DCC – Capítulo 11 – 3Lobos

DCC – Capítulo 11

O plano

 

— QUÊ??? — Eu gritei indignada, quase engasgando com um pedaço de biscoito.

— Se todo mundo acreditar que você está morta, será mais fácil levá-la, — disse ele, como se estivesse combinando um passeio à tarde na hora da aula

— Como assim “me levar”? — Minha voz saiu esganiçada e rasgada, ainda tossindo.

Henry suspirou, impaciente. Sua expressão parecia a de alguém que queria explicar processos de Terraformação para uma criança de dois anos enquanto ela assistia programas de tv.

— Existe, eu imagino que saiba… uma ferramenta muito peculiar, em que o DNA das pessoas pode ser cadastrado e assim a pessoa pode ser localizada em qualquer lugar, viva ou morta.

— Sim, sei… foi você quem inventou. A polícia usa para localizar bandidos, pessoas desaparecidas e coisas do tipo — eu respondi aborrecida. É claro que eu me lembrava das aulas de Genética Aplicada, onde o professor, fã de cientistas revolucionários de toda a galáxia, sempre citava as invenções do famoso Siever (caramba! Ainda não acredito que é ele!!!

— Ótimo. Então, se você desaparecesse por muito tempo, as buscas iniciariam com esse aparelho. E ele não iria encontrá-la aqui — Siever cruzou as mãos sobre os joelhos e me encarou com tremenda intensidade. Eu não pude deixar de sentir como se ele fosse realmente alguém muito velho e sábio — A única maneira de um aparelho desse tipo não localizar uma pessoa, é se ela não estiver em um planeta do império, ou se seu corpo tiver sido desintegrado de alguma forma, a ponto de não restar mais nenhum vestígio sequer.

— Então a última coisa que queremos é que você tenha seu DNA cadastrado no sistema galáctico de desaparecidos, ou um escândalo interplanetário sobre sequestros, principalmente vindo do seu planeta, que também sofreu muito com as guerras xenofóbicas. Não vejo como explicar para sua mãe uma forma de levá-la comigo, sem explicar a causa de sua “doença misteriosa”, ou sem usar meu nome ou do Império, o que seria igualmente problemático e chamaria atenção desnecessária… então o mais fácil é simular sua morte. Ninguém procura pelos mortos. Dessa forma, posso desvincular seu DNA de qualquer banco de dados e apagar você da existência.

Eu só pude encará-lo boquiaberta. De fato ele parecia ter um plano. E de fato ele parecia ter pesado as consequências. E de fato, isso envolvia me levar embora.

— Eu não posso fazer isso com eles! — ralhei — Temos tido problemas, mas nada que justifique! — Agora eu andava de um lado a outro gesticulando freneticamente. — Com que cara eu vou poder voltar e dizer que eu na verdade não morri? — Não tinha sido uma pergunta retórica, então me virei para Siever e esperei a resposta.

— Você não volta! — Ele foi taxativo.

Eu já imaginava que ele daria essa resposta. Já havia imaginado desde o princípio. Então me senti fraca novamente. Dessa vez de tristeza.

— Tem que haver outra alternativa… E se eu falar que fugi? Não pode ser contado como sequestro!

— Senhorita Latrell… Alésia… pense! Você ainda é menor de idade aqui. Se você fugir, óbvio que tentarão buscá-la de volta. E também, veja por esse lado: se você for tida como viva, há a possibilidade de um dia alguém descobrir sobre você. E se quiserem te usar, te atingir, em proveito de alguma causa, não acha que seguir o seu rastro genético até a sua família seria a forma mais fácil?

— Sinto muito por você ter sido carregada para essa maldição, mas ao que parece, é o seu destino, — Siever calou-se por um instante, e girou o gerador de realidade aumentada por entre os dedos — assim como foi o meu… — e soltou um longo suspiro e passou a encarar o teto. — Daqui há uns anos, eu nem poderei mais aparecer em público, por exemplo… não que eu tivesse tido vontade para isso por tempos antes de você nascer — e ficou em silêncio por um instante de novo. — A minha aparência não muda, como a sua não vai mudar. Eu sendo uma figura pública, o garoto gênio da galáxia sobre quem holofotes e refletores de imagem estiveram focando por anos, se eu mostrar meu rosto publicamente ainda parecendo um garoto… surgiriam perguntas… e onde há perguntas, há o desejo por respostas.

— Eu nunca pensei que tivesse que abandonar a minha família… você não disse… — eu senti um nó pesado na garganta se formar; nunca havia pensado realmente no futuro — Pra onde irá me levar?

Porém, Henry não respondeu. Apontou com urgência para trás de mim, para a porta do quarto, e eu me virei para olhar — O que… — mas quando olhei de volta para cama, ele não estava mais lá. Fiquei aturdida por um momento. Ele tinha desaparecido! Eu estava prestes a chamar o vazio quando alguém bateu na porta. Então era isso…

— Alésia? Está acordada? Posso entrar? — Era Daril. Provavelmente tinha pego com Alya um cartão de identificação para abrir a porta de casa e conseguir vir me visitar pela manhã. Mas ele não esperou uma resposta. Abriu a porta devagar e olhou pela fresta para mim, com a cara espantada — Aconteceu alguma coisa, querida?

— Pai… Oi! — eu não soube como me portar, sabia que naquele momento ele estaria me medindo de cima a baixo.

Papai aproximou-se e encostou o dorso da mão esquerda em meu rosto com delicadeza.

— Você parece um pouco melhor, mas ainda está fria como gelo… — Ele não escondeu a preocupação em seus olhos.

— Ah… estou um pouco melhor sim… não se preocupe tanto. — Eu não pude encará-lo lembrando da conversa que tinha acabado de ter com Siever.

Mas Daril me puxou gentilmente de volta para a cama como se tivesse medo que eu partisse como uma escultura congelada, e sentou-se ao meu lado segurando com força as minhas mãos.

— Como não vou me preocupar, se você ainda está nesse estado logo após me dizer que está prestes a morrer?

Deixei escapar a surpresa no meu rosto. Ele tinha acreditado nas minhas palavras

— O senhor acreditou na minha história? — perguntei.

— Devo dizer que foi difícil no começo manter a mente aberta pra isso. Mas você sabe que eu trabalho pro governo no departamento de transportes. Posso ter acesso às câmeras de vídeo da rua se eu solicitar. E eu solicitei…

— O que estava procurando? — fiquei confusa por um momento.

— Bom… pude verificar duas coisas — disse ele sério — Que de fato desde que entrou no hospital, nenhuma câmera conseguiu registrar você saindo, e você não apareceu mais em nenhuma gravação até ontem pela manhã quando desceu de um veículo que ainda sequer está disponível no mercado e sequer é permitido para uso civil no nosso planeta. Nem mesmo eu consegui descobrir a origem dele pelas imagens — eu entendi onde ele queria chegar antes que ele terminasse de explicar —, então só posso presumir que o que me disse era verdade.

— Eu sinto muito, pai… — eu não sabia pelo que pedir desculpas, mas as palavras simplesmente saíram.

Daril pegou um monitor de dentro do casaco e o ligou, mostrando uma imagem bem aproximada do carro de um ângulo frontal. Mostrava perfeitamente o rosto de Siever, inclusive seus olhos prateados.

— Eu sei que as gravações não foram editadas, mas o veículo simplesmente sumiu de onde estava! Quer dizer… você tem certeza que ele era quem diz ser? — Daril perguntou inquieto. Eu só pude dar de ombros. — Seja como for, eu fiz o reconhecimento de retina dos olhos dele, apesar de serem próteses, os dados dele de fato batem com os do jovem cientista “Henry Siever”, mas ele parou de aparecer em público há mais de cinquenta anos! E este aqui ainda está com as mesmas feições…esses Jomons são mesmo absurdo!

— Ah… — eu imaginei como poderia explicar isso sem contar para ele sobre as relíquias, mas Daril não estava esperando uma explicação sobre isso.

— Então não tenho mais o que fazer além de acreditar em você. Mas o que eu posso fazer pra te ajudar? — ele perguntou, aflito.

— Eu realmente não sei pai… não sei o que fazer, não sei o que vai acontecer comigo… ele… — eu estava prestes a contar do plano de Siever quando me lembrei de que talvez fosse de bom senso manter o plano em segredo (apesar de eu já ter aberto minha boca e falado tanto), se era para dar certo e protegê-lo, não que eu concordasse em levar esse plano adiante.

— Você é minha filha querida… — Daril envolveu a garota nos braços, estremecendo ao menor contato direto com a pele dela. — Eu estou disposto a tudo pra te ajudar!

De repente alguém respondeu, e não tinha sido eu. Papai se assustou completamente. Siever erguia-se impositivo ao lado da cama com a postura ereta e os braços cruzados, como se estivesse ali o tempo todo.

— Então vamos testar o quanto isso é verdade? — disse ele sério, com a voz saindo pelo tradutor seguro na mão, pra Daril compreender.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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