DCC – Capítulo 110 – 3Lobos

DCC – Capítulo 110

A Partida de Briane

 

Não vou dizer que aquele “instinto”  de Henry não me convenceu. Mas eu também não tinha nada mais sólido do que achismos para embasar minha teoria. Mas eu sentia nas profundezas da minha alma que alguma coisa não estava batendo. Se Marco não era a identidade secreta dessa tal Dhar, então os dois deveriam ter algum tipo de relação ainda.

De qualquer forma, eu não discuti mais esse assunto com Henry. Já tinha se passado muito tempo sem que eu o visse, então aproveitei aquele momento apenas para curtir a presença dele enquanto estivéssemos a sós. Eu me sentia cada vez mais emocionalmente dependente dele, principalmente por conta de nossas almas ligadas. Sequer ver um sorriso de felicidade naquele rosto redondo e idiota já iluminava o meu dia sem medidas.

De alguma forma, parecia que ele tinha sido extremamente provocado e frustrado ao ponto de converter isso em vigor e de repente ele não tinha mais a carinha idiota e fofa, mas o olhar faminto de lobo mal, então Henry também parecia estar bastante satisfeito em finalmente poder estar ao meu lado.

A Princesa de Kanis tinha dado uma bela recuada depois do fracasso em me expulsar da academia, mas ela ainda não havia desistido de tentar arrumar algum motivo para qualquer um de nós, inclusive Isaac, acabar sendo vítima dos esquemas dela.

O plano dela era de fato bem simplório. Ela já sabia que Briane deveria acompanhar a comitiva de Belchior III para o festival de ano novo imperial, então ela pretendia usar aquela ocasião para mostrar um vídeo gravado do momento em que abusavam de Briane, na frente de todos aqueles políticos.

Não seria muito problemático, se no vídeo – que é claro, eu já tinha visto – eles não tivessem usado um feitiço para controlar os movimentos do corpo de Briane para fazer parecer que ela estava fazendo parte daquela orgia consensualmente. E de novo, o plano tordo, igual o de Emil, de acusar Briane de ser uma obliterante. Se nesse meio tempo ela pudesse provar que os amigos com quem Briane se associava eram más influências, então era um ponto bônus contra Briane.

O uso de crisálidas obliterantes… o padrão era muito parecido para ser uma mera coincidência. Desde que eu fiquei sabendo da existência de Dhar eu não consegui tirá-lo da cabeça, de repente eu me sentia como se cada sombra estivesse me perseguindo, então eu precisava parar e respirar fundo para me acalmar. Não seria assim tão fácil. Se Dhar quisesse por as mãos em mim ele poderia muito bem ter feito isso durante o tempo em que estive na Lua Laplantine e ninguém nunca iria saber. Não é possível que o tal fulano que se diz deus não pudesse determinar minha localização.

Além do mais, se eu estava praticamente à mercê de qualquer um naquele momento, então o objetivo dele não deveria ser simplesmente as Relíquias, senão teria sido um vacilo muito grande da parte dele.

Enfim, tentei o máximo que pude espantar para longe todas essas especulações. Nada disso tinha propósito se eu não tivesse fatos para me ajudar. Eu tinha que me concentrar em preparar as contramedidas para a armação contra Briane, e logo, o dia de partir chegou.

A comitiva de Belchior III vinha em uma fragata de médio porte que solicitou autorização para atracar nas intermediações do anel externo. Várias outras fragatas e cruzadores espaciais começaram a chegar e partir levando seus respectivos nobres para o grandioso festival. Henry veio até o nosso apartamento ver nosso planejamento.

— Briane irá como planejado junto com a comitiva oficial, — eu comecei a explicar para todas. — Nós iremos na nave de Henry logo atrás assim que a princesa de Kanis deixar de nos observar. Ela está esperando para ver se alguma de nós vai acompanhar Briane.

— Ainda fico impressionada como você consegue descobrir tantas informações, — Briane perguntou.

Para despistar, eu puxei para cima a manga do meu braço esquerdo, revelando o console Sophia perfeitamente disfarçado.

— Caramba! Você carrega isso o tempo todo com você? — Michelly perguntou impressionada. Ela gostava muito de artigos tecnológicos. — Um processador dessa capacidade já deve ter cozinhado seu braço!

— Não tem problema, eu ainda sou uma androide, esqueceu? Eu tenho um sistema de resfriamento muito eficiente — eu disse tranquilizando ela. Todas então se amontoaram ao meu redor para dar uma olhada.

Se bem que o problema de superaquecimento de qualquer coisa nunca seria um problema comigo. Eu sequer tinha reparado que o console esquentava. Essa provavelmente deveria ser a melhor combinação de máquina e magia. Enquanto eu poderia fornecer indefinidamente energia elétrica para o console e mantê-lo sempre ligado, em contrapartida eu também poderia imediatamente absorver todo calor gerado pela máquina sem o mínimo de esforço.

— Muito bem, vocês devem acompanhar Briane até a comitiva dela e despedirem-se como se fossem passar um bom tempo sem se ver, — Henry disse botando ordem na conversa. Imediatamente todas as outras se calaram e ficaram quietas. Elas respeitavam Henry profundamente a ponto de ouvir qualquer coisa que ele falasse.

Acompanhamos Briane até a nave de ligação com a fragata. Dissemos nossas despedidas e a observamos partir. Briane parecia bem abatida e desanimada. Ela não mostrava mais aquele sorriso alegre e espontâneo que tinha desde que a conheci. Mas eu iria trazer ele de volta. Nem que eu mesma tivesse que usar meus poderes de Obliquação para apagar essas lembranças ruins da mente dela.

— Muito bem, é isso… — Isabel disse com um olhar fixo no ponto distante que era a nave onde Briane estava.

— Uma pena que Rael não veio se despedir… — Michelly disse abraçando a irmã.

— Rael irá conosco para Keret, — eu disse calmamente enquanto puxava as meninas de volta para nosso apartamento.

— Uau! Então você vai contar para ele que você… tipo assim… com aquele cara? — Márcia disse animada. Ela não se atreveu a falar a informação inteira em voz alta, graças.

— Bom, isso é só metade da surpresa, afinal… — eu disse me sentindo cada vez mais desanimada.

— Então Rael realmente tem algum suporte poderoso por trás dele, não é? — Isabel sussurrou animada.

— Vocês vão descobrir quando chegarmos… — eu expliquei cabisbaixa. Essas “revelações” me embrulhavam o estômago. Eu detestava estar no meio de tantos segredos.

Quando chegamos ao apartamento, Henry ainda estava lá, em pé na sala, de braços cruzados olhando com um olhar sério e intimidador na direção de… Isaac, que já tinha chegado e estava sentado encolhido com cara de culpado na mesa da copa de jantar.

— Rael! — Isabel chamou animada sem dar a menor atenção para o clima tenso. — Eu sei que pode parecer um choque, mas esse é o verdadeiro Henry Siever! Ele é nosso aliado, mas você não pode contar para ninguém.

Eu me aproximei de Isaac e afaguei seus cabelos.

— Vocês dois conversaram? — eu perguntei apreensiva olhando de Isaac para Henry.

— Talvez… — Isaac disse com a voz baixinha.

— Você sabia disso? — Henry perguntou, para mim dessa vez, como se eu tivesse acobertando um crime hediondo.

— Sabia. Nos encontramos por acaso no primeiro dia! — eu disse sem rodeios.

— Então por que… — Henry começou a falar zangado, as meninas se encolheram confusas sem entender o que estava acontecendo.

— PORQUE! — eu levantei minha voz antes de continuar, dando uma ênfase bem ressaltada no “porque” sem sequer mudar a expressão, — o segredo não era meu para compartilhar. Porque! Se ele tinha motivos para guardar segredos, eu deveria respeitá-los. E porque! Ele não correu risco nenhum esse tempo todo. Você acha que eu também não o olhei de perto? Isaac é um amigo muito importante para mim.

— Mas vir para este lugar escondido, sem deixar ninguém saber… — Henry começou a reclamar de novo.

— E qual é o problema? Por acaso você não fez o mesmo? Por acaso a primeira oportunidade que teve de viajar e conhecer o mundo, você não deixou sua própria casa contra a vontade de seus pais para viver a vida que queria?

— Mas eu tive consequências… e…

— E faria tudo de novo! — eu constatei por ele, dessa vez sorrindo e me aproximando dele. Então eu o puxei para baixo e dei um beijinho na bochecha. — Ele não está sozinho. Ele não fez nada sem tomar cuidado. Ele é muito responsável. Eu não sabia que você era tão careta… — eu disse fazendo cara de decepção.

Henry piscou algumas vezes como se estivesse confuso.

— Careta? Eu não sou careta. Se meu filho quer conhecer o mundo e aprender coisas novas, é claro que ele pode! Eu só estou um pouco chateado por ter sido deixado de lado…

Então ele baixou a cabeça e ficou sacudindo um dos pés fazendo drama.

— Não se comporte como idiota na frente dos outros. Enfim. Já que estamos todos aqui, podemos ir…

Então eu olhei para a cara de profundo choque no rosto das meninas enquanto elas olhavam rapidamente de Isaac para Henry e de Henry para Isaac como se um balde gelado de compreensão tivesse sido jogado nas cabeças delas de uma vez.

— I-i-isaac? — Isabel balbuciou.

— Vocês são pai e filho? — as outras disseram em uníssono quase aos gritos.



Nota da autora

Então, tenho uma notícia que envolve as razões que fogem ao meu controle e da qual eu tenho que atender doa a quem doer. É que, não sei se sabem, como boa loba eu também sigo carreira docente e estou em atual fase de Mestrado. Depois de árduas batalhas, sangue pra todo lado, desmembramentos, lágrimas, trolls, goblins e cachorros amarelos que esticam, o Mestrado finalmente me colocou contra a parede com a espada em minha garganta.

Para vencer essa batalha sangrenta e enterrar esse bendito no lugar que ele merece (de preferência publicado e nas prateleiras mais próximas de vossas senhorias) preciso upar toda a minha estamina nessa peleja. Para tanto. Pelos próximos dois meses ou até o final dessa Guerra, DCC infelizmente entrará em hiato. Claro, sempre que der vou dar uma passadinha aqui e conferir como estão as coisas, e se pá mando um desenho novo quando tiver um tempinho de sobra pra Galeria (já deu uma olhada lá?). E não se preocupem que a novel não será abandonada. Palavra de Fulor!

As boas notícias é que eu posso até me motivar mais em terminar mais cedo e assim voltar mais rápido para continuar a escrever (que é a minha paixão do fundo do coração). Até lá,

Um xeiro da nega pra todos!


 

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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