DCC – Capítulo 14 – 3Lobos

DCC – Capítulo 14

Depois da morte

 

Talvez tudo tivesse acontecido…. talvez tudo não tivesse passado de um sonho. Eu não tinha mais como saber se sim ou se não. Eu não sentia mais nada. Parecia que um muito tempo tinha se passado, ou talvez tempo nenhum. Eu sentia como se estivesse em algum lugar confortável e aquecido, mas não sabia dizer ainda se o que sentia era calor ou frio. Talvez os dois ao mesmo tempo.

Quando abri os olhos, tudo estava escuro, e pequenas luzes brilhavam à frente. Fiquei assustada. Onde eu estaria? Tentei reorganizar minhas lembranças. Quase não consegui focar a visão, mas distingui o suficiente para perceber que este não era o quarto do hospital, onde eu estava pouco antes de ouvir Siever dizer que iria me envenenar… Me levantei rapidamente, coisa que me deu sérios arrependimentos.

Minha cabeça girou violentamente, e fiquei seriamente tonta e enjoada.

— É bom permanecer quieta — disse uma voz séria e calma ao meu lado.

Era Siever. Então foi isso… ele realmente voltou pra me buscar e agora eu estava na nave dele, a caminho sabe-se lá de onde…

— Argh… pensei que iria me matar! Pensei que iria me envenenar realmente — reclamei pressionando minhas têmporas, tentando fazer tudo parar de girar tão violentamente.

— Mas eu envenenei… — ele disse tranquilo, — Já se passaram alguns dias desde que você esteve consciente a última vez, e agora você está legalmente morta.

— Que? — perguntei aturdida… devo ter entendido errado por causa da zonzeira.

— Quando eu voltei, injetei uma droga paralisante em você. Essa droga, em pessoas como você, é capaz de paralisar completamente todas as funções metabólicas e vitais por um curto período de tempo. É bastante perigosa nas mãos de quem não souber usar.

Eu ouvi incrédula todo o plano que Siever havia posto em prática, enquanto havia me “matado”. Ele havia esperado a reação desesperada de Daril, que não sabia de nada sobre essa parte do plano para alarmar os médicos. A droga aparentemente era indetectável para o nível de medicina do meu planeta, então eu simplesmente fui dada como morta, por causa de alguma doença desconhecida no planeta.

Depois disso, ele localizou meu pai e se acertou com ele, deixando garantias de que minha vida seria preservada, bem como uma declaração criptografada confessando que havia me levado, e contrabandeou meu corpo de dentro do caixão logo antes de ser cremada. Então ele apenas me colocou na nave e saiu clandestinamente da atmosfera do planeta. Logo antes de eu acordar, ele havia ministrado um antídoto, que me permitiu voltar a consciência enquanto voávamos velozes pela galáxia para a casa dele.

— …Então agora só o que falta é ligar para o seu pai, mostrar para ele que você está viva, e você estará completamente sob minha tutela — disse ele entregando uma caneta de comunicação interplanetária.

Eu conhecia bem as tecnologias utilizadas nos planetas mais avançados e pelos mais ricos do meu próprio planeta. Mas conhecer e ler a respeito, era apenas por distração, cultura inútil que se aprende por aí sobre fatos interessantes. Eu definitivamente não saberia mexer naquilo.

Siever previu isso, então ele mesmo preparou a ligação, e assim que Daril atendeu, ele me passou o comunicador.

— Quanto alívio — disse ele —, eu estava com medo de ter cometido um erro terrível. Como você está?

— Estou um pouco melhor… — disse, tentando ser otimista. Sequer me mover ainda era um esforço tremendo, e meu corpo inteiro ainda doía, não conseguia enxergar direito e tinha uma certa dificuldade de respirar, mas ao lembrar de como estava no hospital, acho que estava no lucro. Pelo menos não me senti com tanto frio daquela forma esmagadora.

Siever manteve a delicadeza de não se meter na conversa. Daril explicou do ponto de vista dele os mesmo fatos que Siever havia contado sobre minha “morte”. Eu ainda senti um leve ressentimento disfarçado na voz dele, ao falar de Siever. Talvez ele tivesse ficado chateado com o fato de Siever ter feito ele acreditar que a filha realmente tinha morrido.

Conversamos um pouco, papai me fazia algumas perguntas sobre coisas que fizemos juntos, e relembramos de coisas que só nós sabíamos, como se esperasse confirmar que essa realmente era eu. Depois de um tempo, eu percebi que ele não queria desligar. Siever precisou interferir para dizer que provavelmente não iríamos poder nos comunicar por um bom tempo, e que seria de bom tom manter o fato de que ainda estava viva em segredo de todos, até o dia em que eu pudesse voltar.

Conversamos até não poder mais, e então quando me despedi do meu pai, continuamos o resto da viagem em silêncio. Eu não chorei mais. Não vi necessidade nem tive vontade. Me sentia tão cansada e sonolenta que a dor parecia irreal, assim como todo o resto. Imaginei o que me aguardava dali em diante. Siever provavelmente não me responderia qualquer pergunta que eu fizesse sobre isso, então não me dei ao trabalho de perguntar. A única coisa que me incomodava realmente agora era a fome.

Mal havia chegado a esse pensamento e para minha surpresa, Siever me ofereceu um pacote de cereais. Me intrigava o fato dele parecer estar sempre adivinhando o que eu queria de alguma forma.

— Mesmo que… — eu comecei a falar um pouco tensa — … mesmo que eu sobreviva, e fique boa disso, eu não vou mais poder voltar para minha família e nem viver no meu planeta, não é?

Eu já sabia a resposta. Ele já havia me explicado antes quando comentou sobre as questões de segurança.

— Você pode voltar a vê-los se ainda quiser — ele disse para minha surpresa —, mas não poderá se demorar demais. Não é bom para nós chamar atenção, ou nos demorar em algum lugar inferior. Ainda mais com todos seus parentes acreditando que você está morta agora.

Então eu me lembrei do Imperador. Provavelmente a pessoa mais importante da galáxia inteira. Me senti miúda e insignificante… um mero brinquedo ou ferramenta nas mãos dele e de Siever. Pelo menos Siever havia tentado evitar parecer como tal e agora tentava ajudar.

— Para onde estamos indo? Vamos voltar para o palácio? — perguntei desejando não voltar pra lá. Não queria encontrar com Marco novamente.

— Estamos indo para a minha casa… — respondeu Siever — lá eu tenho mais estrutura para fazer qualquer coisa no meu laboratório pessoal.

— E onde fica sua casa? — insisti.

— No Conglomerado Imperial. Em Keret mesmo, num distrito mais ou menos próximo ao Palácio Real, que você conheceu — ele explicou, levemente distraído. — Tente se mover um pouco — então ele recomendou, já agarrando meu pulso com a sua mão e sacudindo dolorosamente —, se você não tentar se aquecer um pouco por si só, vai se sentir muito pior.

— Não faça isso… está me incomodando — reclamei gemendo de dor. Me senti aborrecida, pensando que ele estava tentando me machucar intencionalmente. Mas em contraste, o toque com a pele dele realmente era um alívio único. A troca de calor entre as relíquias era insubstituível.

— Não resmungue. Você vai se sentir melhor se mover os braços, vamos!

Eu me senti ridícula sentada ali no escuro tendo os braços chacoalhados por Siever.

— Ao menos ligue a luz — reclamei. Siever não respondeu de imediato. Virou-se para mim e com a mão livre começou a fazer gestos aleatórios na frente do meu rosto — Que está fazendo? — perguntei já irritada agora.

— As luzes… estiveram sempre acesas.

Senti uma pitada de pânico.

— Como assim? Eu vejo tudo como se estivesse no escuro! — Eu levantei as mãos e esfreguei os meus olhos — Que está havendo?

Siever sorriu, então me acalmei mais. Ele provavelmente deveria ter alguma explicação para isso. Deveria ser um sintoma passageiro, ele respondeu:

— Seus olhos já devem estar morrendo — disse ele. Eu escutei em choque. Ele estava novamente dando notícias ruins como se estivesse comentando obviedades. — Sua expectativa de vida atual depende da minha permanência ao seu lado, e o tempo que eu levei para atender os requisitos do seu pai consumiram bastante dessa expectativa.

— Eu vou ficar cega? — perguntei sentindo o pânico aumentar.

— Só se você quiser, já que, como toda a galáxia deve saber, eu sou um gênio da medicina — Siever disse calmamente. — Se depender de mim, você vai estar perfeitamente funcional quando eu terminar… — Ele voltou a atenção para o painel da nave, e eu pude sentir uma ligeira turbulência.

— E o que vai fazer comigo realmente? — Eu não sabia se queria mesmo ouvir essa resposta.

Siever manteve-se calado por um bom tempo. Eu já havia desistido de ouvir uma resposta, quando ele enfim abriu a boca.

— Considerando que você me disse que quer viver, eu vou fazer tudo o que for preciso para isso. Não acho que vá ser tão difícil dessa vez…

— “Dessa vez”?

Eu com certeza estava me sentindo cada vez mais nervosa.

— Eu já fiz isso antes… uma vez — ele explicou. — A pessoa que era a guardiã da Relíquia da Criação antes de você também era uma humana de corpo fraco.

— A tal da minha vida passada… — eu exalei. Essa ideia de continuar a vida de outra pessoa me aborrecia bastante.

— Eu já era um bom médico na época — ele continuou ignorando meu comentário —, mas mesmo assim foi difícil para mim, porque eu não sabia o que fazer… tive que ir descobrindo no percurso, mas acabou dando tudo certo…

— Apesar de que no fim, ela morreu de qualquer forma — eu resmunguei. Sabia que era um comentário cruel, mas não sentia vontade de ser condolente agora.

— Sim… no fim, é o que deve acontecer com todos — ele respondeu apático. Senti uma pontada de culpa e ressentimento na voz dele. Eu imaginei que ele tivesse tentado esconder que foi afetado pelo meu comentário.

— Por que ela morreu? — Eu quis saber.

Ele não respondeu imediatamente de novo. Manteve-se parado por um bom tempo. Eu imaginei se ele sequer estava respirando, tamanho silêncio. Por fim ele comentou.

— Porque ela quis… ela não aguentou e desistiu.

Eu senti a raiva dele transparecer nessas palavras. Mas não senti que era comigo… Será que ele imaginava que em algum momento, apesar do esforço dele em ajudar, eu desistiria e escolheria morrer também?

— Como…

— Chega de perguntas! — ele interrompeu bruscamente. Estava definitivamente aborrecido.

Acabei me irritando também.

— Eu não sou essa pessoa! — ralhei zangada, — Eu sou apenas eu! Não ache que eu tenha motivos para desistir da minha vida.

Por algum motivo Siever achou muita graça e passou um bom tempo rindo. Só pude me sentir desconcertada, quando ele finalmente parou para falar:

— Chegamos… — ele desceu e abriu a porta da nave para mim — agora vamos ver quanta dor você aguenta antes de dizer isso de novo!


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: