para as compras serem entregues. Ao contrário de como ainda acontecia em Sátie, comprar roupas no Largo Kalanit era algo no mínimo inusitado.

Cada loja possuia logo na entrada um scanner que retirava todas as medidas do corpo dos clientes que entravam. Logo em seguida, aparecia um manequim ambulante que aumentava ou diminuía suas medidas para mostrar um corpo exatamente igual ao do recém-chegado. Então bastava a pessoa mostrar interesse por uma ou outra peça de roupa, que o manequim ativava um receptor holográfico que reproduzia a roupa como se estivesse no corpo do cliente. “Nada melhor do que você mesmo ver como fica a roupa no seu corpo, como se fosse alguém de fora”, como bem disse uma consultora na terceira loja.

Com certeza nunca me diverti tanto fazendo compras, fazendo os manequins que me seguiam vestirem as roupas que eu queria, e podendo brincar com as diversas opções. Estava me sentindo mimada para variar ali, e não iria dispensar a boa vontade de Henry.

Quando finalmente terminamos as compras, já estávamos famintos de novo. Henry me levou até a Sorveteria Aeon, no centro do largo, que se gabava abertamente de ofertar apenas produtos à base de leite de lontras niceianas, onde pedi um sundae grande de frutas azedas. Logo descobri que os sorvetes não eram mais algo eu podia comer. Era extremamente incômodo, como se eu estivesse com sérias sensibilidades dentárias. Então o atendente recomendou o cheesecake de ambrosia, que não precisava ser comido gelado, e eu não me arrependi de aceitar a indicação.

Henry logo em seguida passou em uma galeria e comprou diversos livros. Eu folheei cada um, cuja capa era uma mais bonita e bem trabalhada que a outra. Bons livros impressos em papel eram artigos muito caros e luxuosos. Os melhores ainda eram feitos a mão por artesãos famosos, que trabalhavam as capas com os mais diversos materiais e algum eram inclusive manuscritos, com caligrafias rebuscadas e extravagantes. Verdadeiras obras de arte. Os mais caros chegavam a valer o preço de uma casa nos distritos mais nobres de Keret.

Henry passou o resto do dia me mostrando os pontos turísticos da cidade que ele conhecia, e deixou eu me divertir como quisesse, mas sempre se mantendo a uma distância curta enquanto me observava sorridente. Os dias aqui eram várias horas mais longos que os dias em Sátie, então pouco antes do crepúsculo, enquanto passeávamos pela Orla do Andinus, eu já estava mais calma e cansada. Foi quando alguém se aproximou de Henry e o cumprimentou animado.

— Mas veja se não é o meu velho colega Henry Siever! — disse o estranho só sorrisos, aproximando-se mais ainda de braços abertos, — Há quanto tempo! Onde esteve nos últimos anos? Ninguém teve notícias suas em lugar nenhum!

Henry pareceu momentaneamente desconcertado por ter sido reconhecido, mas foi cordial ao falar com o outro. Eu pude observar que várias pessoas tinham ouvido o outro falar o nome de Henry, tinham parado seus passos, e agora cochichavam e apontavam na nossa direção.

— Como vai Lobrë! Realmente tem um tempo…

— Gente famosa é realmente outra coisa! — disse o tal Lobrë aumentando o sorriso e insistindo nas perguntas, — Então, se voltou para Keret, quer dizer que vai retomar a vida pública?

— Ainda vou avaliar meus planos sobre isso, agora, se me permite, devo continuar… — Henry respondeu sem jeito tentando sair da conversa.

— Ah! Que maravilha! Está acompanhado… — exclamou Lobrë repentinamente reparando em mim, — E de uma moça bem jovem e exótica… No nosso tempo de faculdade, você ainda namorava Cásira, como ela está?

Henry pareceu abertamente perturbado agora.

— Com certeza vai bem, não a vejo há tanto tempo quanto você…

— Realmente… logo antes de sumir você estabeleceu a sua rede de centros de pesquisa. Deveria ser muito difícil manter contato.

Henry sorriu sem jeito, e começou a olhar ao redor. Várias pessoas já haviam se amontoado a essa altura e tiravam fotos deles. Afinal Henry Siever estava sendo visto em público pela primeira vez em tantos anos! Era uma grande notícia. Lobrë de repente percebeu a comoção se formando, e sorriu resignado.

— Desculpe, acabei atraindo atenção para você! Mas foi muito bom te ver. Espero que esteja tudo bem e que possamos nos ver por aí de novo. — Lobrë se desculpou, e animadamente se despediu e saiu.

Henry me segurou pelo pulso e me arrastou rápido de volta para onde o carro estava estacionado. Ele parecia realmente muito aborrecido por ter sido encontrado por um conhecido inconveniente.

— Acabei estragando o dia e terminando o passeio mais cedo do que deveria… me desculpe — comentou ele, chateado.

— Não… não tem problema… eu já estou cansada mesmo! — respondi surpresa ao pedido de desculpas, — Foi um dia excelente, obrigada por tudo mesmo. Você teve tanto trabalho para salvar minha vida e ainda me deu todos esses presentes. Estou muito grata.

Porém, ele não falou mais nada, mesmo depois de chegarmos em casa. As compras já haviam sido todas entregues e havia uma refeição saborosa esperando na mesa de jantar. Acabei me sentindo desconfortável com a postura retraída de Henry, e me lembrei do pesadelo que ele teve durante a noite passada, e da expressão dolorosa que ele tinha na primeira vez que o vi dormindo. Quem será que era Nádia? Fiquei me perguntando. Mas outros nomes me instigavam a curiosidade nesse momento também. Quem era essa tal Cásira que Lobrë mencionou? Ali percebi que pensava ter feito um bom amigo em Henry, mas me caiu a ficha que eu não sabia nada sobre ele.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: