DCC – Capítulo 12 – 3Lobos

DCC – Capítulo 12

Alternativas

 

— Mas que… Você…. você! Que faz aqui? Como?? — Daril se assustou, e não por menos. Siever tinha aparecido do nada atrás de nós sem que percebêssemos, e estava de pé, ligeiramente arrogante e incisivo. Daril ergueu-se ainda aturdido, e se virou para o outro.

— Eu estive aqui o tempo todo — disse Siever baixinho, sentando-se elegantemente do outro lado da cama, como se estivesse pronto para discutir negócios financeiros. O tradutor fazia a conversão simultânea entre os idiomas — Mas já que, pelo visto, sua filha tomou a decisão de compartilhar sua pequena desventura nesses dias, apesar de meus avisos — disse lançando um olhar severo para mim —, achei que seria melhor tentar um acordo pelo menos com o senhor.

Daril ficou aturdido por um momento. Lançou um rápido olhar para o instrumento nas mãos de Siever e voltou sua atenção aos olhos prateados dele. Limpou a garganta e falou, com a voz firme. Parecia estar decidindo ainda qual era a melhor reação a expressar nesse momento.

— Que tipo de acordo?

— Como expliquei para sua filha mais cedo, existem certas questões legais que precisam ser discutidas para garantir a integridade diplomática entre seu planeta e a sede do Império. Ela não pode mais ficar aqui, por causa disso que está a matando — disse Siever rapidamente, igualmente firme.

— Questões legais? Que é isso que está a matando? — Daril titubeou.

— Por questões de segurança imperial, eu não posso explicar o que é que está afetando-a tanto, mas posso dizer que é… uma substância que se impregnou no corpo dela. É de certa forma inofensiva para os de minha raça, mas a de vocês é bem mais sensível e frágil. O corpo dela não pode suportar.

— Vocês estão criando bioarmas para nos aniquilar! — Daril exclamou assustado, lançando olhares rápidos de Siever para mim.

— Por favor, não diga isso… — disse Siever impaciente, e aparentemente ofendido. — Não tem porque eu, nem ninguém, criar armas desse tipo. Não faz sequer mais sentido, já que não existe mais uma guerra ou uma situação que possa criar uma. E é exatamente isso que estou tentando evitar aqui.

— Então o que é isso que está nela? Por que não pode dizer? — Daril esbravejou.
Mas a resposta não veio de Siever.

— Pai, escute… — Daril voltou sua atenção pra mim, — Ele me disse o que é… eu vi! E entendo o porquê de não poder contar pra ninguém… Eu já sabia antes, quando conversamos e não contei por causa disso… se puder, por favor, não insista em tentar descobrir.

Daril acalmou-se um pouco, mas parecia realmente muito exaltado ainda. Eu reparei que Siever tinha ficado bastante tenso e agora estava relaxando de novo. Provavelmente ele achou que eu estava prestes a contar sobre a relíquia para o meu pai.

— Mas seja o que for essa coisa, minha querida, só pode estar mesmo te matando! — disse ele preocupado. — Você está gelada e com uma aparência horrível… isso não é normal.

— Senhor Latrell, me ouça — insistiu Siever —, o que está dentro de sua filha, combina com o que está dentro de mim. São duas coisas que se anulam perfeitamente e isso dará a ela mais tempo pra resistir, desde que eu permaneça próximo — Siever explicou. — Mas mesmo se eu permanecer aqui ao lado dela, isso terá um limite.

Eu só pude me encolher com as palavras dele. Essas não eram boas perspectivas e eu cada vez tinha mais medo do que poderia acontecer comigo dali em diante.

— Como sei que não está tentando roubar minha filha? Que não está mentindo ou que quer simplesmente usar ela de cobaia pra alguma arma que não quer admitir que está criando? — perguntou Daril.

Siever sustentou o olhar de Daril, mas não respondeu de imediato. Isso só estava me deixando mais e mais nervosa com aquela situação.

— O que quer que eu faça para comprovar que não estou tentando fazer nenhuma dessas coisas? — perguntou Siever displicentemente. — Meu plano inicial, se me perdoa a ousadia, tinha se limitado a forjar a morte de sua filha e levá-la comigo sem impedimentos legais. Ela não pode mais pertencer a este planeta. Permanecer aqui e ficar longe de minha supervisão só irá causar dor e a morte dela. Ainda sendo prático, o mais fácil pra mim seria realmente permitir a morte dela, e então remover a tal substância do corpo. Mas essa não é uma opção muito inteligente. Ela, de alguma forma mágica, foi levada até onde eu estava, e carrega o que é minimamente necessário para sobreviver a essa… digamos… doença.

— Forjar… eu… ela… mágica…?— Daril balbuciou — Você quer levá-la desse planeta com você?

— Sim — respondeu Siever.

— Por que não pode fazer o necessário para salvá-la daqui? — acusou Daril. Siever respirou fundo, impaciente. Acabei por me perguntar isso também, agora que a dúvida tinha sido levantada pelo pai.

— Aqui não há aparatos de proteção suficientes para manter a segurança minha, dela e de vocês… A mínima tentativa de instaurar qualquer interferência nesse tipo nesse planeta, aparentemente não condizente com essa necessidade, irá chamar atenção, assim como uma permanência estendida minha, caso ela seja descoberta.

Papai e eu acabamos ficando aturdidos por um momento enquanto assimilávamos as palavras de Siever. Por fim, Daril continuou os questionamentos:

— E por que há a necessidade de tanta proteção? De quem você não quer chamar atenção?

— Essas substâncias que eu e ela temos agregadas ao corpo são muito valiosas — disse ele simplesmente. — Já houveram casos de tentativa de “roubo” e, bem… isso não é algo muito simples, quando se leva em consideração que só sairão um dia em que estivermos mortos. Então o ideal para a nossa segurança e das nossas famílias é chamar o mínimo possível de atenção que pudermos de potenciais ladrões.

— E o que tem a ver o Imperador Gionardi nessa história? — Daril perguntou, lembrando-se da história da filha. — Ou não era ele que ela me disse ter encontrado?

Por um momento Siever pareceu realmente enfurecido à menção do imperador, mas então respirou fundo e respondeu aborrecido:

— Bom… ele é a fonte de segurança mais ah…. confiável que tenho tido acesso.

Eu podia até sentir no ar que era realmente muito a contragosto que Siever se sujeitava a Marco. Me perguntei então o que poderia ter acontecido para tanta inimizade, que ia muito além dos recentes acontecimentos. Já Daril estava refletindo tão concentrado que eu pensei poder ouvir sua mente trabalhando.

— Certo então… — disse Daril lentamente — e qual é realmente o seu plano? Mesmo que você me prove o que está dizendo e eu decida acreditar e apoiar, você também precisa convencer a mãe dela, já que, como você bem falou antes, existem questões legais a serem esclarecidas.

— O meu plano é bem simples — começou Siever como se estivesse prestes a explicar as regras de algum jogo de cartas comum. — Eu forjo a morte dela, de forma que a família execute um funeral, e eu possa substituir o corpo e levá-la comigo para onde seja seguro e eu consiga realizar qualquer procedimento necessário para mantê-la viva.

— E se eu me recusar a compactuar com isso? — Daril questionou, insistente.

— Se isso acontecer, infelizmente, só me sobrará a alternativa prática que lhe falei anteriormente: deixá-la morrer e drenar do corpo a substância que a está matando, antes que se conecte a outra pessoa daqui. O ideal seria que ninguém ficasse sabendo, mas já que ela o envolveu, só posso contar com sua colaboração, para que ela possa contar com a minha.

Daril o encarou por um longo tempo. Eu já podia sentir a tensão de papai na pele. Então, do nada, ele afastou-se de nós dois, fez um sinal com a mão pedindo tempo, e começou a andar de um lado para outro resmungando para si mesmo. Siever, como eu bem registrei, permaneceu sentado pacientemente, quase distraído, e ainda elegante na borda da cama, esperando meu pai terminar de discutir consigo mesmo.

— Então… — disse Daril por fim — me prove que o que está dizendo é verdade, e eu posso pensar em ajudar… desde que me garanta a vida dela. — Ele deu mais algumas voltas pelo quarto e começou a enumerar — Como posso saber que outro médico não pode curá-la? Eu preciso saber que ela realmente não vai sobreviver se nada for feito especificamente por você… E quanto à sua identidade… me deixe um documento por escrito, programado para descriptografar daqui há um tempo específico, com a sua marca de identidade, para que eu possa te expor para a justiça, caso não volte com ela.

Siever confirmou com a cabeça, então se levantou, aprumou-se bem e se dirigiu à janela.

— O que vai fazer? — perguntei confusa.

— Eu recomendo que fique em um hospital e tente sobreviver até eu voltar, e não falem nada sobre o plano a mais ninguém — disse ele com um sorriso sádico, e desapareceu no vazio.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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