DCC – Capítulo 13 – 3Lobos

DCC – Capítulo 13

Prognósticos

        

Eu e papai ainda permanecemos aturdidos no quarto sem falar nada por um bom tempo, observando o lugar onde Siever havia desaparecido. De fato, pude acreditar que ele realmente havia partido dessa vez pois o frio foi se intensificando cada vez mais. Daril também percebeu assim que me viu tiritando, tentando aquecer as mãos esfregando uma na outra.

— Eu não entendi… — questionou Daril preocupado — ele foi providenciar o que pedi, ou fugiu? — Eu pude sentir a aflição nas palavras dele. Ele me olhava como se tivesse medo que eu partisse ao meio em pouco tempo. — Devemos levar você logo a um hospital?

— Não sei… eu também não entendi… — eu disse, realmente incerta. De fato, Siever tinha muito poucos motivos para tentar me ajudar. Se ele por acaso achasse alguma das exigências de Daril difíceis ou contraproducentes, será que ele não escolheria em seguir o tal “plano prático”?

Porém, eu querendo ou não, em pouco tempo Daril já estava em pânico. Eu tinha ficado muito cansada e com sono, e cada vez mais gelada. Eu senti a pele de papai como fogo contra a minha, e mesmo assim, aos poucos esfriando apenas por me tocar.

Eu dormi. Ouvia vozes espaçadas às vezes, comentando coisas sem sentido. Tinha impressão de às vezes estar dormindo dentro de uma piscina muito escura, e tudo estava calmo, como se mais nada importasse e dormir fosse a única coisa que valesse a pena no universo inteiro. Dormir não me daria frio ou dor, e acordar seria terrível, em contrapartida.

Horas depois, de fato foi. Eu acordei enrolada em uma manta de alumínio elétrica, que irradiava calor incessantemente para o meu corpo. Era contraditório: sentia como se estivesse assando por fora, e congelando por dentro. Todas as minhas articulações doíam. Todos os ossos, músculos e pele. Mesmo piscar e mover os olhos parecia um esforço sem fim, e mesmo abertos ainda deixavam minha visão turva. Não demorou muito para perceber que também estava com um tubo enfiado profundamente em minha traqueia, me obrigando a respirar.

Assim que perceberam que eu havia acordado, as pessoas que conversavam próximas a mim aproximaram-se mais e debruçaram-se nas laterais do leito. Apesar de vê-los como vultos, percebi que o primeiro era Daril, e o outro provavelmente um médico, por causa do contorno branco que vinha de suas roupas. Daril parecia prestes a desmoronar a qualquer momento, e questionava o médico, impaciente.

Quando ele falou, então, percebi que não eram vozes falando coisas sem sentido. Eu que não conseguia mais entender o que estavam falando. Será que alguma coisa estava me impedindo de ouvir? Eles haveriam coberto minha audição de alguma forma que dificultasse entender o que falavam de tão perto?

O médico balançou acima de meus olhos uma lanterna que parecia ser terrivelmente ofuscante. Eu a segui e pisquei confusa tentando evitar o incômodo da luz. Tentei mover os braços e afastar a mão do médico com a odiosa lanterna, mas parecia que alguém tinha roubado minha coordenação motora, e não consegui governar os próprios braços para onde queria, como se estivesse movendo-os de longe por um controle remoto muito complicado e com pouco alcance.

Os dois, Daril e o médico, pareceram interpretar a minha reação de forma positiva. Eu tentei falar, mas o tubo me impedia de emitir qualquer som que fosse. Me senti terrivelmente cansada de novo, como se a mera ousadia de querer me mover fosse algo além de minhas possibilidades físicas.

Estava quase em pânico. Me manter viva, disse ele. Esqueceu porém de avisar como se fazia isso, pensei, amargurada. Sequer a manta parecia estar fazendo muito efeito além da sensação dolorosa e desconfortável de estar sendo queimada viva.

Aparentemente tinham percebido minha agitação como algo bom, mas não bem-vinda no momento. Logo depois, eu agradeci por isso, uma sensação torpe preencheu meu corpo, e em poucos minutos o frio e o calor pararam de incomodar. Talvez tivesse voltado a dormir, e talvez tivesse dormido e acordado milhares de vezes.

Sonhos e pesadelos acorriam em imagens sem nexo no grande espaço vazio da minha mente. Eu não entendia o que estava sonhando, se é que estava sonhando. Nada mais fazia sentido, apenas os sentimentos explosivos intensos que brotavam do nada, e partiam com a mesma velocidade. Medo, raiva, alegria, euforia, tristeza… e logo em seguida…. o vazio.

Muito tempo depois, ou talvez quase tempo nenhum, acabei acordando de novo. Não abri os olhos, mas não sentia mais nenhuma confusão sobre onde eu estava, nem da tortura que estava sentindo. Pessoas estavam ao seu lado conversando. Podia senti-las, como se fossem fogueiras vivas irradiando perto de mim.

— …e ninguém tem sequer um prognóstico — pude ouvir alguém dizer, registrando vagamente, que agora conseguia ouvir o que diziam. — Nunca viram um tipo de quadro desses antes e não têm ideia do que fazer para tratar… — a pessoa parecia estar dando notícias para alguém. Movi um pouco a cabeça e tentei ver quem era. Minha visão ainda estava muito turva, mas supus ser mamãe pelo tom de voz — … não, não podemos supor que ela contraiu alguma doença antes de desaparecer, já que ela reclamou desse frio no dia das explosões, mas não há como questioná-la, ela está sendo mantida sedada a maior parte do tempo… — Alya conversando pelo Link. Provavelmente passando as notícias para alguma das minhas tias  — … não, o médico descartou a possibilidade de contágio… pois é, o único sintoma que identificaram foi essa hipotermia anormal e intensa… Eles estão mantendo-a com aparelhos… Não sei… parece que se o quadro não reverter, ela pode entrar em choque e sofrer uma parada cardíaca a qualquer momento…

Eu gemi com as palavras. A última coisa que poderia estar querendo ouvir agora era o tom de voz displicente da mãe ao falar de minha provável morte. Mamãe sempre havia sido displicente. Imaginei agora, com ironia, se ela não sentiria falta da própria filha caso Siever voltasse e me levasse, ou o contrário… não voltasse e me deixasse morrer. Para onde ele havia ido, afinal? Haveria realmente desistido de me salvar?

Me movi inquieta no leito. Alguém se aproximou devagar e me olhou. Com as mãos, moveu delicadamente uma mecha de cabelo da minha testa, e pude sentir a pele dele estremecer ao contato com a minha. Não consegui focar a visão e distinguir quem estava ali, mas de alguma forma supus que fosse meu irmão Alan.

— Está acordada! — ele sussurrou para os lados, e pude ouvir uma movimentação ao meu redor. — Oi Alésia…. consegue me ouvir?

Eu pisquei com força, enquanto olhava o que supunha ser a cabeça do irmão, na esperança de que ele entendesse esse sinal como um sim. Alya rosnou uma rápida despedida e também aproximou-se do leito ao lado de Alan. Do outro lado, outra pessoa também se aproximou, e da forma como senti que era Alan à minha direita, senti que era papai à esquerda.

— Oi, minha querida! — Daril sussurrou carinhosamente, — Não tente se mover, está bem? Os médicos estão fazendo o possível… vai dar tudo certo… — Eu imaginei que papai não houvesse contado nada sobre Siever para ninguém. Talvez ele ainda estivesse esperando também. Mas me ocorreu naquele momento mórbido, que a primeira prova exigida de Siever estava sendo demonstrada naquele momento. Nenhum médico dali poderia me salvar.

Sem ter mais o que pensar, fazer ou sentir, sem conseguir falar, e acreditando piamente que sequer estava respirando, tendo o ar forçado para dentro de meus pulmões por algum ventilador mecânico, acabei por me resignar ao vazio daquele momento, e incrivelmente me senti muito lúcida em relação às pessoas a seu redor.

Algum tempo depois, Alya decretou que precisava ir, pois tinha que descansar para trabalhar no dia seguinte, e que de nada ajudaria ficando ali para esperar qualquer notícia que fosse. Daril por sua vez insistiu em ficar, e se disponibilizou a passar qualquer informação nova assim que recebesse alguma.

E eu, apesar da sensação de exaustão, permaneci acordada até bem depois de Daril cair no sono em alguma poltrona nas laterais. Fiquei um bom tempo imaginando formas aleatórias para os vultos que dançavam na frente de meus olhos turvos.

Em um belo momento, as formas pararam de dançar, e apesar de minha visão ainda estar muito ruim, vi alguém se aproximar. Pelo calor intenso que irradiava, o qual eu podia sentir mais claramente do que o de qualquer outra pessoa e que de alguma forma confortava toda essa dor, imaginei que fosse Siever.

Uma sensação de alívio me preencheu. Então ele não havia me abandonado. Porém, ele vinha com um ar travesso de quem tinha aprontado, carregando algo na mão, que pressionou contra a pele do meu antebraço. Eu suspeitei que tivesse sentido uma picada, mas não tive tempo de digerir essa dúvida, pois logo em seguida ele falou:

— Me desculpe, mas acabei de te envenenar…

Eu não tive tempo de questionar, mesmo que quisesse, não poderia… Me envenenar? Por que? Não tive tempo nem sequer de entrar em pânico. Siever havia decidido um prognóstico ele mesmo. Então, nos segundos seguintes, o vazio.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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