DCC – Capítulo 16 – 3Lobos

DCC – Capítulo 16

Saindo do Laboratório

 

— Então como se sente? — Ouvi Henry perguntar pela enésima centésima vez.

Eu avaliei um pouco para enfim dar meu parecer. Eu já tinha perdido completamente a noção de tempo ali, mas pelo menos tinha certeza de uma coisa: haviam se passado vários meses. E a maior parte desse tempo, eu havia passado em coma induzido nas câmaras de cirurgia de Henry, tendo o meu corpo constantemente refinado.

De fato, não havia sido um período muito agradável. Nem meu humor estava bom depois de todas as vezes que despertava de um procedimento doloroso, que não tinha dado certo e que teria que “voltar para a faca”.

Henry Siever, por sua vez, tinha feito jus à sua fama inicial de maior bio engenheiro médico da história, e havia sido muito compreensivo comigo até nos momentos em que eu me revoltava e gritava tentando quebrar tudo. Nada como ter acesso à um acervo quase interminável de medicamentos para me dopar… mas ele confessadamente se divertia muito com meus rompantes enfurecidos de paciente difícil e às vezes até me provocava.

Eu percebi o esforço dele para conseguir fazer o que havia prometido. Porém, por vezes havia muita dor, e isso me deixava irritada e cansada, ainda mais por conta dos poucos momentos que ele me permitia permanecer consciente. Por vezes, quando ele me induzia a despertar, eu dava de cara com um Henry murcho, com olheiras fundas e roupas amarrotadas. Ele sempre que me acalmava, e eu me via obrigada a abaixar a cabeça, pedir desculpas e agradecer.

— Acho que dessa vez deu certo… — falei, testando o movimento de todos os meus dedos.

Quando estávamos terminando a última etapa da “transformação” que eu precisava passar, algo tinha dado errado, e eu acabei despertando sem sentir metade do meu corpo. Então eu acabei me descontrolando e por conta disso a relíquia havia causado uma descarga involuntária e sobrecarregado meu sistema nervoso, deixando inclusive várias partes do meu corpo com queimaduras. O que não seria problema se Henry já tivesse terminado o isolamento para evitar a condução da energia pelos órgãos vitais. Então eu acabei tendo um pulmão substituído por uma prótese sintética, e todo o meu sistema nervoso teve que ser trocado de novo.

— Ah… finalmente — ele disse aliviado, desabando na cadeira —, você deu bem mais trabalho do que eu imaginei que daria… — ele massageava o próprio pescoço, mas sorrindo, — mas ainda foi mais tranquilo do que a expectativa.

Eu respirei aliviada e perguntei, tentando fazer uso dos meus braços, que há muito tempo não alongava sozinha:

— Então terminou?

— Sim, terminou… — ele respondeu cansado. — Se não se importa, eu pretendo dormir um pouco… me sinto destruído. Mas se me prometer que não vai sair sozinha de casa enquanto eu descanso, já podemos ir lá para cima, ver o céu pra variar…

Eu me animei e pulei do leito empolgada. Queria ver o lado de fora e testar meus novos olhos com uma paisagem diferente de um aglomerado de instrumentos, máquinas e equipamentos médicos.

— Só falta uma coisa — disse ele levantando-se também, indo preguiçosamente para trás da mesa entulhada de livros e telas e abrindo o pequeno congelador que havia atrás. Ele retirou uma grande ampola auto injetável. — Você precisa se lembrar que vai ser jovem e virtualmente imortal… mas ainda pode adoecer ou ser morta, então precisa cuidar da saúde.

Ele se aproximou e eu permiti que ele aplicasse a vacina pela artéria em meu cotovelo. Depois quase o empurrei em direção a porta cheia de ansiedade para sairmos logo. Desde que havia chegado aqui, eu não havia saído do laboratório em hipótese alguma, e até imaginava se ele havia saído também. Sequer conhecia o restante da casa ainda.

Quando a luz do sol de um fim de tarde me encontrou, senti finalmente que estava viva de verdade. Observei a sala em que eu estava. Não era nem de longe tão rebuscada quanto o palácio. Na verdade era um ambiente de decoração muito minimalista, mas definitivamente confortável e luxuoso.

Tinha poucos móveis ali e bastante espaço. O chão era inteiro coberto por um enorme carpete preto e felpudo, contrastando perfeitamente com os móveis brancos e prateados. As paredes eram todas de vidro, separadas por colunas cinzas largas, que permitiam ver o lado de fora onde um belo e bem cuidado jardim se estendia até a cerca viva mais adiante.

Na esquerda havia uma escada que parecia ser de vidro completamente transparente, levando ao piso superior, e à direita, uma belíssima cozinha de paredes em cinza claro com armários pretos e uma bancada de pedra negra brilhante e lustrosa.

— Nossa… até parece que você é rico… — eu disse com ironia. É claro que eu sabia que ele com certeza era. Dava no mínimo para deduzir através da coleção pessoal de equipamentos caríssimos no laboratório dele. — Mas como sua casa pode estar tão limpa e bem cuidada se, mesmo contando com a gente, ninguém tem estado aqui por anos?

— Eu tenho funcionários — disse Henry cansado, enquanto se dirigia para as escadas —, tanto meus negócios, como minha casa mesmo não frequentada, não deixam de ser assistidos por meu pessoal de confiança.

Eu o acompanhei até o quarto dele, onde ele, sem cerimônias, simplesmente se jogou na sua enorme cama de madeira negra e afundou em sono pesado quase imediatamente. Sem saber o que mais fazer, eu comecei a mexer nas coisas ao meu redor. Aparentemente o quarto dele ocupava o andar superior inteiro e estava tudo impecavelmente arrumado. Ele tinha um closet gigante, com uma coleção ainda maior de roupas dos mais diversos tipos. Porém, pelo visto, era tudo antigo e fora de moda, apesar de bem cuidado.

Eu tive que rir daquilo. Mesmo tendo um armário tão grande e impecável, quanto tempo fazia que ele não comprava roupas? Lancei um olhar de esguelha para ele, que estava esparramado na cama, e voltei a olhar as roupas. Me ocorreu, que eu queria tomar um banho de verdade e me livrar daquelas roupas e daquele cheiro de remédios. Procurei ali por algo que pudesse usar, e escolhi um longo camisão dele. Pelo menos poderia improvisar como um vestido e o prender com um cinto para acinturar.

O banheiro estava bem abastecido, e tomei um longo banho perfumado com alguns dos produtos que tinham ali. Meu cabelo tinha mais que triplicado de comprimento e descia ondulado até cachear nas pontas, e me demorei um pouco tentando descobrir o que poderia usar para lavá-lo. Também acabei percebendo que estava bem mais magra do que o ideial, mas a principal diferença eram meus olhos. Estavam iguais aos de Henry agora: prateados.

Achei o contraste estranho com a minha pele caramelo, mas não tinha por que reclamar. Era isso ou permanecer cega.

Quando terminei o banho, desci para a cozinha e lembrei que havia muito tempo que não provava comida sólida, mas não havia nada nos armários, apenas água. Andei pela casa e não encontrei nada que pudesse fazer, então sai para o jardim.

Quando a noite desceu de vez, as luzes da casa acenderam sozinhas, deixando tudo muito bem iluminado. Acabei dando várias voltas pela propriedade até ceder ao tédio e tornar a subir os degraus da escada, mas além da porta para o quarto de Henry, havia apenas mais uma que levava à uma belíssima varanda com uma vista para a cidade. Por fim gastei um bom tempo ali, até pensar sobre o que eu deveria fazer.

Ainda não havia passado muitas horas desde que Henry tinha ido dormir, mas ele não tinha deixado nenhuma informação do que eu deveria fazer, além de não sair da casa. Já estava morrendo de fome, e apesar de eu não ter sono, não tinha lugar nenhum em que eu pudesse dormir também. Então a minha única opção era acordá-lo.

— Ei, Henry… — Eu entrei no quarto de novo sem cerimônias. Ele ainda estava deitado do mesmo jeito que estava quando começou a dormir, — Acorde… estou com fome… ao menos me diga onde tem algo para comer — eu insisti.

Porém, Henry dormia profundamente. Então eu comecei a sacudi-lo, mas ele devia estar mesmo muito, muito cansado. Aborrecida, eu estava prestes a me levantar e voltar para a varanda, quando a mão dele agarrou meu pulso. Olhei para ele esperançosa, mas o rosto dele não demonstrava qualquer sinal de estar acordando, quando ele falou, sussurrando, como se estivesse com dor:

— Não vá… não me deixe fazer isso sozinho…

Eu senti meu queixo cair. Estaria ele sonhando, mesmo ele segurando meu pulso com tanta força? O rosto dele se contorceu em sofrimento… Ele com certeza não estava falando comigo.

— Está acordado? — perguntei quase no mesmo tom sussurrante.

Para meu assombro maior, lágrimas começaram a escorrer de seus olhos fechados e roxos das olheiras.

— Henry! Está tudo bem?? — perguntei angustiada o sacudindo de novo.

Porém, ele continuou parado. Parecia estar tendo um pesadelo que o magoava muito. Que poderia ser afinal? Quando ele finalmente afrouxou o aperto da mão, recuei constrangida, mas antes de cruzar a porta, ouvi ele falar de novo… e de novo… e de novo, repetindo várias vezes o mesmo nome: Nádia.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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