DCC – Capítulo 15 – 3Lobos

DCC – Capítulo 15

Na casa de Henry

 

— Ah… Siever… — eu chamei levemente desesperada — eu não consigo…. não vejo para onde tenho que ir.

Siever tinha aberto a porta e estava me esperando descer, provavelmente havia esquecido desse “pequeno detalhe” de que eu não estava conseguindo enxergar.

— Não me chame de Siever… devemos ser amigos agora, querendo ou não — disse ele ainda risonho, mas me ajudando a sair da nave. — Só Henry já basta… ele me conduziu até uma poltrona no primeiro cômodo do lugar onde entramos.

— Espere um momento… Não venho aqui há anos… Preciso verificar se entregaram os suprimentos que pedi antes de vir, e se ainda falta alguma coisa que preciso providenciar.

— Por que você passou tanto tempo sem vir na sua própria casa? — eu perguntei querendo ouvir a voz dele para não me sentir perdida.

— Eu passei muito tempo sem ir a lugar nenhum… — disse ele distraído de algum lugar mais adiante — Marco se incumbiu de guardar a Relíquia da Criação no palácio até encontrar um novo guardião adequado, e eu acabei ficando lá para não separar as duas.

— Eu não entendo o que Marco tem a ver com isso tudo… — eu comentei  — Eu pensei que tivessem decidido há muito tempo deixar os governos fora disso… Henry aproximou-se de mim e sentou-se na minha frente antes de começar a falar novamente.

— Você faz muitas perguntas… — mas ele suspirou e respondeu mesmo assim — Marco é um canalha… mas não é um mal político. Acho que você sabe que a função do imperador da galáxia é basicamente servir de mediador entre as decisões interplanetárias, não é?

— Sim… mas não entendo como alguém pode sozinho fazer isso… e parece que intimida demais as pessoas para ser um diplomata, não?

— Veja bem, para se tornar o imperador, a pessoa deve tender a um poder peculiar cujo domínio é muito raro de se obter: o Princípio da Onisciência. O imperador deve ser aquele que consegue sentir a intenção real de todas as pessoas e não deve nunca, em hipótese alguma, mentir, para conseguir manter seu poder. Assim, ele pode mediar imparcialmente todos os acordos, evitar ou solucionar guerras, e em caso de discórdia ou ameaças, pode fazer uso de um decreto imperial para instituir o que ele achar melhor ou pertinente e subjugar quem julgar errado.

— Me parece muito uma ditadura… — deixei escapar, — Pensando dessa forma, provavelmente todos devem abrir mão de suas opiniões pessoais para agradar o imperador.

— De certa forma — continuou explicando Henry, que agora mexia em uma série de pequenas coisas que eu não conseguia identificar com essa visão ruim —, mas os planetas participam do Império se quiserem. É uma honra, e na verdade é muito vantajoso. E quando o Imperador decreta alguma coisa, todos acatam, por confiar que ele realmente sabe que isso é o melhor, impreterivelmente.

— Eu pensei que você não gostasse dele… — eu disse me sentindo um pouco confusa com a defesa que ele fazia do Império.

— Não gosto. Ele, como pessoa, já me provou que não é alguém em quem eu possa confiar. Mas ele leva a sério as responsabilidades dele, e cumpre corretamente as obrigações do Império. É apenas normal reconhecer isso. Mas qualquer envolvimento pessoal que ele tenha é corrosivo. Ele é mimado e usa os poderes que tem para brincar com os sentimentos alheios.

Eu pude sentir a raiva de Henry emanar de novo, como se fosse uma onda palpável. Podia até sentir a aura de calor aumentando. Imagino o que de tão ruim Marco poderia ter feito a ele.

— Eu não entendo como você consegue pensar assim…

Henry sentou-se apoiando os cotovelos nas pernas e falou calmamente:

— Brards ainda não tem exatamente consciência de como as coisas acontecem no universo. Eles não vivem o suficiente para formar suas próprias opiniões sólidas sobre como seus próprios mundos funcionam, e nem conseguem enxergar a realidade maior. — Eu me senti levemente ofendida, mas não interrompi. — Jomons, por outro lado, vivem o suficiente para entender coisas das quais não se pode entender em meros cem ou duzentos anos de vida. Apesar das coisas sempre mudarem e melhorarem, histórias sempre se repetem, e as pessoas precisam parar de pensar apenas no que é o melhor pra elas ou para os seus, e parar para considerar o que é o melhor para todos. Então opiniões pessoais não importam realmente no fim das contas… principalmente sobre coisas que dizem respeito a questões sociais.

Eu absorvi o que ele disse. Entendi seu ponto, mas não pude deixar de pensar que Jomons viviam como se fossem formigas, trabalhando para um bem maior sem livre arbítrio.

—  Enfim… você quer saber o que vai te acontecer a partir de agora, ou prefere a surpresa?

Eu me assustei com a pergunta. Era óbvio que eu queria saber o que ele pretendia fazer comigo. Eu sequer tinha certeza se poderia confiar minha vida nas mãos dele, afinal, ele não passava de um estranho. Mas que mais eu podia fazer?

— Explique! — falei.

— Alésia, o que está acontecendo com você agora é que o seu corpo é frágil e não suporta de forma independente longos períodos de tempo sem me usar como uma muleta para manter o equilíbrio térmico. A relíquia não está perdendo calor. Está absorvendo. Inclusive o seu calor corporal. E seu corpo não tem capacidade de manter um metabolismo funcional que crie calor mais rápido do que perde. Então eu vou ter que alterar a forma como seu corpo produz e armazena o próprio calor, de forma que a Relíquia absorva o calor de fora em detrimento do interno — Henry explicou rapidamente, — Outra coisa que deve ser levada em consideração é que você em breve deverá, querendo ou não, expelir o excesso de energia da Relíquia, para evitar que ela entre em colapso. Principalmente nesse momento, em que ela esteve muito tempo sem guardião e está delicadamente instável. Então, quando essa hora chegar, você deve ter um sistema nervoso capaz de suportar e conduzir para fora a descarga elétrica que isso causará, ou seus órgãos internos com certeza serão danificados.

— Então no fim você tem que fazer com que eu me torne uma condutora de eletricidade e consiga isolar calor de forma eficiente… — falei depois de refletir sobre o que ele disse.

— Excelente resumo! — Henry exclamou contente.

— E como pretende fazer isso?

— Essa é a parte difícil. Eu vou isolar cada parte do seu corpo das outras, com fibras sintéticas preenchidas com alotrópicos de carbono, que vão conter o calor de cada parte em separado e ajudar a conduzir a eletricidade quando ela vier.

— Isso não parece ser muito… invasivo? — perguntei pensando que ele provavelmente teria que abrir meu corpo inteiro para fazer esse isolamento.
— Algo assim.

Eu pude sentir que o tom de voz dele era confiante, mas ansioso. Provavelmente ele também parecia consciente de que aquilo não seria uma tarefa fácil.

— Vai doer? — perguntei, sentindo o medo crescer malicioso e se misturar aos meus tremores de frio.

— É provável que em alguns momentos sim… — ele disse, sincero, — Mas farei o que for possível para minimizar isso. — Então ele mudou de assunto e falou com a voz animada, — Você está com fome? Se quiser comer antes de começarmos…

— Acho que perdi a fome… — desabafei nervosa, — Já vamos começar agora?

Henry me pegou pelo braço e me conduziu para uma escada que descia ao longo de vários metros. Eu não sabia dizer se estava escuro ou claro, mal via os vultos e as formas das coisas ao meu redor, como se estivesse tentando forçar a visão num lugar sem iluminação nenhuma. Ele me conduziu por um grande cômodo até uma câmara fechada.

— O que é isso? — perguntei inquieta.

— É capaz de já termos perdido os seus olhos, então vamos começar rápido para evitar perder outros órgãos. — Ele me girou pelos ombros e guiou uma mão até tocar cada coisa enquanto as descrevia para que eu pudesse me localizar. — Você precisa ser higienizada primeiro. Aqui é uma câmara antisséptica. Quando tirar as roupas, jogue-as aqui, pressione esse botão… aqui, ele vai iniciar o banho químico automaticamente, depois coloque essas outras roupas que estão nesse compartimento… então é só sair por esta outra porta. Consegue fazer isso só?

— Claro! — Eu respondi rápido. Não queria ter que me trocar na frente dele.

Henry saiu e me deixou fazer o que ele havia instruído. Assim que tirei as roupas e apertei o primeiro botão, vários jatos de líquido cheirando fortemente a remédio foram horizontalmente lançados de todos os lados das paredes. Antes de um segundo completo eu já estava completamente encharcada. Alguns segundos depois o jato parou e foi substituído por um gás que não tinha um cheiro muito melhor. Parecia queimar meu nariz e garganta e ardia contra a pele, enquanto era como brasa nos meus pulmões.

Já estava achando que tinha algo muito errado e que iria sufocar, quando o gás também parou de vir e foi completamente drenado da câmara, sendo mais uma vez substituído por outro líquido vindo das paredes. Dessa vez parecia ser apenas água, ou soro. Quando a água também parou, foi completamente substituída por um sopro de ar quente que me secou em poucos segundos.

Quando o banho terminou, tossi ainda sentindo o gosto picante do gás na língua, tateei à procura da gaveta com as roupas novas e as vesti. No tato pareciam um conjunto de calças e camiseta de um tecido muito fofo e liso.

Quando saí, Siever já estava me esperando do outro lado. Ele também cheirava ao forte odor de remédio do banho químico, e imaginei que ele também tinha passado por outra dessa tal câmara antisséptica.

— Alésia, agora você está em meu laboratório pessoal. Aqui até o ar é filtrado e só pode ser acessado depois desse procedimento. É aqui que vai morar por um tempo até ficar pronta. — Henry disse gentilmente, e me conduziu para um leito. Logo depois, sem nem mesmo perceber quando, eu dormi.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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